Oficina.Online

15 de maio de 2013

CARLOS QUEIROZ TELLES – 20 ANOS DE UMA ETERNIDADE PÓSTUMA

17 de fevereiro de 2013
por Fioravante AlmeidaHá exatos 20 anos morria um dos maiores dramaturgos brasileiros da década de 1970 e 1980: Carlos Queiroz Telles. Ou, simplesmente Queiróz, para quem teve a sorte de conviver ou trabalhar com ele.

Sempre bem humorado e autor de frases inesquecíveis (“Jamais despreze um conselho de quem te olha no espelho.”ou “Na pior hora da luta, sempre aparece um filho da puta.”), Carlos Queiroz Telles participou dos grandes momentos do teatro brasileiro moderno. Desde a fundação do Oficina quando o grupo, ainda amador, engatinhava nas arcadas da Faculdade de Direito do Largo São Francisco até a criação de textos que se tornaram espetáculos memoráveis na cena nacional.
Curiosamente, após se formar em direito no ano de 1959, Queiróz só retorna à dramaturgia em 1972; com A Semana – Esses Intrépidos Rapazes e Sua Maravilhosa Semana de Arte Moderna, num texto que busca nova abordagem ao histórico movimento de renovação das artes no Brasil.
A partir daí foram anos de muito escrever. Segue-se Frei Caneca e A Viagem, grandioso espetáculo dirigido por Celso Nunes e produzido por Ruth Escobar que valeu ao autor os prêmios Moliére e APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, entre outros.
Mas o melhor de Queiróz ainda estava por vir. Entre 1974 e 1975, instigado pela situação política do país e o milagre econômico que vivíamos, ele lança seu olhar para os esquecidos. Assim nasce A Bolsinha Mágica de Marly Emboaba, história de uma jovem do interior que acaba caindo na prostituição, texto traduzido e encenado em várias capitais europeias. Em seguida escreve o seu maior sucesso nos palcos: Muro de Arrimo; dirigido por Antonio Abujamra e que projetou Antonio Fagundes, nacionalmente. Em desempenho elogiado e premiadíssimo, o ator vive um operário da construção civil que, enquanto levanta um muro, ouve no rádio uma partida da seleção brasileira na Copa do Mundo. A derrota do Brasil no futebol é também a derrota do homem brasileiro diante da situação social que vivíamos.
Outras peças vieram então; Arte Final onde o autor acerta as contas com o mundo da publicidade, um ofício que sempre esteve presente em sua vida, a Revolta dos Perus e Draculinha, A Vida Acidentada de Um Vampirinho, escrita em parceria com Eneas Carlos Pereira; grandes sucessos do teatro infantil.  Seus últimos textos; Banzai Brasil e Paulista em Revista, permanecem inéditos.
Além do teatro, Queiróz dedicou-se aos roteiros de cinema, televisão (novelas e minisséries) à literatura, sobretudo aquela voltada ao público infanto-juvenil, e à poesia.
Um ser humano eternamente apaixonado pela vida. Esse era Carlos Queiroz Telles. E foi justamente aquele que mais move a paixão, quem lhe pregou uma peça: O coração. No dia 17 de fevereiro de 1993 “de tanto bater, seu coração parou”. Mas a sua obra não. Ela continua em movimento; encenada, lida e revivida por todos nós, brasileiros.

Bárbaros Tecnizados, ATACAR!!!

5 de setembro de 2012

 A TecnOrgya trouxe para a Rua Lina Bardi (o atual Teatro Oficina) e seus arredores, ocupados pelo movimento de criação do Teatro de Estádio Oswald de Andrade e da Universidade Antropófaga – cyberespectadores do mundo inteiro com ânsia de comer o Manifesto Antropófago macumbado pelo Tyazo Uzyna Uzona.

Desde 1999, quando fez uma primeira experiência em Boca de Ouro, usando apenas uma câmera, o Teatro Oficina Uzyna Uzona transmite as peças via internet. Desde então as condições para essas emissões ao vivo variaram muito. Às vezes foram realizadas com o mínimo: um link de internet 3G, duas câmeras, muita paixão no corte de vídeo e o som captado por celulares! Em outras, como em algumas viagens pelo Brasil e no exterior, havia melhores equipamentos e melhor conexão, como em Liége, na Bélgica, no início do ano, ou em Salvador, na Bahia, em 2010. Em Canudos, no encerramento dos Sertões em 2007, a transmissão tomou todo o link da cidade, que contava com apenas duas lanhouses e não tinha internet nas casas, e mesmo assim a emissão dos cinco espetáculos da Obra de Teatro Total sofria com as lufadas de ventos que cercavam o Estádio Municipal onde estava armado o Teatro de Estádio.  Mas a Macumba Antropófaga teve um tesão diferente.  O canal no Livestream.com nos trouxe, através do chat, a lábia portuguesa, canadense e principalmente a brasileira. Uma relação de proximidade com os fãs que vivenciaram todas as macumbas em todos os finais de semana, no Teat(r)o Circo.

No final de cada uma delas, rolava a interação com os atores, um gozo para encerrar as noites de sábado e domingo.

Essa proximidade aumentou com uma fan page criada no Facebook pelos próprios internautas,  a FÃS DO TEAT(R)O OFICINA UZYNA UZONA.

Os cybers comiam todos os tabus totemizados durante as cenas, principalmente o maior deles: FICAR NU! E enviaram fotos assistindo a peça PELADOS! Foi uma bela galeria que arrancou as mais diversas reações da plateia cozinhando ainda mais o banquete. Uma cruz preta na testa de todos!!!

Nessa temporada tivemos também a novidade de conteúdos montados com exclusividade para quem acompanhava pela internet, como os vídeos de making of, recados do tyazo antes de entrar em cena, e trechos ao vivo também apenas para quem estava acompanhando pelo site como dicas de como é feita a maquiagem e o cortejo pelas ruas do Bixiga contado-cantado pelo grande feiticeiro Artaud Zé Celso.

Quando saímos em turnê pelo Hinterland Paulista, em SESCS de Campinas, Bauru e Araraquara, tivemos novos equipos para transmitir de maneiras, até então, não descobertas. O que sabemos foi que o Livestream se tornou uma grande memória dessa viagem e agregou mais tupys nesse caldeirão. (http://new.livestream.com/uzyna/)

Mas a coisa mais bacana que aconteceu nessa levada foi o nascimento do Mister L. A HackerEntidade que esteve em todos nós durante os últimos meses e que estará sempre em nosso World Wide Web.

Bárbaros tecnizado, ateh  jah.

O que saiu na imprensa de Campinas e região sobre a Macumba

6 de agosto de 2012

O caso do despejo da Casa de Produção

24 de julho de 2012

Em julho de 2012 a Folha de São Paulo noticiou que o Oficina estava ameaçado de despejo de sua Casa de Produção, onde funciona o corpo administrativo, de acervo e de produção da Cia., por falta de pagamento do aluguel. O jornal O Globo se interessou pelo fato e decidiu entrevistar duas pessoas da Cia., Camila Mota (atriz e produtora) e Ana Rúbia, diretora de Produção. A entrevista, cedida a Luiz Felipe Milen Reis, do Caderno 2, segue abaixo.

A Petrobras, que fora citada na matéria da Folha, também esclareceu sua posição em seu blog Fatos e Dados. A nota pode ser encontrada aqui: http://fatosedados.blogspetrobras.com.br/2012/07/20/patrocinio-ao-teatro-oficina-resposta-a-folha/

Que acontecimentos fizeram com que os integrantes do Oficina estejam sem receber e, como você disse, vivendo de empréstimos bancários?

Ola Felipe, desde a montagem de OS SERTÕES a companhia assumiu a opção estética pelo coro de multidões em montagens de óperas de carnaval. Essa situação foi possibilitada pelo patrocínio contínuo da Petrobras desde 2005, mas, paradoxalmente, é insustentável manter a multidão trabalhando ininterruptamente por 12 meses ao ano. A subvenção da Petrobras, muito bem vinda e celebrada sempre, só mantém a cia completa trabalhando por no máximo 5 meses. Todos os anos vivemos essa situação sazonal: 7 meses de seca e 5 meses de chuva. A única exceção foi em 2010, quando recebemos um apoio do Minc, através de um convênio e pudemos trabalhar por 10 meses com um corpo técnico artístico de 88 pessoas, montando teatros de estádios para 2000 pessoas em 8 capitais do país, e apresentando gratuitamente 4 espetáculos de nosso repertório, além de dar oficinas de todas as artes que compõem o trabalho do Teatro Oficina Uzyna Uzona. Em cada tempo de seca, como agora, os artistas saem em busca de suas sobrevivências, alguns conseguem empréstimos nos bancos, e dessa forma, não param, investem sua energia no trabalho na cia. Outros, a contragosto, se vêem obrigados a realizar uma série de pequenos trabalhos paralelos para sobreviver, o que interfere diretamente na qualidade estética do grupo, que tem boa parte de seus ensaios desfalcados.

A mais antiga cia do Brasil não pode parar 7 meses por ano. Em 2012, ao mesmo tempo em que buscamos todas as fontes conhecidas e desconhecidas de recursos, na nossa re-existência, recriamos a MACUMBA ANTROPÓFAGA e ficamos em cartaz nos meses de maio e junho para fortalecer a assembléia permanente de artes. A bilheteria dos espetáculos foi a única fonte de renda recente, e mesmo cobrando o preço máximo permitido por nós, R$50,00 – porque temos a proposta do teatro para multidões –, é óbvio que a receita, quando dividida por 71 pessoas, seja irrisória.

No final do ano passado fomos procurados pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e pela primeira vez houve o entendimento da necessidade concreta de sermos subvencionados. Iniciamos as negociações para firmar um convênio, mas emperramos na Burocracia. As leis atuais são muito rígidas e, mais do que isso, não são compatíveis com a criação artística. O seu modelo é o da construção civil, dos equipamentos em larga escala. Nenhum convênio prevê contratações e compras especificadas pelas necessidades da Obra de Arte e é impossível trabalhar com a economia informal. Não podemos contratar mão de obra no Bixiga, onde se situa o teatro, porque a maioria dos artesãos, artistas e operários não é pessoa jurídica.  Pretendemos debater questões como essas em um de nossos próximos projetos.

Trabalhamos para devolver à Cultura seu papel de infra estrutura da vida. A Burocracia é criação da Cultura, então estamos dedicados à criar, em parceria com poderes públicos e privados, novas formas de gestão cultural, que desburocratizem a subvenção à coletivos como o nosso e tantos outros que ano a ano afloram.

Quanto é o custo anual para a manutenção das atividades do Oficina? Quanto o Oficina tem garantido para fechar essa conta até o fim deste ano? E para o ano que vem?

Em nossa menor dimensão:

– Aproximadamente R$400.000,00, por mês, para custear os salários do tyazo [todo o corpo técnico artístico administrativo produtivo criador]

– Outros R$40.000,00 por mês, para manter o terreiro eletrônico e seus cyber equipamentos

– Mais R$35.000,00 por mês,  em gastos com a estrutura física do teatro e de seu acervo (precariamente guardado) + energia elétrica, água, limpeza etc… + a segurança do terreno do entorno, que está cedido em comodato pelo Silvio Santos.

– Cada montagem de uma ópera de caranaval brasileira custa em média, R$200.000,00 em materiais e serviços de terceiros.

Seguimos atrás de novas receitas. Temos garantido R$1.000.000,00 em patrocínio da Petrobras, que já está com o contrato assinado. Além disso podemos captar mais R$1.200.000,00 para a montagem de Akordes e a finalização do filme Dionizyacas em Viagem, por meio da lei de incentivo federal. E há outros R$500.000,00 disponíveis para captação via lei de incentivo estadual (ICMS), também para montagem da peça. Ou seja, seguimos em busca de novos patrocinadores.

Continuamente somos convidados para apresentar peças de nosso repertório no Brasil e no Mundo. Por sermos uma cia grande há dificuldade em concretizar boa parte dos convites, o que seria uma substancial fonte de renda. A mais recente parceria foi firmada com o SESC SP e agora em agosto apresentamos a Macumba Antropófaga em Campinas, Bauru e Araraquara. Aguardamos que o Instituto Imersão Latina de BH seja bem sucedido e consiga captar o valor para nos levar para lá ainda este ano. Três cidades do Oeste do Pará também se esforçam para que juntas proporcionem nosso espetáculo antropófago para os povos da floresta. Por fim, desde o ano passado, alunos da Universidade Federal de Santa Catarina também se empenham em realizar uma apresentação nossa em Florianópolis.

Para 2013 ainda não há garantias de patrocínio, mas a máquina do desejo não para e desde OS SERTÕES aprendemos a ser caboclos persistentes.

E sobre o projeto do Anhangabaú da Felicidade, como anda a negociação com Silvio Santos, o projeto do Zé Celso de teatro-estádio está perto de sair do papel? Há novidades?

Sílvio Santos desde o ano passado assumiu querer a troca dos terrenos do entorno do Oficina por terrenos de igual valor em qualquer lugar de São Paulo (sua carta de intenções segue em anexo). Mas como ele é um homem artista dos negócios, ele tem urgência. O ritmo da burocracia, por sua vez, é lento. O projeto do Anhangabaú da Feliz Cidade, que inclui o Teatro de Estádio, a Universidade Antropófaga e uma Oficina de Florestas, ano a ano sai do papel e ganha concretude na ocupação com arte desse mesmo terreno, cedido em comodato por um ano. Infelizmente os trâmites oficiais que vão possibilitar as estruturas físicas desse projeto ainda estão no papel. E faz parte da nossa rotina uma mobilização incessante para reverter essa situação e para que definitivamente este terreno ser conquistado pela cultura antropófaga.

A cia não espera a resolução desses trâmites para a realização do conteúdo desse projeto, em permanente elaboração e evolução. Ano passado foi aberta a primeira turma da Universidade Antropófaga, um novo modelo de troca de saberes, onde é muito importante o auto didatismo, um processo antropófago de absorção e deglutição de conhecimentos.

Novidades surgem a todo momento. E uma das mais instigantes delas é a gestação da Copa da Cultura 2014 no Teatro de Estádio Oswald de Andrade, que nasce como movimento natural da Universidade Antropófaga.

Desde já estamos empenhados em instalar no terreno do entorno do Oficina a estrutura que será sede dos Jogos de Arte, para reunir multidões e grupos, coletivos, artistas de todas as áreas e de todos os lugares ligados à antropofagia.

Desejamos a imprescindível participação dos Ministérios da Cultura, dos Esportes e do Turismo na realização dessa empreitada, muito necessária para o crescimento cultural do país. A Cultura Antropófaga é necessária pois lida com cultura como fator desestabilizador, essencial para a criação de novos parâmetros num país em franco crescimento como o Brasil.

Quais as próximas criações do Oficina? O grupo está trabalhando em que novo projeto? quando ele será apresentado?

Estamos ensaiando AKORDES, um espetáculo a partir da peça de Brecht Das Badener Lehrstück vom Einverständnis, que trata da importância de estar de acordo, com previsão de estréia para fins de outubro de 2012. Essa peça está na base do estatuto da Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona e traz uma revolução no conceito de ajuda. Em paralelo preparamos um projeto chamado Convênio Exemplar Irresistível para Criação de um Novo Acordo, onde vamos criar uma maquete viva do projeto do Anhangabaú da Feliz Cidade e nesse espaço realizaremos uma série de debates e ações onde o tema central é Cultura e Burocracia, contracenando com os agentes da gestão cultural.

Macumba no Metro News

14 de junho de 2012

Matéria Online: Teatro pode sediar Copa da Cultura se sair do papel

Ata da reunião de tombamento do Teatro Oficina pelo IPHAN

24 de abril de 2012

Baixar o PDF:

64ª reunião – Tombamento do Teatro Oficina

São Luiz – Lisboa, janeiro de 2012

22 de março de 2012

http://estadocritico.wordpress.com/2012/01/24/abaporu-o-homem-que-come-gente/


Agradecimentos de Liége

2 de fevereiro de 2012

Email de Sérgio Rangoni, diretor do Teatro de La Place e do Europalia em Liége, para o comissário João Carlos Couto:

“Monsieur le Commissaire,

Cher João Carlos,

 Nous voulions vous remercier très sincèrement de tous les efforts qui ont été réalisés conjointement par le Brésil et par le Festival Europalia.Brasil pour la présentation d’un programme de théâtre et de danse de grande qualité à Liège.
Je voulais très rapidement revenir sur les différentes manifestations que nous avons accueillies et sur leurs chiffres de fréquentation.

Ce fut pour nous un plaisir d’accueillir « Pororoca » de Lia Rodrigues. Le public liégeois qui avait déjà eu l’occasion de connaître son travail a ainsi pu apprécier une nouvelle fois l’exigence et le raffinement de Lia. La rencontre après le spectacle a permis un échange de grande intensité avec son public.

« Matadouro » de Marcelo Evelin fut, à mon sens, une soirée importante. Si une large part du public s’est opposée à ce spectacle, sa radicalité a fait débat, comme en témoigne le courrier que nous avons reçu ainsi que le succès de la rencontre qui a suivi la représentation. Les 250 spectateurs qui y ont assisté ont montré que la soirée avait suscité bien des interrogations.

Formidable ouverture de notre programmation d’Europalia.Brasil, « Au Cœur de la tempête » du Ballet Teatro Castro Alves a reçu un énorme succès à Liège auprès d’un public enthousiaste, conquis par la beauté et la force du ballet. La Compagnie en osmose véritable avec Claudio Bernardo a pu rencontrer l’émotion et l’imaginaire des spectateurs liégeois.

Enfin, nous avons été très heureux d’accueillir « As Baccantes », même si nous avions mesuré combien c’était difficile, complexe et coûteux. J’ai rarement vu le public être à ce point emmené avec plaisir et bonheur. Ce fut une véritable aventure, un évènement exceptionnel et probablement unique pour nos spectateurs.

Nous vous remercions d’adresser tous nos remerciements à l’ensemble des compagnies accueillies au Théâtre de la Place ainsi qu’à toutes les personnes qui nous ont aidés à réaliser cette édition liégeoise d’Europalia.Brasil, et en particulier Madame Bia Gross, Coordinatrice de production auprès du Ministère de la Culture.
J’adresse copie de ce courrier à Mesdames  Bloeme van Roemburg et Bozena Coignet qui ont permis également que cette édition soit une réussite chez nous.
Je vous prie de croire, Monsieur le Commissaire, cher João Carlos, à l’assurance de mes meilleurs sentiments.
 Serge RANGONI,

Directeur général”

Oficina censurado nas redes sociais

7 de dezembro de 2011

O perfil do Teatro Oficina Uzyna Uzona no Facebook foi desativado na quinta-feira passada, 1º de dezembro, após o banimento de duas fotografias onde atores apareciam nus.

Em uma dessas fotos o ator Marcelo Drummond, no papel de Oswald de Andrade aparecia nu, de frente para a câmera, sem maquiagem, em cena da Macumba Antropófaga. A cena é a da devoração de Oswald de Andrade pelos índios antropófagos, quando este, já despido pelo índios, tenta convencê-los a não realizar o rito canibal.

A outra foto banida trazia a roda de índios preparando-se para o ritual canibal de Oswald de Andrade, dessa vez em cena da 1ª apresentação da Macumba Antropófaga, em Inhotim, Minas Gerais, em junho de 2010.

Nesta mesma quinta-feira havia sido publicado no Facebook, aparentemente por alguém que criou um falso perfil com essa finalidade, uma troca de emails entre artistas da Companhia procurando solucionar uma situação delicada: algumas crianças do bairro do Bexiga, que desde o início da temporada da Macumba Antropófaga acompanhavam o trecho inicial da peça, encenado nas ruas do entorno do teatro, quando encerrou-se a temporada e o Oficina entrou em um breve recesso, passaram a ter o acesso restringido. Contrariadas com isso, pois insistiam em permanecer dentro do prédio, ameaçaram os zeladores e administradores do espaço com testemunhos falsos sobre o que presenciaram enquanto puderam participar da Macumba Antropófaga.

Denunciamos ao Facebook o perfil que publicou essa troca de emails, com a provável finalidade de boicotar nosso trabalho, mas mesmo assim, no dia seguinte, tivemos nossa conta desativada.

Nas “guidelines” que explicam como se dá o desativamento das contas, o Facebook informa que, dependendo do grau da infração cometida, não precisa avisar ao proprietário do perfil que a conta será desativada. Foi o que aconteceu conosco e assim perdemos o contato direto que tínhamos com 5000 pessoas – nosso perfil tinha atingido o número máximo de amigos – além das mais de 4000 que acompanhavam nossa página, somando quase 10000 pessoas que ainda repassavam nossas informações a outras. Perdemos também as milhares de fotos publicadas, não apenas por nós mesmos, mas por fotógrafos que acompanham nosso trabalho e publicavam em nosso mural, algumas dezenas de vídeos e toda a informação que, ao longo de três anos, publicamos no Facebook.

Alguns meses antes nosso canal no Youtube havia sido encerrado. Depois do banimento sucessivo de vídeos que traziam cenas de nudez, e das inúmeras tentativas de tentarmos nos defender alegando o caráter documental de nosso trabalho, o serviço de vídeos na internet encerrou nossa conta e deixou inacessível uma centena de vídeos que mostravam a importância e a qualidade de nosso trabalho, publicados ali desde o ano de 2004, e vistos milhares de vezes pelo público.

Entre a expulsão do Facebook e o encerramento do canal no Youtube tivemos ainda nossas fotos no Flickr, cujo serviço contratamos e pagamos anualmente, restritas. Apenas as pessoas com conta no Flickr podem acessá-las atualmente, e quando se busca por palavras-chave referentes ao nosso trabalho o Flickr não dá resultados. Temos aproximadamente 4000 fotos publicadas ali, entre elas toda a cobertura de nossa turnê nacional de 2010, as Dionisíacas, que percorreram oito capitais brasileiras com quatro peças encenadas em Teatros de Estádio para 2000 pessoas, erguidos em cada localidade.

O que fica evidente, é que as aclamadas redes sociais, a que tantos atribuem uma revolução na informação, hoje são incapazes de manter público o trabalho de um dos mais importantes teatros do mundo.

Estamos sendo apagados dessas redes por censura. Só podemos imaginar que este seja um reflexo, no campo virtual, de uma realidade. Nos dois planos o Oficina encontra enormes barreiras, mesmo neste momento de passagem de Eras, mas é claro, não desiste.

Estamos reestruturando o modo como dispomos nossos conteúdos na internet. Os movimentos de ocupação, em todo o mundo hoje, dependem do apoio de grandes firmas de segurança para conseguir manter no ar as informações que divulgam, esquivando-se de governos e corporações. Assim como o Oficina, estes movimentos que buscam transformar a realidade atual tocando diretamente os tabus, sofrem reação violenta de controle. Mas a rede reintegra-se, e assim como Dionísio, o Oficina, e o eterno movimento da revolução, ressurgem, mais fortes e preparados.