6 de abril de 1921
9h25

6 de abril de 1921
9h25

Ah, vai ser uma delícia recebê-lo. Há anos não nos vemos! Escrevo, emocionado e orgulhoso, de Zé Celso e de sua companhia maravilhosa de atores “reais”, nobres, engraçados, farsescos, berrantes, baccantes, na boca do lixo, na boca de cena do teatro aberto ao berro do mundo, ao grito para o mundo: esse mundo que não pára nunca de estar no caos.
Então, eu pego os dois no aeroporto, o Zé e o Marcelo, e os trago aqui em casa para começar uma longuíssima conversa que terá prosseguimento com o testemunho do público no Theater Lab (informações aí em baixo). Zé é o grande artista do teatro, de todos os teatros, de todas as formas de teatro, dos “Sertões” até Schiller, e faz um Hamlet que eu chamei de “O maior Espetáculo da Terra”. E era mesmo. Raramente fiquei tão emocionado em teatro. EVER!!!!
A premissa do Zé em teatro não precisa ser explicada. Como o pessoal aqui vai receber o DVD das “Baccantes”, não sei. São entendimentos e compreensões distantes, já que a carnavalização e a antropofagia não fazem parte (culturalmente) do cotidiano cultural americano. Mas Nova York não é a América, propriamente. A Antropofagia aqui se dá em outro nível: é política. É a fagia mesmo, a do ataque bélico. Não a do `happening´, que Oswald de Andrade gozozo misturou na semana de 22, e nem aquela que Julian Beck despiu como se fosse o “Nu Descendo a Escada”, de Duchamp.
Com Zé Celso quero poder enxergar o fantasma, os fantasmas ideológicos que existem em mim. Ou melhor, quero poder enxergar os denominadores comuns que nos unem. Por que falei fantasma? Porque o pai assassinado de Hamlet era um fantasma e Zé Celso é o pai do teatro brasileiro ainda VIVO e muito vivo, o que talvez nos torne um tanto quanto… Mortos. Na verdade estamos todos imobilizados em nossas ações, como o príncipe dinamarquês. E acho que no “Q&A” (perguntas e respostas), depois da exibição do vídeo, vai rolar muito sobre quem somos, o quanto valemos além das palavras, palavras, palavras.
Welcome to New York, Zé Celso!
Gerald Thomas
***
THEATERLAB 137 West Fourteenth Street – New York
presents
The North American premiere screening of
AS BACANTES 2009
As Bacantes 2009 is a lyrcial Brazilian
re-creation of Eurípedes´
tragi-comedy-orgy The Bacchae as told
in the context of Carneval, first staged
by Ze Celso in 1996.
April 2, 2009 beginning at 5 PM
(3 hrs 35 min w/ intermission)
with English Subtitles
FREE Admission
followed by a Q&A with Brazilian theater legend
Ze Celso (José Celso Martinez Corrêa)
in his first US appearance
Hosted by playwright & director Gerald Thomas
Reservations Recommended – 212-929-2545
***
THEATERLAB 137 ocidental Décimo quarto Rua – New York
Apresenta
A seleção norte-americana da primeiras estréias
COMO BACANTES 2009
Porque Bacantes 2009 é um lírico brasileiro
readaptação de Eurípedes’
Orgia-tragi-comica Bacchae falou
no contexto de Carnaval, inicialmente encenado
por Ze Celso em 1996.
Abril 2, 2009 começando as 5 PM
(3 horas 35 minutos com intervalos)
com subtítulos ingleses
Entrada LIVRE
seguido por um Q&A com a legenda Brazilian do teatro
Ze Celso (José Celso Martinez Corrêa)
em sua primeira apresentação nos E.U.
Hospedado pelo Autor & diretor Gerald Thomas
Reservas recomendadas – 212-929-2545
*Eu vim pra informar pro país inteiro o prelúdio da guerra sertaneja das bacantes* eu, fotógrafa sobrevivente desta guerra, compilei as imagens aqui:
“Não consigo mais me ver como um ser pensante sem fazer parte daquilo que repulto como o último movimento intelectual deste país – o Teatro Oficina.
…fui literalmente absorvido pela mágica de “Os Bandidos” e pela seriedade deste grupo.”
- Marco Notari, 43 anos, advogado e escritor, após um final de espetáculo.
por Rodrigo Dionisio, do blog http://hajasaco.zip.net
DIONISIO, 50 ANOS
Não é pseudônimo. É sobrenome, trazido com meu avô, retirante de Pernambuco, assim mesmo, sem acento. E estávamos lá, em presença física ou espiritual, Dionisio, Artaud, Rocha, Monteiro, Buarque, Becker, Pandolfi, Nachtergaele, Brecht, Mello e, claro, Martinez Corrêa. Lá no teatro Oficina, em sua comemoração de 50 anos de existência, na terça-feira passada. Começou por volta das 21h45, tive de sair umas 3h30 da quarta. A festa continuou, até 6h30, fiquei sabendo. Pareceu só terem passado 10, 15 minutos. Foram encenados trechos das principais montagens do grupo, bebeu-se vinho, se improvisou, muito. Atuações exageradas, dança, cacos, intimismo, imaginação, pouco a ainda ser mostrado, áudio, vídeo, céu.
A melhor palavra para descrever o que foi visto é anacrônico. E isso pode ser crítica e elogio. Zé Celso e sua companhia pregam coisas fora deste tempo. De piadinhas com artistas “vendidos” (talvez irônicas para a trupe, mas levadas a sério por parte de seu público, que gritava impropérios contra a TV Globo durante aparição surpresa de Matheus Nachtergaele) a um espírito aparentemente enterrado na cultura nacional. Cultura dionisíaca, do gozo, mas não do egoísmo. O verdadeiro tesão vem em grupo, e o Oficina mostra-se generoso, prega o olhar para o outro, o respeito a quem quer jogar o jogo. Zé Celso bradou, várias vezes, contra o burburinho de conversas nas galerias e do lado de fora: “Isto não é sala de visita! O teatro odeia sala de visita!”. A cultura nacional tem se tornado uma grande sala de visita, por culpa de quem faz, mas principalmente de quem assiste.
O Oficina é anárquico, hedonista, sexual e sexualizado. Os corpos nus dos atores inspiraram casais, trios, quartetos que se beijavam ao final oficial do espetáculo, antes de tudo virar pura festa. A menina que quase virou personagem, trocando de parceiros e rolando no chão com eles entre as pernas, às vezes em cena aberta. Sem dúvida outras ações, dos mais tímidos, na volta para casa ou entre quatro paredes. E quem tem um pouco de sensibilidade entende, isso não é exposição fácil, e sim busca de libertação, da divisão para soma, Sodoma, doação. Não vale como contar beijos na boca e encubar sapinho em micaretas. É usar seu corpo para algo especial, mesmo que só dure 30 segundos.
E talvez, e principalmente, tudo naquela terça-feira revelou-se tão anacrônico por causa do público. Quem estava lá na fila, e trocou vinho, flores e frutas pelo ingresso, não parecia com os freqüentadores do Studio SP ou do Espaço Unibanco. Havia até uma linha, seria possível tentar, mas do estudante de publicidade e propaganda à senhora de camisa com estampa de oncinha, do mar de jovens atores e músicos ao bebê que, ao ver sua imagem projetada no telão, mandava beijos (sim, havia crianças na platéia), todos tinham lugar. O Oficina não escolhe público, faz marketing mambembe, acolhe quem quiser ir e ver. Saí de lá trêmulo. Poderia dizer que a culpa era do frio da madrugada, tenho certeza não ser só isso.
Antes do rito, como foi chamado, ainda na fila de entrada, um vídeo-repórter da TV Cultura enfiou a câmera na minha cara e pediu para eu mandar uma mensagem para o Oficina, além de parabéns. Nessas situações, você sempre fala o que vem na cabeça, óbvio e idiota, mas normalmente sincero: “que venham mais 50 e mais 50 anos”. Que depois do Zé (o grande pai branco daquele terreiro), se leve a história em frente. Que alguém convença Silvio Santos e os moradores do bairro da possibilidade de uma convivência pacífica. Tudo ali parece fora do tempo, mesmo, e que fique claro, sendo moderno como Tropicália e Mutantes ainda são. Era/É um tempo muito bom. Era/É teatro, mas era/é muito mais. Evoé!

EXU é um orixá de múltiplos e contraditórios aspectos, o que torna difícil defini-los de maneira coerente. De caráter irascível, ele gosta de suscitar dissensões e disputas, de provocar calamidades públicas e privadas. É astucioso, grosseiro, vaidoso, indecente, a tal ponto que os primeiros missionarios, assustados com essas caracteístivas, compararam-no ao Diabo, dele fazendo o simbolo de tudo o que é maldade, perversidade, abjeção, ódio, em oposição a bondade, pureza, elevação e ao amor de Deus.
Entretanto, Exu possui seu lado bom e, se ele é tratado com consideração, reage favoravelmente, mostrando-se serviçal e prestativo. Se, pelo contrário, as pessoas se esquecerem de oferecer sacrificios e oferendas, podem esperar todas as catastrofes. Exu revela-se, talvez, desta maneira, o mais humano dos orixás – nem completamente mau, nem completamente bom.
Exu é o guardião dos templos, das casas, das cidades e das pessoas. É também ele que serve de intermediário entre os homens e os deuses. Por esta razão é que nada se faz sem ele e sem que as oferendas lhe sejam feitas, antes de qualquer orixá, para neutralizar suas tendências a provocar mal-entendidos entre os seres humanos e em suas relações com os deuses e até mesmo entre os deuses em si.
ORIXÁS – Pierre Fatumbi Verger
Sou recém nascida neste teatro, ainda que tenha começado a me embrenhar nele há mais de três anos, em contatos mensais com o Zé para as gravações do Canal Brasil. E então em Os Bandidos fui absorvida, de forma absolutamente amorosa, num fluxo natural e bonito demais.
Existe entre os atores e eu, ainda que eles provavemente não saibam, uma ligação que me enche de sensações vertiginosas. Ser câmera é o modo que encontrei para investigar e revelar o outro. Tocar com os olhos e fazer com que o espectador perceba a beleza através da minha retina, da minha lente e principalmente de todo o amor que sinto por tudo o que eu vejo. Assim Os Bandidos está sendo um presente, por esta conexão profunda com cada ator para quem eu aponto a câmera, o brilho de todos em cena, a violência e a doçura do ardor de cada um. Tenho me emocionado em todas as apresentações – e eu já desaguei tanto que daria pra lavar o corpo de todo o elenco. Esta semana preciso silenciar um pouco e digerir; fui arrebatada e levada a lugares que nem sei dizer. Elaine disse que acha que eu ainda vou explodir em cena. Talvez. O desafio agora é transformar isso em concentração, mais e mais e mais.