Rito do Entusiasmo – Cacilda!!!!!

19 de agosto de 2014

*Texto escrito pelo ator Roderick Himeros para o programa de Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada, em julho de 2014.

Roderick Himeros é Adolfo Celi em Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada. Foto David Ferreira.


Pelas Artemanhas de Eros e da divina Afrodite, a força motriz da criação – a Paixão – movente de um ser amorteatro é desfeita em uma imensa desilusão.

Vão Brincar com nosso Amor.

Multidão presente no entusiasmo do Rito. Foto Diogo Souza.

A Rainha é decapitada por uma bela Monstra de olhos azuis. Cacilda em múltiplas exclamações, seus fios do corpo elétrico estão desencapados de tanta emoção!!!!! De seus restos comidos pela Tragédia, nasce um novo Entusiasmo, desponta a aurora de um novo tempo, novas paixões.

O Entusiasmo é contagiante, é o fogo primal para formar outros elos inesperados, que aqui nos ligam nesta contracenação desequilibrada entre contrários da multidão aqui presente. O Entusiasmo que é também fabricado por nós, Multidão atuante, no rito Teato. Estamos todos no mesmo rito. Mesmo os que desprezam esta sagrada Arte não passam imunes à magia teatal – podemos fazer deles o próprio eixo da Ação. Cada um de nós, Multidão, traz em si outras muitas Multidões de personagens, e é preciso atuar neste aquiagora e seus contratempos, lançar-se em cena, alimentar esta máquina do desejo. Buscamos juntos “a Peça” pra apresentar na Terra, nesta Edade, de que maneira, vivos, mortos vivos, vivos mortos, fazem sua travessia para a Ethernidade..

Te-Ato e Emancipação – As mulheres em Cacilda!!!!!

13 de agosto de 2014

*Texto escrito pela atriz Juliene Elting para o programa do musical Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada.

Hoje é uma dessas noites, quando tudo de repente começa a fazer sentido. Tudo, desde o início, desde o primeiro dia do meu segundo nascimento, nos palcos tropicais. Tenho um insight que me toma com tamanho bomba atômica. Essa peça, para mim, é sobre a mulher.

Quando conheci a companhia fazendo Os Sertões,
em Recklinghausen, na Alemanha, me apaixonei, além de tudo e
especialmente, pelas mulheres no
palco.
Elas exalavam uma força arcaica, como nunca havia visto. Eles pareciam unidas num forte laço invisível, numa cumplicidade mágica. Ao mesmo tempo, cada uma atuava no seu ritmo único, expandindo a sua beleza particular com inteligência cênica e força pessoal. Fiquei fascinada. E deixei-me raptar pela Camila Mota e toda a Cia, que me levaram em 2005 para o Brasil. E foi aqui que percebi que eram mesmo as mulheres que seguravam esse Tyazo dourado com suas raízes fortes. Era uma tribo quase matriarcal. E eram também elas que enfrentavam o seu diretor permanentemente, em desafios criativos durante todo o processo, sem medo e com a mesma paixão incondicional pelo teatro vivo.

O maior risco – e ao mesmo tempo o maior êxtase – do fazer teatral é o momento da completa nudez. Quando todas as máscaras caem e morrem, quando não há mais nenhuma chance de se esconder, é aí que nasce a magia. Do nada brota o todo.

Na nova peça, as camadas da biografia de Cacilda e os enredos das peças originais, mais do que nunca, se confundem conosco, artistas do Oficina e seres humanos nesse mundo de 2014. A nossa vida está permanentemente em jogo, como a da protagonista. Trabalhamos com eletricidade de alto risco. Desnudamos Cacilda e, junto a ela, nós mesmos.
Cacilda como mulher e atriz atravessa o labirinto nesse novo trajeto numa transformação radical, com uma clareza que não reconheço nas outras peças. Ela não demora mais com pequenices, vai logo ao cerne das coisas. Na sua busca em pulso constante, nem ela, nem seu autor Zé Celso parecem mais querer perder tempo, como alguém que sente o tic-tac do relógio da Dama Morte.

E realmente é ela, a morte, que está presente o tempo todo. As três Cacildas flertam com ela descaradamente: Em Seis Personagens, Cacilda entra como personagem morta; em A Dama das Camélias ela morre devagar, junto ao seu amor por Celi; e em Antígone ela entra na tumba da terra decidida a ser plantada.

Na pele desses três personagens mórbidos ela luta pela vida no eterno conflito com o poder – o poder do sistema, mas também do autor, do diretor, do marido, do noivo, para afinal se entregar livre de todas as correntes ao seu único amor possível: o Te-ato. É na tragédia grega que ela assume, num ato incestuoso igual ao de Édipo, ser a eterna amante de quem a criou, de quem para ela é pai e mãe em um só: o Teatro.

E assim,
descascada, Cacilda se supera, tanto dentro da própria vida como de personagem dentro da dramaturgia do seu autor. Ela revela de vez, além da grande atriz e diva brasileira, a sua mulher arcaica. Mais ainda: Deixando
visível a fibra do seu ser. Mais puro. E sem gênero.

Não sei ainda como terminará essa viagem. Fato que não me assusta, já que o fim, como fim mesmo, nem existe. Nem na vida, nem no teatro e muito menos nesse ciclo cacíldico. Fica avisado. É pura ilusão. A única coisa que sei, desde hoje, é que Cacilda pulará do drama da saia de crinolina e vestirá as calças existencialistas para ir à rua com uma energia mais anárquica, mais bela, mais intensa e mais leve que nunca. Em 2014 ela renasce vivida pelas atrizes raízes desse Tyazo num rito que eu gostaria de chamar de emancipação, se não fosse somente mais uma corrente de palavras – que ela inevitavelmente iria explodir, eu já sei.

Imagem 01 – A Luta II – Foto Marcos Camargo
Imagem 02 – Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada – Foto Ennio Brauns
Imagem 03 – Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada – Foto Felipe Stucchi

Antagônica Mistura – A Luz de Cacilda!!!!!

6 de agosto de 2014

* Texto produzido por Renato Banti, iluminador do Teat(r)o Oficina, para o programa da peça Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada em julho de 2014.

Cacilda é uma peça motivada pelo
desejo de viver
personagens
que exaltam
personalidades estetas.
Somos transportados atemporalmente
às experiências dos vivos-mortos artistas e
personagens, que se entrelaçam na vida pessoal da atriz e espelham-se em cena.

A dramaturgia parte do coma de Cacilda, que como um coro grego, reinterpreta sua criação sob o olhar antropófago de sua condição-trágica. A luz em Cacilda encontra dois polos distintos de seu uso. Em geral, traz uma luz sem sombras duras, porém temperada e agrupada de duas ou três angulações, a mostrar, em absoluto, tudo o que está presente em cena; e outra mais dura, de espectro único e soturna.

Renato Banti. Foto Claire Jean

A luz fria ou quente dos refletores, contrasta as cores dos figurinos e de luzes indiretas que pintam o cenário. As ribaltas douradas fazem oposição à luz fria. No antagonismo de Seis Personagens à Procura de um Autor, entre um teatro contemplativo de método formalista em conflito com um teatro de ação concreta com a multidão, o espaço de cena se divide em dois planos, sendo o primeiro de luz fria recortando os limites da atuação, enquanto o segundo é de luz quente das sombras duras dos submundos de feixes vindos de trás das plateias e das ruas.

Uma tela de papel está ao fundo do palco e evidencia o teatro de sombras. É uma grande tela de ilusões. Céus em cores surgem em movimentos, como a lua de quarto crescente que brilha prateada. Quando a tela é atravessada, fundem-se os antagonismos misturados de uma explosão catastrófica. A Cia Vera Cruz é quem promove o prólogo de Éros, quando a amazona Tônia Carrero, em Tico-Tico no Fubá, rouba o apaixonado Adolpho Celi de Cacilda, seu diretor amante.

Rompe em melodrama o amor passional de A Dama das Camélias, onde a peça cresce com o furor musical de adaptações de La Traviata de Verdi. Muitas ambientações envolvem esta parte da peça no qual a luz, através das cores e movimentos angulatórios, suspende os olhares da multidão a lugares diversos.

Antígone é a grande virada de Cacilda para um novo ato. O labirinto extinto da razão pela trágica ação de comer o cadáver da cultura. A luz é desenhada em focos definidos. Creonte, em seu trono de magnata da mídia, aparece como holograma até descer em terra e se tornar mais um presente na sala. Cacilda Antígone tem muitas passagens, que vão da febre penetrando dentro de si à loucura. Conforme essa febre muda suas percepções, a luz envereda a transformações de vermelho intenso e o sol quente do meio-dia queima seu corpo.

Os efeitos midiáticos de um Creonte tecnológico provocam as citações do coro.

Camila Mota e Sylvia Prado: quatro perguntas para duas ‘Cacildas!!!!!’

1 de agosto de 2014

Camila Mota e Sylvia Prado: quatro perguntas para duas ‘Cacildas!!!!!’*

*Matéria produzida pelo Globo Teatro para a estreia de Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada, em 26/07/2014

Atrizes vivem Cacilda Becker em ‘A Rainha Decapitada’, quinta peça da saga

Sylvia Prado (à esq.) é Cacilda de Antígone e Camila Mota é Cacilda de ‘A Dama das Camélias (à dir.) na montagem de Zé Celso (centro) (Foto: David Fereira dos Santos e reprodução)Sylvia Prado (à esq.) é Cacilda de ‘Antígone’ e Camila Mota (à dir.) é Cacilda de ‘A Dama das Camélias’ na montagem de Zé Celso (ao centro) (Fotos: David Fereira dos Santos e reprodução)

Camila Mota e Sylvia Prado são responsáveis por dar vida a Cacilda Becker em “Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada”, que o Teat(r)o Oficina estreia neste sábado, 26. No quinto espetáculo da série de José Celso Martinez Corrêa, Sylvia encarna a Cacilda de ‘Antígone’ e Camila Mota corporifica a Cacilda de ‘A Dama das Camélias’. Pedimos para que as atrizes conversassem sobre a experiência de ser Cacilda!!!!!. O resultado desse delicioso papo, você confere agora:

Camila Mota: De onde vem sua energia incessante? Acredito que faz parte da sua constituição psicofísica, claro, mas você cultiva esse estado? Treina? Tem alguma relação consciente com esse talento para potencializar?

Sylvia Prado: (risos) A eneeeergía, como dizia Renée Guimel, vem de muitos polos. Um, certamente, é o polo genético, no sentido Euclidiano da constituição física do homem, como sugere o próprio texto de Tônia Carrero sobre Cacilda: “as agruras que ela passou quando criança…”. Não passei fome, mas passei muitas coisas. A primeira foi meu parto prematuro e minha “agressividade” já dentro da incubadora, arrancando os eletrodos, minha luta para viver. Depois, meu desejo do mundo, da criação. Eu trabalhava num ponto extremo de minha casa, estudava em outro. Não havia tempo para esmorecer. Era preciso agir. E a energia vinha. Foi sendo trabalhada pela necessidade. Outro ponto é a inspiração. A inspiração produz energia. Assim como no último ensaio corrido que fizemos. Eu estava exausta! Preocupada em lembrar o texto. Mas você, fazendo Camila-Cacilda-Dama das Camélias, foi tão inspiradora que me reabasteceu com energia. Me transportou para emoção de Cacilda-Antígone. Vem também da paixão pela arte, pelo outro, pelo que se faz, isso gera energia. Eu não treino, mas com o tempo fui aprendendo a ser mais perceptiva, a gastar a energia com o que é importante – coisa que aprendi bastante com você! Mas dizer isso me fez lembrar umas coisas que disse para um amor alemão, certa vez, sobre pessoas pegajosas e o roubo de energia. Eu disse no meu inglês macarrônico: “Eu tenho energia para dar para todos, para ele, para você, para mim e mais; quanto mais eu dou, mais eu tenho”! Acho que é isso. Eu cedo a energia e ela rebate, transforma e volta.

CM: Qual foi a maior interferência da personagem na sua vida e na maneira de atuar?

SP: A montagem de “Seis Personagens a Procura de um Autor” nos faz ter uma visão mais concreta desse canal de transformação que é um papel. Nos faz mergulhar ainda mais na dramaturgia “teatal” de Zé (Celso), que traz, pela trajetória de Cacilda, essa fusão inseparável da vida dentro e fora da cena. Penso que as personagens foram trazendo qualidades para vida. Aí entendo ainda mais a proposta da Universidade Antropófaga que já praticamos e vamos fundar no terreno: cada peça é um semestre cheio de matérias, onde você vai aprendendo coisas, adquirindo técnicas, fala, gesto, alma! Assim, pela prática diária. Entrei no Oficina vivendo Dul-ci-ná. Para vivê-la, já tive que moldar-me interna e externamente. Sua pronúncia. Suas vestes. Seu “guarda-chuvaaa”. Nessa troca entre personagem viva e morta, tudo se transforma. A vida, a obra. Senão, como diz Cacilda no fim do ensaio de “Antígone”: “Por que faria”? Deve ser muito chato esse caminho que, acredito, muitos atores tomam quando decidem, por necessidade ou não, trabalhar em coisas pelas quais não são apaixonados – e assim emprestam seu aparelho apenas momentaneamente para o seu ofício. Voltando… Todas as personagens interferiram profundamente em minha vida. Mas acho que o processo de “Os Sertões” tenha sido o mais estraçalhador de todos, pois ao contrário dos demais que nos deu técnicas de “evolução”, ele nos fez retroceder ao nosso cerne, nosso gen; ele trouxe à tona toda a selvageria recalcada, toda a ancestralidade massacrada. O pior de todos nós. E lidar com seus abismos é sempre muito difícil. Mas é importante. Sem saber profundamente de si, não dá para ceder espaço ao outro.

CM: Como você lida com as dificuldades do trabalho de atriz no processo? Nesse um ano e meio (até agora) dessa fase de ‘Cacilda’, quais foram os momentos mais difíceis, aqueles em que parece que chega num nó? E como você desatou?

SP: O teatro é um espaço sagrado. Que precisa ser reconhecido com sua importância. Ser tratado, cultivado, prestigiado, remunerado com a realeza que lhe cabe. As outras mídias e artes vieram, outras virão. E é maravilhoso que venham, mas não dá para ser sempre o nascimento do massacre, como se fosse uma luta de espécie. É preciso equalizar. Coexistir, junto, equilibradamente. Acho que a maior dificuldade enfrentada no processo como atriz é, sem dúvida, o de viver cotidianamente na profusão capitalista. O nascimento de meu primeiro filho intensificou isso. Mas, curiosamente, foi no teatro, na força humana coletiva que consegui sobreviver. Re-nascer. Por isso é preciso cuidar dessa magia com muita clareza, sabedoria, generosidade, liberdade financeira. A arte da entrega ao vivo vale muito mais que sete mil publicidades. Mas não acontece assim. “Barreiras, as venço com bravura, distribuindo a toda gente distração e cultura…”. No processo, tudo vira subtexto, principalmente a dificuldade. Decido na hora banhar-me nela ou rir de mim mergulhada nela. Acho que a maior dificuldade vivida nesse ano e meio de maravilhas “Cacíldicas” foi a fusão mãe-atriz. As necessidades desses dois filhos, dessas duas paixões. Como conciliar as duas. Os tempos de um bebê e os tempos de uma criação, que também é um bebê. Os nós, tanto na garganta, quanto na realidade, se desfizeram com o enfrentamento de tudo. Sem máscara. Às vezes o nó se desatou sem marcas. Às vezes foi preciso usar tesoura. Mas, como disse, no teatro, e no “Teato” praticado por nós, pelo Oficina, é mais fácil desfazer os nós. Pois se deixa de chorar por eles; se pega na mão e tenta desfazer. Essa concretude é a verdadeira desatadora dos nós!

Sylvia Prado: Certa vez, você comentou com um amigo em comum sobre as diferenças que nos completam. Quais são as diferenças na atuação que nos completam como Cacilda-Sylvia / Cacilda-Camila? O que na Cacilda-Sylvia inspira Cacilda-Camila?

Camila Mota: Vou começar a resposta pelas similaridades, pois riscando a trajetória da nossa contracenação, iniciada em 1998, a primeira memória é a criação do coro de “Cacilda!”. Esse é nosso DNA de atrizes – um processo dificílimo, muito cruel e de muita riqueza, em que apanhamos muito. Não éramos paparicadas por Zé, que parecia não fazer nenhuma concessão, e isso nos fortaleceu. Claro que sempre fomos diferentes, mas, para mim, por muitos anos, a inspiração vinha principalmente da afinidade, da percepção comum do trabalho. Lembro do Aury Porto dizendo muitos anos atrás que não sentia competição entre nós e que isso era uma desvantagem. Com a montagem do ciclo “Cacíldico” que começou em 2013, com a terceira exclamação da Odisseia, eu saquei que precisava te descobrir nas diferenças, pois isso estava na regra do jogo desde a escalação das personagens Cacildas feita pelo diretor. Isso já encenava nossas qualidades opostas. O que mais me estarrece em você é a energia inesgotável – um monstro irradiador de potência. Outra diferença importante é a relação com os conflitos. Percebo você se alimentando deles, que te excitam. Te vejo muitas vezes iniciando um conflito em cena, como se essa fosse a combustão para detonar a linha continua de ação. Isso me inspira muito, pois meu detonador é quase o oposto, como se eu agisse a partir do momento em que encontrasse o ponto de equilíbrio entre eu e o outro ator/atriz. E não tem nada de psicológico nisso, pelo contrário! Estou falando concretamente sobre as diferentes qualidades de nossos corpos em cena.

SP: O que muda na busca de Cacilda com o estudo da dança?

CM: Tudo! Aliás, a vida toda mudou a partir disso. Estou na primeira infância da dança, com tudo a fazer, a experimentar ainda, mas já tenho outra relação com o corpo. Cacilda Becker é tanta coisa que precisei abrir espaço no corpo para encarnar a entidade. É uma glória começar a atuar com o corpo inteiro, olhar com a coluna, ouvir com o joelho… Quando fizemos “As Bacantes” em Portugal, fui naquele aquário gigante de Lisboa e fiquei muito tempo observando um polvo – percebi que ele tinha consciência na movimentação de cada um daqueles oito tentáculos. Tenho buscado isso, uma presença no corpo inteiro ao estar em cena – e a dança é fundamental para isso. Sempre atuei fazendo música, não digo só de fala ou canto, mas de movimentação, ritmo de andar, parar, lidar com objetos, figurinos… Mas o corpo sempre muito aquém da percepção musical. Isso já começou a mudar.


SP: Como interpreta e usa todo o material que lemos sobre Cacilda na criação das personagens?

CM: Depende muito do que cada material oferece. Os livros são todos bem diferentes, provocaram percepções diversas da Cacilda, e fui dosando as descobertas. Além disso, tem a direção – porque tem a Cacilda Becker que existiu e a Cacilda do delírio de Robespierre (Zé Celso era chamado de Robespierre de Araraquara e na “Odisseia das Cacildas!!!!!!!!!” esse personagem é o próprio Zé Celso), que é a Cacilda interpretada pelo Zé. A Cacilda que é o teatro inteiro, que é o próprio conflito em Gaza nesse momento. Mas tenho escutado demais as entrevistas que temos em áudio. Ouvir a Cacilda diversas vezes é muito instigante, pois ouvindo as mesmas palavras diversas vezes, tenho várias interpretações diferentes – e aí é indiscutível que a Cacilda é o Teatro, pois Teatro é interpretação.

SP: Você tem uma trajetória enorme no Oficina. Em que “Cacilda” fez desabrochar a mulher Camila, em seu estado mais irradiante? Como você vê isso dentro do processo do Oficina: a transformação da vida pela personagem?

CM:
Nós fizemos sete anos de “Os Sertões”, onde fiz muitos papéis de homens. Começou num ensaio de “A Terra” em que estava fazendo a Jurema de saia, de sertaneja, e Zé me viu como Diadorim – também por causa de minha origem catrumana do Norte de Minas. Além desse ponto de partida, vou confessar que fiz alguns papéis no exército pois preferia ser do time dos homens. Principalmente em “A Luta 1”, achava insuportável ser do time das mulheres – a maioria falava demais, queria combinar muita coisa… Não tenho muita paciência para essa falação. No teatro, prefiro me entender por telepatia. Nós duas temos isso e essa comunicação era mais fácil com os homens. Eu rejeitava mesmo esse lado da mulher bicho, que tem que se impor entre outras mulheres, ficar se exaltando num estado permanente de vaidade… A Cacilda virou tudo! É uma personagem generosa. Ela dá muito, interfere mesmo na vida. Desabrochar a mulher era um processo de transformação interna e externa. Uma das primeiras coisas que tive de aprender fazendo Cacilda foi ser bonita. Não que eu me achasse feia, mas eu tinha que descobrir minha beleza e transformar em atuação. Adorei! Hoje amo ter unhas grandes, vermelhas, usar baton, perfume… Mas a transformação mais radical é a mudança do ponto de vista. De vista, não; de ação! Acho que a mulher Camila começou a desabrochar fazendo Pagú na “Macumba Antropófaga”, descobri o prazer no triângulo Tarsila-Oswald-Pagú, a me divertir com aquela rivalidade, era fértil! Nessa época eu estava completamente apaixonada por um homem, numa situação bem parecida, minha vida estava sincronicamente fundida com a arte! Podia viver em cena toda a matéria que a vida me dava e isso é tão “Cacíldico”…

Todas as sessões de Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada terão transmissão ao vivo pela TV Uzyna Uzona, no site www.teatroficina.com.br

Definição de Arquitetura

12 de novembro de 2013

“Se fosse necessária uma definição de arquitetura, seria talvez de “aventura”, na qual o homem é chamado a participar como ator, a definir a não gratuidade da criação arquitetônica, a sua absoluta aderência ao útil, mas nem por isso menos ligada à parte do homem ator; e talvez esta pudesse ser, sempre que fosse necessária, uma definição de arquitetura. Uma aventura estreitamente ligada ao homem vivo, verdadeiro, ligado aos problemas mais urgentes da vida humana, à experiencia verdadeira, viva e intimamente ligada à capacidade de criar seus pre supostos teóricos, sem crítica, a priori, aquela que na linguagem filosófica se chama “suspensão do juízo”, isto é, ao abandono absoluto à realidade vivida, à vida real, da parte do arquiteto, condição essencial para a vitalidade de sua obra.”

Lina Bo Bardi, em conferência sobre ensino na Bahia, 1958

Matérias de 1967

28 de outubro de 2013

Carta do Instituto Lina Bardi ao CONDEPHAAT

11 de setembro de 2013

copa das confederações X #acordes2013 ato pró cultura

30 de junho de 2013
copa das confederações
brasil x espanha
maracanã 19h
rio de janeiro
transmissão na televisão

#acordes2013
ato pró cultura acordes
teat(r)o oficina 18h
rua jaceguay, 520
são pã
brazyl
transmissão direta http://new.livestream.com/uzyna/acordes2013

#vemprarua #toacordes #manifestacaoprocultura #teatroficina #uzynauzona

times:

seleção brasileira:
luiz felipe scolari, carlos alberto parreira, júlio césar, jefferson, diego cavalieri, dante, réver, david luiz, thiago silva, daniel alves, jean, marcelo, filipe luís, fernando, luiz gustavo, hernanes, paulinho, oscar, jadson, neymar, fred, hulk, lucas, bernard, leandro damião.

time uzyna uzona universidade antropófaga:
roderick himeros, beto metig, wilson feitosa, danielle rosa, marcelo drummond, luiza lemmertz, glauber amaral, camila mota, felipe botelho, rafael montorfano, pedro manesco, carina iglesias, adriano salhab, juliana perdigão, dj jean, letícia coura, nash laila, carolina henriques, carolina castanho, ana hartman, bruno nogueira, biagio pecorelli, alessandro ubirajara, lucas andrade, tony reis, mariano mattos martins, elisete jeremias, otto barros, lucas, andré bombeiro, amanda mirage, sônia ushyiama, natália, cida melo, ivan vinagre, igor marotti, acauã sol, tiago ramos, diego, tommy pietra, renato banti, victor fonseca, giuliano ferrari, fábio stasiak, ana rúbia de mello, angela destro, anderson puchetti, carlos domingues, catherine hirsch, josé celso martinez corrêa

www.teatroficina.com.br

http://www.youtube.com/watch?v=096QEl4yixg

TRECHOS DE “ACORDES”

24 de junho de 2013

OFICINAUZYNAUZONA
ANTROFAGIANDO  BRECHT

CANTO GERAL
Muito Importante
é Saber quando
estamos
A C O R D E S

Muitos dizem SIM
Mas no fundo
Não estão
ACORDES

Outros
nem sequer são consultados
Uns e Outros
Estão ACORDES
onde NÃO querem estar

Muito Importante
Saber quando estar
ACORDES


ACORDES INICIAIS  DE MUDANÇA PERMANENTE 

O CORO DA MULTIDÃO  &  ANONIMOS
Nós que estamos
Acordes com a correnteza
não vamos nos  afundar no nada
não vamos nos  dissolver
como sal na água
mas  vamos pra rua
morrendo nossa morte
como trabalhamos nossos trabalhos
acordando a Re-Volução
nos Orientar  morrendo
não pela Morte, mas
ACORDES

Criando Asas do nosso novo
Avião
Corpos às Obras!
Pra Voar
pro lugar que for preciso
na hora que for necessário
Nós Cantamos
Pra voar
E virar do avesso
Não só uma das Leis da Terra
mas TODAS
Desestabilisadoras
Leis da Vida

CORO GERAL
ACORDES

CORO DA MULTIDÃO
TransMutarrr Todo
Mundo, humanidad!
Importante
sacar la cascara
de las classes entre personas,
la humanidad está dividida:
Exploracion / I(g)norância
Heticeros / Hetizados 

ACORDES 

Transaperfeiçoar nossos Motores
descobrir Segurança
acelerar na esperteza a Velocidade
e na aceleração da corrida
não esquecer…
por que correr?

ACORDES

ANONIMO
E Larga!

ANONIMA
Toca em frente

O CORO DA MULTIDÃO
Desclassificar a Humanidade Classificada
Desclassificada a Humanidade a Humanidade Desclassificada
Desclassifica a Humanidade Desclassificada

ANONIMO
Larga!

ANONIMA
TOCA EM FRENTE!
ACORDES

O CORO DA MULTIDÃO
ACORDES

CORO DA MULTIDÃO

Surubo a Terra
Assim mesmo
 mesmo
A Tudo
A Todos
GOZAMOS …. 

ANONIMO
E Larga

ANONIMA
Toca em frente!

TODOS
ACORDES

O Novo Tempo Sempre se Inaugura

19 de junho de 2013

A atriz Carol Castanho e seu pai, na manifestação do 17 de junho

A gente levou uma folhinha escrita – alô Gil ! – não p fazer pressão p ele se colocar, mas p gente se colocar junto dele
ele é uma inspiração maravilhosa – to apaixonada pelos discos dele
principalmente o refavela que tem a musica era nova – que é novo mas já era antes – como o que está acontecendo agora. esse agora que abarca o tudão.
o novo tempo sempre se inaugura

tbm fui com um repolho numa haste, como a agave na revolta da salada, cacilda camila tava pronta p mergulhar de oculos de natação e o mandu hacker mariano disparando a cidade q mais cresce no mundo
alem disso amigos formando o bloco das temperadas e destemperadas
os motoboys muitos se uniram
e as bandeiras dos partidos sumiram na multidão de gente

foi cintilante
acabo de chegar em casa
fomos até a ponte estaiada

enquanto outros já haviam chegado no palacio do governo – o morumby !
outros já estavam na avenida paulista
era um mar infinito de gente
da mansão de zampari ao apartamento de cacilda e walmor
na volta pegamos o trem na berrini, liberaram a catraca
e seguiu mais um monte p a paulista

durante tudo isso chegam as noticias de brasilia e rio

e meu pai ainda está na rua – foi até o fim no onibus que não quer mais perder
ele escreveu um texto lindo q chama: para que não percamos o onibus das utopias. (aqui embaixo)
acho que ele tinha esquecido de uma coisa que o Oficina nunca esqueceu – e foi tão bom ve-lo lá

mas engraçado, como a maioria dos pais agora ele me diz – chegou o momento de haver uma liderança p levar adiante as reinvidicações e assumir o controle
é aí que tudo muda
aí que tem que descobrir em que dobra do corpo dele pode se imaginar um mundo de outro jeito, muito outro
e em que dobra do meu inventar

um beijão em todos e até amanhã

o texto do meu pai:

“Para que não percamos o ônibus das utopias.

Protestos e passeatas em diversas capitais do país. Em São Paulo a cada dois dias reúnem-se ao menos cinco mil pessoas. Há uma onda crítica chamando-os de vândalos.

1977. Neste ano começaram pequenas mobilizações. Raras passeatas. Pequenos grupos tentando se manifestar. Dentro das faculdades, as discussões eram sobre melhores condições de ensino. Haviam enfurecidos embates sobre falta de papel nos banheiros e a qualidade da cantina. Os temas parecem, hoje, banais. Então romperam as salas de aula. Era um movimento que passava a caminhar depois de ficar estático em 1975 quando da morte de Herzog. Usp, Puc e Cásper Líbero. Neste período éramos visionários e as palavras de ordem começaram a brotar como que por encanto. Não sabíamos onde queríamos chegar com exatidão. Genericamente gritávamos “abaixo a ditadura”, que era um motivo objetivo. Fim da Lei de Segurança Nacional. Anistia. Mas, lembrem-se: começamos com o as questões banais. Enfrentávamos a polícia. Jatos d’água com areia e tinta, cacetetes e, em algumas ocasiões, baionetas. Em determinadas manifestações erramos. Destruímos bens públicos. Fomos chamados de vagabundos, terroristas, inconsequentes, isso nos momentos mais elogiosos. Fichados pelo DEOPS, agraciados com o Artigo 477. Mas, não se iludam: nós, cada um de nós, derrubou sim a ditadura. Estávamos no ônibus das utopias. Embarcamos e a cada quilômetro rodado tínhamos um monte de certezas e um punhado de dúvidas. Estas, no final, venceram. Mas nos forjamos assim.

2013. Estou 35 anos e duas filhas mais velho. Como pai sofro de um incômodo público e notório. Sinto que minhas filhas não possam (ou não pudessem) compartilhar de uma utopia coletiva. Sinto pois as utopias fazem com que sejamos adultos melhores e com sonhos que permeiam a busca de justiça. As utopias impedem que a coluna se vergue a ponto de considerar normais preconceitos, fome e repressão. As utopias alimentam a ideologia. Não é exatamente o que Marx diria, mas… É com este olhar que as manifestações pela passagem de ônibus me surpreendem. Com um misto de compreensão e de alegria.

É banal dizer que as passeatas impedem o direito de ir e vir. Tal direito é impedido pelo preço das tarifas excessivas como excessivos são os preços de aluguéis, alimentação e outros. Quando ouço que São Paulo é cara, via de regra falam dos restaurantes, do cinema ou do estacionamento. Os indicadores são os dos abastados. Ouvi até dizerem ser um absurdo manifestantes que se mobilizam por “apenas” R$ 0,20. Sofremos um deslocamento de classe. Para a maioria de nós, que estávamos nas passeatas, R$ 20,00 mensais quase nada significam. Se não nos atrapalha e nem atrapalha a vida da imensa maioria dos 5 mil manifestantes, por que reclamam? Bem, não sou gay e participei de atos contra a homofobia e da Parada Gay. Sou ateu e defendo a liberdade religiosa. Sou brasileiro e contra a invasão do Afeganistão. Alguém imagina que só os jornalistas devam defender a liberdade de imprensa? Ah, diriam: mas a liberdade de imprensa afeta a todos. E a passagem de ônibus não. Eles se mobilizam porque descobriram que possuem este direito. Que podem falar por quem não consegue falar. Encontraram um mote que os une além das roupas, músicas e falta de perspectiva. Dizem que a maior parte deles não tem consciência e são cobrados por isso. Agora eles usam a consciência que tem e agem. Mas são criticados por agir. Querem jovens conscientes desde que pensem como o status quo. A consciência exigida, pensam, deve ser moldada a golpes de cacetete e com a batucada de tiros e bombas para que dancem conforme a música. Finalmente os jovens estão em descompasso.

Fico surpreso quando leio os textos da imensa maioria dos jornais. Na década de 70 chamávamos a imprensa como garantia de respeito. A imprensa, no episódio, não está se dando ao respeito. Não falo dos repórteres, alguns deles inclusive agredidos e presos. Não falo das pessoas físicas. Falo das palavras impressas ou das imagens dispersas.

Os jovens e seu movimento não sabem onde exatamente querem e vão chegar. Talvez porque a utopia esteja sob seus olhos. A utopia é conseguir organizar, manifestar, agir em grupo intervindo no fazer social. Vi um ex cineasta falando que as manifestações lembram o que aconteceu em São Paulo quando dos ataques do PCC. Colocou definitivamente uma lente distorcida em seus olhos. A mesma lente que dispara tiros de borracha, bombas, borrifa spray pimenta como se os jovens fossem criminosos. O crime que cometem é descobrirem que agora utopia não é o futuro. É o presente. Havia algo no ar. Agora está nas ruas.

Eu, repito, 35 anos e duas filhas mais velho, prefiro que elas estejam nas ruas a ficarem sentadas num apartamento coma boca cheia de dentes esperando a morte chegar. Talvez por nostalgia. Talvez porque ainda tenha nos óculos redondos um pouco de maluco beleza. Mas, tenho certeza de que os jovens fazem bem, certo e devemos a eles a oportunidade de nos lembrarmos do que somos feitos. Se resta em cada um de nós um fiapo de sonho e um relance de utopia, temos a chance de descobrir em qual dobra do corpo estão.

Eles não são vândalos. Erram ao destruir patrimônio público. Vão aprender que o bem público é pago com o dinheiro dos impostos da cada cidadão. Que é errado pichar, depredar ou destruir um bem público. Mas estão aprendendo sozinhos. Nas décadas de 70 e 80, havia um grupo de políticos, artistas e outros dando guarida a cada manifestação. Nos protegeram em diversas delas. Estes, que dariam guarida hoje, fazem parte da geração de 70. São nossos filhos, filhos de nossos amigos, sobrinhos que estão nas ruas. Onde estão os deputados, senadores, vereadores e outros que viveram e se forjaram exatamente nas passeatas da década de 70? Estão onde não deveriam estar. Longe e com olhar severamente crítico. E o pior, alguns fazendo coro contra os tais vândalos. Infelizmente para eles a utopia chegou ao ponto final.

*Justiça seja feita: vejo agora uma foto de Plínio de Arruda Sampaio na manifestação. Tenho centenas de divergências com ele. Mas sou obrigado a dizer que está onde um político deve estar. Em tempo 2: Toninho Vespoli, vereador do PSOL, também esteve na manifestação e em uma delegacia.”