Arquivo da Categoria ‘Anhangabaú da Feliz Cidade’

Parecer de Jurema Machado pelo tombamento do Oficina no Iphan

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Processo de tombamento N 1.515-T-04

Teatro Oficina

São Paulo, SP

Trata-se de processo de tombamento de edifício teatral, sede do Grupo Teatro Oficina, situado à Rua Jaceguay 520, em frente ao Viaduto Julio de Mesquita Filho (Minhocão) no Bairro Bela Vista – o Bexiga,  em São Paulo.

O edifício em questão, de 9 x 50 m (450m2), ocupando todo o terreno, tem projeto concebido entre 1982 e 1983, pelos arquitetos Lina Bo Bardi e Edson Elito, executado a partir de 1986. De um dos lados do Oficina encontra-se um prédio de escritórios e, do outro, terreno vazio correspondente a quase metade da quadra, utilizado como estacionamento, de propriedade do Grupo Silvio Santos Participações SC Ltda, resultante da demolição de uma série de pequenas edificações.

O processo é instruído por elementos suficientes para que se possa alcançar a dimensão e a complexidade do objeto proposto para tombamento. Opto, de início, por apenas relacionar sucintamente essa documentação, com o intuito de assegurar aos Conselheiros da sua suficiência e adequação.

Sobre os pareceres técnicos nele contidos, contrários e favoráveis ao tombamento, ou contrários e favoráveis ao Registro do Teatro Oficina como patrimônio imaterial, irei discuti-los ao longo da descrição do bem e da avaliação sobre a pertinência do Tombamento ou do Registro.

Passo, então, a apenas enunciar o conteúdo do dossier:

  • O processo tem início em ofício do Diretor do Teatro Oficina, José Celso Martinez Corrêa, de março de 2003, em que este que solicita o tombamento federal do Teatro Oficina e seu entorno como obra de arte urbana.
  • Segue documentação da 12ª Vara de Fazenda Pública de São Paulo, relativa ao Agravo de Instrumento interposto pelo Instituto Lina Bo e P.M.Bardi, sendo requerido o Grupo Silvio Santos Participações SC Ltda. e a Fazenda Pública de São Paulo. O Agravo solicita o cancelamento da aprovação, pelo Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo – de construção de edifício de autoria do arquiteto Julio Neves, pretendida pelo Grupo Silvio Santos, alegando que o tombamento estadual do imóvel condiciona a construção a uma distância de 300 metros do edifício tombado. O recurso é negado por unanimidade dos desembargadores no final de 2002
  • Segue Parecer técnico do arquiteto Vitor Hugo Mori, da 9ª SR do IPHAN, de 1º de dezembro de 2003, contrário ao tombamento federal
  • Em fevereiro de 2004, o processo é formalmente aberto sob o numero 1515-T-04
  • São acrescidos novos documentos ao Processo, reiterações do autor da solicitação inicial, inclusive trazendo dados sobre novo projeto proposto pelo Grupo Silvio Santos para edifício a ser construído nos lotes contíguos, desta vez de autoria dos arquitetos Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki.
  • Segue parecer técnico de Claudia Marina Vasques, do Depto de Patrimônio Imaterial do IPHAN, contrário ao Registro e argumentando pela rediscussão do tema e consideração de aplicação de instrumento – no caso o tombamento – que possa ter efeito de proteção sobre a materialidade do bem
  • Segue deferimento de liminar por Juíza da 3ª Vara de Fazenda Pública de São Paulo, datado de 15 de janeiro de 2007, suspendendo os efeitos da aprovação pelo Condephaat  de construção nos imóveis vizinhos ao Teatro Oficina, de modo a propiciar o contraditório
  • Segue informação, de 13 de julho de 2006, da concessão de permissão de uso do imóvel do Teatro Oficina, por 99 anos, dada pelo Estado de São Paulo à Associação Uzyna Uzona, mantenedora do Teatro. A permissão é confirmada pelo Legislativo estadual em 2007.
  • Após novas reiterações, abre-se o 2º volume do Processo, com parecer técnico de Jose Antonio Duque Estrada, do DEPAM, de fevereiro de 2008, manifestando-se favorável ao Registro do Teatro Oficina como Patrimônio Imaterial.
  • A Gerente de Proteção do DEPAM, Jurema Arnaut, encaminha o parecer mencionado ao Diretor do DEPAM, sugerindo o arquivamento do Processo e sua re-análise pelo DPI, com vistas ao Registro
  • Seguem reiterações do proponente, inclusive com novos elementos relativos ao uso que considera adequado ao seu entorno, ou seja, projeto de equipamento cultural de ampla utilização pública, a que denomina Teatro de Estádio. Dentre esses novos elementos, figuram pareceres em defesa da proteção do Teatro e da utilização pública dos terrenos contíguos, de autoria do geógrafo Aziz Ab Saber, do músico Jose Miguel Wisnik e do arquiteto Guilherme Wisnik.
  • Segue Parecer do diretor do DEPAM, Dalmo Vieira Filho, favorável ao tombamento e inscrição no Livro de Tombo Histórico, contendo diretrizes de critérios de intervenção e seguido de proposta de delimitação do entorno
  • Segue Parecer Jurídico e notificação ao proprietário do lote do Teatro, no caso, o Estado de São Paulo.

Com esse conteúdo, o Processo me foi encaminhado para análise e parecer. A esses elementos, acrescentei visita ao local e extensa consulta a fontes bibliográficas, não apenas referentes ao Teatro, sua arquitetura e sua história, mas também ao Bairro do Bexiga, território do qual é indissociável, de forma a melhor compreender a sua história, valores e significados, assim como a trajetória de sua proteção.

É o que passo a relatar.

O Teatro Oficina

A história da Cia Teatro Oficina, seus métodos, linguagens e experimentos, o edifício da Rua Jaceguay 520, São Paulo e o Bexiga são indissociáveis. A compreensão desse todo vai se descortinando de maneira não-hierárquica e não-linear, o que faz da tentativa de retroceder e apresentar cada um desses elementos de forma segmentada uma tarefa difícil e, por vezes, empobrecedora. No entanto, esse é um esforço necessário para que se possa sedimentar a reflexão que dará sustentação ao ato administrativo que deverá decorrer da análise desse Conselho. É necessário – e é sobretudo estimulante – descortinar, com cuidado e precisão, o que dá consistência e unidade a esse denso tecido.

A história do Oficina

Em 1958, é criada a Cia.Teatro Oficina, por José Celso Martinez Correa e um grupo de estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em Sao Paulo. Nessa primeira fase, que antecede à profissionalização, José Celso atua em duas peças de sua autoria, Vento Forte para Papagaio Subir (1958) e a A Incubadeira (1959). Sob a direção de Amir Haddad, em 1960, simultaneamente à passagem do autor pelo Brasil, o Oficina encena A Engrenagem, texto de Jean Paul Sartre adaptado por José Celso e Augusto Boal, e, em 1961, As Boas, uma releitura de As Criadas, de Jean Genet.

O ano de 1961 marca o início da profissionalização do Grupo, com a criação da empresa teatral que tem como sócios Renato Borghi, José Celso Martinez Corrêa, Ronaldo Daniel, Jairo Arco e Flexa e Paulo de Tarso. Para a montagem de casa de espetáculos, é alugado o imóvel da Rua Jaceguay 520, local onde se encontra o atual edifício teatral objeto desse parecer, então de propriedade do Sr. Luiz Cocozza.

Nesse mesmo ano, a casa é adaptada conforme projeto de Joaquim Guedes, falecido em 2008, arquiteto e urbanista de vasta e importante obra, professor da FAUUSP e critico ferrenho do formalismo. A solução de Guedes para o primeiro Oficina, a que se convencionou chamar de teatro-sanduíche, tinha palco no meio de duas arquibancadas que se defrontavam, separadas pela cena. Esse interior foi destruído por incêndio em 1966, como se verá adiante. A inauguração da sede do Oficina é também a estréia de José Celso como diretor com A Vida Impressa em Dólar, de Clifford Odetts, com Eugenio Kusnet, Fauzi Arap, Renato Borghi e Etty Frazer, montagem que acabou premiada como revelação de diretor pela Associação Paulista de Críticos de Teatro. Um dia depois da estréia, a censura do governo Jânio Quadros proíbe a peça e o prédio de funcionar como teatro.

Em 1962, é montado Um Bonde chamado desejo, de Tennessee Williams, com direção de Augusto Boal, cenografia de Flávio Império, tendo Maria Fernanda, Mauro Mendonça e Célia Helena como atores. Ainda em 1962, com Quatro num quarto, o Oficina experimenta, sob orientação de Eugênio Kusnet, atores profissionais mostrando cenas de difícil interpretação para estudantes de teatro, entre os quais estava, por exemplo, Dina Sfat. Segundo José Celso, esse era um “tempo em que o ego dos atores era superado pela paixão pela Arte da Interpretação e por colocar-se como um Objeto–Sujeito de Estudos pra si e pra todos os colegas.”

Em 1963,  Pequenos Burgueses, de Maximo Gorki, enfocando a burguesia russa às vésperas da Revolução socialista e onde não faltavam conexões com o momento que antecedeu o golpe militar de 1964, teve montagem primorosa, com Eugenio Kusnet e Raul Cortez no elenco e cenários de Anísio Medeiros. A peça, embora retirada por alguns meses de cartaz depois de 1964, foi apresentada mais de 1000 vezes e rendeu a José Celso todos os prêmios de melhor direção do ano. É mencionada como a melhor montagem realista do teatro brasileiro e com ela o Oficina ingressa definitivamente no rol de um dos mais importantes grupos teatrais do país.

Com a encenação de Toda donzela tem um pai que é uma fera e Andorra, de Mark Frish, em 1965, cenografia de Flávio Império, Renato Borghi premiado com Moliére de Melhor Ator e participação especial de Madame Morineau, encerra-se o que corresponderia segundo alguns autores, à segunda fase do Grupo, onde predominou uma linguagem ainda baseada na experiência cênica internacional, com espetáculos de grande qualidade e textos em sua maioria estrangeiros.

Um incêndio no teatro, em maio de 1966, segundo José Celso, “por grupos para-militares” obrigaria a uma interrupção temporária, origem da sua reconstrução conforme projeto de autoria de Rodrigo Lefebvre e Flávio Império.

Flávio Império, arquiteto, pintor, cenógrafo e professor da FAUUSP, falecido em 1985, é considerado um dos melhores cenógrafos do teatro brasileiro. Foi um dos fundadores do Teatro de Arena, onde criou cenografias importantes, além de várias mencionadas para o Oficina. O projeto de Império e Lefebvre apresentava a mesma solução de fachada que permanece no edificio atual – pequena caixa ocupando os 9 metros de frente, com porta central de aço e platibanda projetada para fora –  e, no interior, aproveitava-se do aclive do telhado em direção ao centro da edificação para ter nesse centro um palco italiano, com mecanismo giratório, para onde convergia a platéia.

A primeira montagem no espaço reformulado por Flavio Império é o Rei da Vela, de Oswald de Andrade.

“O Rei da Vela” lota o Oficina, é a manchete da Folha de São Paulo de 30 de setembro de 1967:

“O Rei da Vela”, peça inédita de Oswald de Andrade, estreou oficialmente, ontem à noite, para um grande público que lotou o Teatro Oficina e que aplaudiu as interpretações de Renato Borghi, Francisco Martins, Fernando Peixoto, Liana Duval, Ítala Nandi, Etty Fraser, Dirce Migliaccio e outros atores do elenco.

O diretor de “O Rei da Vela”, José Celso Martinez Correa, entusiasmou-se com a receptividade e a boa acolhida que o grande público ofereceu à peça (…) ele diz que “o Oficina procurava um texto para a inauguração de sua nova casa de espetáculos que, ao mesmo tempo, inaugurasse a comunicação ao público de toda uma nova visão do teatro e da realidade brasileira. Eu havia lido o texto há alguns anos e ele permanecera mudo para mim. (…) Depois de toda a festividade esgotar suas possibilidades de cantar a nossa terra, uma leitura do texto em voz alta para um grupo de pessoas fez saltar, para mim e todos os colegas do Oficina, todo o percurso de Oswald na sua tentativa de tornar obra de arte toda a consciência possível do seu tempo“.

(…). “E Oswald nos deu, em ‘O Rei da Vela’, a ‘forma’ de tentar apreender, através de sua consciência revolucionária, uma realidade que era e é o oposto de todas as revoluções. ‘O Rei da Vela’ ficou sendo uma revolução de forma e conteúdo para exprimir uma não-revolução. De sua consciência utópica e revolucionaria, Oswald reviu seu país, e em estado de criação quase selvagem captou toda a falta de criatividade e de historia desse mesmo país. (…)

O diretor conclui dizendo que sua geração apanhará a bola que Oswald lançou com sua consciência cruel e antifestiva da realidade nacional e dos difíceis caminhos de revolucioná-la. “Ela não está, ainda, totalmente conformada em somente levar sua vela. São os dados que procuramos tornar legíveis nesse espetáculo“.

Sobre sua participação na peça, Renato Borghi dizia então que “A dramaturgia bombástica me fazia sentir atuando dentro da raiz e da alma brasileira. Nesta peça, o Oswald falava do Brasil de uma forma antropofágica, devorando o que a gente tinha de bom e de péssimo. O Oswald pegou o Brasil por todos os lados, devorou-o e depois o cuspiu no palco. E eu assinei em baixo, com sangue, suor e lágrimas…”.

O Rei da Vela, escrito por Oswald em 1933 e traduzido para o palco pelo Oficina, acaba, segundo alguns autores, dando origem, ou forma, ao Tropicalismo, que teria repercussão nas artes plásticas, na música, no cinema e na literatura.

Em 1968, estréia Roda Viva, de Chico Buarque de Holanda, com direção de José Celso, cenários e figurinos de Flávio Império. Sobre esse espetáculo, José Celso afirma ser a “descoberta de todo espaço cênico como área de atuação e retomada do contacto físico com o público, como no Carnaval, no Candomblé e na Umbanda.”

Em 13 de dezembro de 1968, instaura-se o AI-5 e o Teatro Oficina estréia Galileu Galilei, de Bertold Brecht. A encenação apresenta o coro preso atrás de grades, sem olhar para platéia. No coro, misturam-se trechos do Roda Viva e do Rei da Vela, o Oficina fazendo novas leituras de seu próprio trabalho. “O melhor Brecht também é dele” , seja Galilei Galilei, seja Na selva das Cidades, é o que diz Aimar Labaki.

Em 1969, com Na Selva das Cidades, de Brecht, acontece a primeira parceria de Lina Bo Bardi com o Oficina, justamente sobre a relação entre o teatro e a cidade, mais precisamente entre o teatro e o Bexiga.  A construção do Minhocão, logo em frente ao Teatro, que seccionaria o Bexiga, numa espécie inauguração do processo de descaracterização que se abateu sobre o bairro, toma conta do espetáculo. Ossos e lixo dos seus escombros e uma betoneira de cimento entram no cenário e Lina traz para o palco os troncos de árvores derrubadas pela construção. Essa cena teria inspirado Caetano Veloso para a expressão “oficina de florestas”, na letra de Sampa, “Da força da grana que ergue e destrói coisas belas – Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas, Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços – Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva”  e seria incorporada pelo Oficina nas suas várias representações de São Paulo.

Os anos seguintes são de retração do Grupo, que inicia clandestinamente circulação pelo nordeste brasileiro, até a estréia, em 1972, de Gracias Señor, com cenografia também de Lina Bo Bardi. A peça é suspensa depois de polêmica entre os censores e a Policia Federal que insistia em mantê-la em cartaz para estudar o que chamava de “hipnotismo, aprendido da revolução chinesa pelos atores do Oficina” tal como publicado em um dos “Como eles agem”, série de boletins oficiais de esclarecimento, que os jornais da época transcreviam como matéria anticomunista.

Em 21 de abril de 1974, a Polícia invade o Teatro Oficina, José Celso é preso, junto com o cineasta Celso Lucas, e posteriormente mantido sob liberdade vigiada. O diretor acaba tendo de deixar o país e conduz vários trabalhos no exílio em Portugal. O Teatro reabre somente em 1979, no mesmo 21 de abril, quando começa sua aproximação com novos públicos, especialmente de migrantes, do Movimento Negro, de sambistas de São Paulo e da região do Bexiga. Em 1982, Mistérios Gozozos de Oswald de Andrade, marca o retorno.

Nesse mesmo ano de 1982, com homologação em 1983, o Teatro Oficina é tombado pelo Condephaat. A solução do espaço interno quando do tombamento era aquela projetada por Flavio Império em 1966, com palco italiano, e onde havia estreado o Rei da Vela. Essa solução foi totalmente alterada, anos mais tarde, com base em projeto de Lina Bo Bardi, que é como se encontra hoje o teatro objeto de análise. Nesse fato – alteração após tombamento estadual – tem origem polêmica com o Condephaat, relatada pelo Parecer do arquiteto Vitor Mori, da 9ª SR do IPHAN. Com base na documentação do processo do Condephaat, analisada no citado Parecer, Flávio Império afirmava que o Teatro Oficina representava um documento de como se deu o “surto de pesquisa de linguagem teatral que influenciou até hoje o teatro Moderno no Brasil”. O parecer para tombamento do então Conselheiro do Condephaat, Ulpiano Bezerra de Menezes, valorizava a solução de adaptação do prédio antigo para o teatro, que não teria perdido “as características originais que permitem identificá-lo como um “casarão do Bexiga”. O grupo Oficina tem sua solicitação indeferida pelo Condephaat, com base na constatação de que não se poderia comprometer “as características materiais de um suporte físico cujo mérito foi reconhecido”. o diretor do Teatro alega que o tombamento, de cunho sobretudo histórico, comportava, com total anuência do próprio Flávio Império, autor do projeto original, a possibilidade de alteração do interior para dar lugar ao projeto de Lina Bo Bardi, almejado pelo grupo que queria abandonar de vez o Palco Italiano. O fato concreto é que esse interior foi demolido e a solução que se encontra em análise é a que lhe sucedeu, de autoria de Lina Bo Bardi e Edson Elito e cujas obras foram, em grande parte, financiadas pelo próprio Ministério da Cultura por meio do então SPHAN Pro Memória (1986), como informa Vitor Mori. Entendo que não cabe, independente do juízo que se possa fazer dos fatos, opinar sobre tombar ou não o edifício com base numa eventual crítica à condução desses acontecimentos. A análise deverá se basear, como procurarei fazer adiante, nos valores do edifício existente em si e dele como testemunho da história do teatro no Brasil.

Retornando à cronologia, em 1984, o imóvel foi desapropriado pelo Governo de São Paulo (governador  Franco Montoro) e cedido ao Oficina, situação que iria tornar-se definitiva apenas em 2006, quando o Estado (governador Claudio Lembo) assinou comodato de 99 anos com o Grupo.

Seguem-se, em 1991, As Boas, em 1993, Ham-let; em 1996, Para Dar um Fim no Juízo de Deus e As Bacantes; em 1997,  Ela; em 1998, Cacilda! (quatro peças previstas, duas para a partir de 2010) eTaniko, o Rito do Vale (adaptação de Teatro Noh); em 1999, Boca de Ouro.

A partir do ano 2000, iniciam-se as leituras e oficinas de Os Sertões, de Euclides da Cunha. A aproximação com camadas mais populares da cidade, iniciada em décadas anteriores, implica agora a proximidade com os grupos mais excluídos do processo de desenvolvimento urbano de São Paulo, que nesse período vê recrudescerem os movimentos por moradia na sua região central, ocupações dos Movimentos dos Sem Teto, movimentos de catadores de papel, de defesa dos moradores de rua. Os Sertões é transformado em metáfora da cidade e especialmente do Bexiga; crianças e jovens da região passam a atuar nas leituras e posteriormente nas encenações. Essa metáfora parece ter sido premonitoriamente vista por Lina Bo Bardi na sua solução para o interior do Teatro, porque, além de tratá-lo como continuidade e penetração da rua – como corso, cortejo, desfile, procissão, romaria – deixa a parte central do piso sem revestimento, para que ali possa aflorar a Terra, o lugar, suporte da vida e das encenações.

Assim como no livro, as encenações de Os Sertões se dividem em três partes, que resultam em cinco: A Terra, O Homem (I e II) e A Luta (I e II). Em 2002, estréia A Terra; em 2003, O Homem; em 2005, A Luta; em 2006, a segunda parte de A Luta e, finalmente, a obra completa em 2007. Em 2004, Os Sertões viaja para a  Alemanha e Boca de Ouro é encenada em Moscou. Inicia-se a filmagem de um longa metragem de Os Sertões, processo que já vinha sendo realizado com outros trabalhos do Grupo.

Em 2008, o Oficina comemorou seus 50 anos de existência, hoje são 52 anos e em 2011 serão 50 anos na Rua Jaceguay, no Bexiga.

Conclusão – Parte I

O fenômeno Oficina não é um produto do acaso, mas de um ambiente de notável fertilidade, inclusive com repercussões no presente, a considerar o fato de que, mesmo com todas as transformações desses  50 anos, São Paulo  ainda dá lugar ao maior volume de produção, circulação e público teatral do país, da produção mais comercial a mais experimental.

Da mesma geração ou convivendo como o Oficina, tivemos o Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, do dramaturgo Jorge Andrade e de grandes diretores  como Antunes Filho e atores como Paulo Autran, Cacilda Becker, Tônia Carrero, Fernanda Montenegro e Sergio Cardoso; o Teatro Maria Della Costa , fundado em 1954, grandes atores e  importantes cenógrafos, como Gianni Ratto e Franco Zampari; o Teatro de Arena, que também explorou nova relação palco-platéia, com encenadores como Gianfrancesco Guarnieri,  Oduvaldo Viana Filho e Augusto Boal e atores como Eva Wilma, John Herbert,  Flávio Migliaccio, Milton Gonçalves e, mais tarde, Paulo José, Juca de Oliveira, Lima Duarte, Dina Sfat. Também do Arena, a fase de releitura da história brasileira com Zumbi e Tiradentes e a música de Edu Lobo, Caetano, Tom Zé, Gal e Maria Bethânia; o Teatro Ruth Escobar, depredado pela polícia durante a montagem do Oficina para Roda Viva, de montagens antológicas como Cemitério de Automóveis e  O Balcão, de produções com Victor Garcia, Jean Genet e Fernando Arrabal. Ainda da geração entre o final dos anos 1960 e o início dos 70, nomes como Plínio Marcos, Antônio Bivar, Zé Vicente, Mário Prata.

Todos foram, indistintamente, atingidos pela repressão política pós 1964. Yan Michalski, em O teatro amordaçado, faz um histórico do que ele chama da guerra dos 15 anos entre a censura e o Teatro (1964 /79) mostrando a irregularidade, a  irracionalidade, as proibições instantâneas,  por vezes mais moralistas do que políticas, prisões e exílio relatados em cerca de 300 episódios em todo o país, sem exceção. Segundo Michalski, essa era a época em que o lendário General Juvêncio Façanha dizia: ou vocês mudam, ou acabam!.

Quase todos se localizavam no Bexiga – TBC, Maria Della Costa e Ruth Escobar – e o  Arena, na Praça Roosevelt. TBC e Arena não mais existem, os teatros Maria Della Costa e Ruth Escobar continuam existindo, não como companhias, mas como salas de espetáculo.

Nesse aspecto, o que distingue o Oficina de todos eles é a continuidade. Não a longevidade, o que já seria muito, mas a permanência com renovação, permanência lastreada no vínculo com o presente, com o lugar, com a Terra – como em Canudos – e com a cidade. E nisso o edifício e sua inserção explicam muita coisa; são, ao mesmo tempo causa e conseqüência.

Ai estaria, também em parte, a razão do tema ter motivado o debate interno ao IPHAN sobre um eventual Registro do Teatro Oficina como patrimônio imaterial, provavelmente na categoria de Lugar, debate de forma alguma desprovido de sentido, mas que não encontra coerência com o previsto no Decreto 3551/2000, nem com as políticas e critérios que vem sendo adotados pelo DPI.

A descrição detalhada dessa trajetória evidencia a densidade e a dimensão de um fato cultural cuja proximidade temporal traz o risco de nos deixar indiferentes ou menos atentos. Feito isso, entendo que não faltam argumentos para reconhecer no edifício da Rua Jaceguay 520 como a representação material desse fato e, portanto, opinar pela sua  inscrição no Livro de Tombo Histórico.

A Arquitetura

O Oficina não é o portal da Catedral de Colônia do século XVIII,

mas é o marco importante de um caminho difícil.

A epigrafe é de Lina Bo Bardi, registrada no livro Teatro Oficina, parte da série sobre seus projetos publicada pelo Instituto Lina Bo e PM Bardi sobre a obra da arquiteta e seus colaboradores.O livro contém rica documentação sobre o projeto de Lina em parceria com Edson Elito, a partir de um conceito, ainda anterior, do Teatro-Rua, de autoria dela própria e do arquiteto Marcelo Suzuki.

Edson Elito é arquiteto pela FAU/Mackenzie, 1971, com vasta e importante produção, inclusive de novos edifícios teatrais, restaurações, além de atuação profissional destacada nas organizações profissionais e nos debates sobre arquitetura e urbanismo em São Paulo. Em texto de sua autoria na publicação mencionada, o arquiteto refere-se a um saudável, por vezes complexo processo de integração de diferenças culturais e estéticas: de um lado nós arquitetos e nossa formação modernista, os conceitos de limpeza formal, pureza de elementos, less is more, ascetismo;  e do outro, o teatro de José Celso, com o simbolismo, a iconoclastia, o barroco, a antropofagia, o sentido, a emoção, e o desejo de contato físico entre atores e platéia,o “ te-ato”. Os princípios do programa eram (…)os conceitos de rua de passagem, de passarela de ligação entre a rua Jaceguay, o viaduto e os espaços residuais (…) e grande área livre ao fundo; de espaço transparente, do (…) espaço cênico unificado – “ todo espaço é cênico”,  flexibilidade de uso, (…) recursos técnicos contemporâneos ao lado do despojamento (…). Ainda segundo Elito, “A leitura do texto As Bacantes e os conceitos do teatro Nô direcionaram os estudos iniciais com passarelas interligadas e cobertura de lona plástica alusiva à provisoriedade desejada, sem poltronas – apenas bancos que os espectadores movimentariam conforme a cena.” Descreve a impossibilidade de aproveitamento do interior do edifício existente e a decisão por manter apenas as paredes envoltórias, com seus arcos de tijolos de embasamento.

O projeto é desenvolvido com o palco percorrendo toda a extensão do teatro, um palco-passarela, palco-passagem, marcado por uma faixa central onde aflora a terra, em 1,50 m de largura. Esse palco-rua é margeado pela platéia, que se dispõe em andares de galerias construídas com tubos desmontáveis, semelhantes a andaimes. Essa soluçao faz com que o espectador percorra o espaço do teatro durante o espetáculo, transitando conforme seu desejo de recepção da cena. A teoria sobre a linguagem do teatro remete esse partido às idéias de Brecht e Antonin Artaud, de um teatro não ilusionista, onde, segundo Elito, “os atores, atrizes, os técnicos, o público, bem como todo o equipamento objeto da cena ou não, fazem parte do espetáculo, comungam ou se contrapõem.” Assim são dispostos equipamentos de iluminação cênica, som e controles eletrônicos e, posteriormente, introduzidos captação e distribuição de vídeo para todo o teatro, possibilitando ações simultâneas em diferentes lugares. Mais uma vez Elito descreve a soluçao dizendo que “O ator, pela proximidade e por estar visível sob todos os pontos de vista, em oposição ao palco italiano, torna-se exposto em todas as dimensões, mas também tem a oportunidade de se expor, como em um espelho, ao público, a sua condição demasiadamente humana

Além da rua que adentra o teatro transformando-se em palco, a relação interior/exterior no Oficina é explorada no limite do impensável, especialmente em se tratando de um espaço teatral onde tradicionalmente seria de se supor uma caixa hermeticamente fechada por  isolamento acústico, sonoro e visual. A cobertura tem abóbada de aço deslizante que “platonicamente contempla o elemento ar, e um jardim existente, a terra.” Essa terra resulta de pequeno recuo lateral da esquadria, onde uma enorme árvore – um angico ou gurucaia, hoje com mais de 12 metros de altura – encosta-se nos vidros de uma janela de cerca de 12 metros largura por toda a altura do edifício. A parede envidraçada descortina o lote vizinho, o Minhocão, a  cidade, a vida lá fora. O espectador fica fora e dentro e o espaço dramático tradicional, essencialmente metafórico, é confrontado com o concreto da cidade e seu cotidiano.

O projeto tinha ainda a previsão, indicada por croquis da arquiteta e por vãos deixados na parede de fundos, de desembocar numa praça pública posicionada em lote perpendicular ao do teatro. A importância do Oficina, a escassez de espaços públicos que dêm vazão à riqueza cultural do Bexiga, a intensidade de percursos a pé em um bairro popular e tão próximo do centro de São Paulo eram, e continuam sendo, motivos mais do que suficientes para se almejar essa escala. Tais projetos nunca foram detalhados pela arquiteta tendo em vista não se ter a propriedade dos imóveis e estão na base do debate político e jurídico que vem sendo travado pelo Teatro Oficina desde então.

O Oficina e a arquitetura teatral contemporânea

A arquitetura teatral contemporânea segue a tendência de aproximar ator e expectador, palco e platéia em espaços contiguos e, ainda, de flexibilização do espaço arquitetônico, de forma processual e dinâmica, onde a presença do indivíduo é fundamental para que o espaço se realize.

Não se trata de algo totalmente novo: Vitruvius, em De Architectura, previa uma cena arquitetônica total que cercava o palco, o espectador, o anfiteatro e a paisagem. Mais tarde, o palco elisabetano, do Globe Theatre de Sheakspeare, o Teatro Olimpico de Andrea Palladio ou o Palco Noh japonês são estruturas de maior aproximação com o público, ou com o ambiente ou mesmo onde se experimentam simultaneidades. A própria revisão do palco italiano não é nenhuma unanimidade, novos palcos italianos continuam sendo construídos e espetáculos de grande qualidade seguem sendo exibidos naqueles existentes.

No entanto, refletir sobre a arquitetura teatral é um exercício cada vez  mais complexo e transdiciplinar. Especialmente após a 2ª Guerra, a busca de novas relações entre o indivíduo e o espaço teatral se acentua e diretores e encenadores como Antonin Artaud, Bertolt Brecht, Jerzy Grotowski induzem à procura de reconfigurações espaciais capazes aprofundar a relação entre cena e público. O palco italiano é questionado total ou parcialmente, o que implica modificá-lo fisicamente ou promover, pela encenação, a remoção da chamada quarta parede, explodindo a conformaçao física.

O cenógrafo e mestre em Arquitetura, Cristiano Cezarino Rodrigues, no artigo denominado Cogitar a Arquitetura teatral, Revista Viruvius, jan 2009, ao investigar interfaces transdisciplinares entre a arquitetura e o teatro, elege três projetos para ilustrar os caminhos rumo a uma nova síntese entre esses dois: o Teatro Total (1927), de Walter Gropius; o Fun Palace (1961) de Cedric Price, e o Teatro Oficina (1984), de Lina Bo Bardi e Edson Elito.

Segundo descreve o autor, a arquitetura  teatral teve amplo espaço de discussão na Bauhaus, onde se questionava a rigidez do palco tradicional e as formas de relação entre a cena e o público, com base no conceito de “Teatro Total” de Moholy-Nagy, que defendia a  utilização de recursos capazes de “produzir um tipo de atividade cênica que não mais coloque as massas como espectadores impassíveis, e lhes permita “ fundir-se com a ação do palco”. O exemplo mais famoso é o projeto de Walter Gropius para o Total Theatre, 1927, que nunca chegou a ser construído. Junto com o diretor teatral Erwin Piscator e o encenador russo Meyerhold, Gropius propôs um edifício flexível, ovalado, com auditório conversível em palco italiano, arena ou palco projetado. Segundo o arquiteto, essas opções permitiriam um‘ataque’ ao espectador, alterando sua posição quando a peça está sendo encenada (…) transformando a escala de valores vigente, colocando o espectador diante de uma nova consciência do espaço e fazendo com que ele participe da ação.”

Segundo a cenógrafa Lidia Kosovski , “a partir desta intensa investigação de técnicas óticas, de expedientes cinéticos e de novos materiais para o palco, a Bauhaus tornou-se um dos primeiros núcleos de estudos a perceber a cidade como campo de aplicação dos recursos utilizados na cena, sobretudo no uso da luz como linguagem”.

O Fun Palace (1961) resulta de parceria entre o arquiteto britânico Cedric Price e a encenadora Joan Littlewood. O edificio proposto por Price, que também nunca foi construído, tinha um programa de atividades aberto e indeterminado: uma estrutura metálica com paredes, teto, escadas, plataformas pré-fabricadas, que poderiam ser seriam montados por guindastes, possibilitando os mais diferentes usos e as mais inusitadas formas, fosse um teatro, um restaurante, um cinema, oficinas ou arena. O mais relevante no estudo do Fun Palace é que a noção de público ativo e participante ultrapassa o espaço-tempo do evento em si e amplia-se para o edifício, elevando exponencialmente o diálogo entre ambos. O Fun Palace não determina a forma como o espectador experimenta o evento, enquanto que no Teatro Total de Gropius, por mais que os arranjos da platéia mudem, a maneira com que o espectador experimenta o evento continua a mesma. No Fun Palace as formas de relação entre a cena e o público e a participação deste não dependem exclusivamente do artista, como é o caso do Teatro Oficina, descrito a seguir.

O estudo de Rodrigues oferece como grande contribuição situar o Teatro Oficina no debate internacional sobre a arquitetura teatral contemporânea. A começar, o caso do Oficina alinha-se com a tendência mundial de um  teatro para cada encenador e não mais de uma idéia universal do que seja o teatro. As discussões sobre o palco italiano, o papel do espaço nao apenas como suporte, mas como agente da cena, estão todas presentes no projeto que, segundo a ótica mencionada por Rodrigues e confirmada pelos depoimentos, é de autoria de  Lina/Edson/ZéCelso. Da proposta da Bauhaus, o Oficina, com seu palco-rua, experimenta concretamente o que Lidia Kosovski diz ser tratar “a cidade como campo de aplicação dos recursos utilizados na cena”. Um passo adiante do Teatro Total no que se refere à relação ator-público e menos ambicioso que o Fun Palace quanto à flexibilidade e à simultaneidade de recursos, o fato é que, dos três, o Oficina é a única proposta realizada, construída e utilizada à exaustão por mais de 20 anos.

A metáfora da rua é o paradigma da concepção do Oficina, a rua como sendo o que permite sair da experiência da contemplação para a esfera da ação . A rua é o lugar de se encontrar o Outro e o Oficina funda seu teatro nesse símbolo, no desejo de contato físico, numa linguagem que se aproxima das raízes da cultura brasileira e aborda o indivíduo, segundo seu encenador, pela psiché, pela “possessão” e não apenas pela razão. Segundo Rodrigues, é no teatro-rua que o extraordinário se insere no ordinário do cotidiano e a vida oferece a matéria prima para a reflexão, para a transformação do espaço e do próprio indivíduo. A relação edifício/cidade, aqui discutida para o caso do Oficina, ainda tem muito espaço para aprofundamento e investigação. Ainda que raros, em todo o mundo surgem trabalhos como do Teatro da Vertigem, grupo também baseado em São Paulo, que exprimenta radicalmente a utilização de espaços não convencionais para encenação, como as ruas, as igrejas, os hospitais da cidade.

As considerações, presentes no dossier, sobre possivel Registro do Oficina como Bem Imaterial tem, certamente, um lastro na constatação desse fenômeno, ou seja, de um espaço que somente se realiza mediante a ação, profundamente enraizado em um território que é São Paulo e que é o Bexiga e, sobretudo, de um espaço conformado pela imaterialidade da prática teatral. Embora a indagação seja corretamente motivada, a solução, ou seja, o Registro, não parece compatível com definição de Lugar decorrente da legislação em vigor e da sua experiência de aplicação.

Conclusão da Parte II

Toda essa reflexão, no entanto, me parece mais do que suficiente para motivar o reconhecimento do valor excepcional dessa – para usar a analogia com os termos do imaterial – arquitetura viva, que, por vezes se retrai e permite, por vezes se impõe e induz a cena, o rito, o encontro e o confronto. Mais uma vez conforme Rodrigues,”arquitetura e teatro, no Oficina, são, ao final, a mesma coisa: espaços conformando sujeitos.”

Assim é que essa arquitetura, entalada em um lote exíguo, limitada por todos os lados, feita de um aparente provisório, entre andaimes e fragmentos de terra batida, encravada em um bairro cuja riqueza e diversidade têm sido tão maltratadas pela cidade, merece ser gravada no Livro de Tombo das Belas Artes.

Tanto pelo que, sem nenhum favor, ela já provou ser, quanto pelo que pode instigar sobre o próprio sentido do belo, o belo que, invocando Lina Bo Bardi, seja capaz de demolir dicotomias entre forma e função e de produzir metáforas realizáveis. Não o portal da Catedral de Colônia, mas marco importante de um caminho difícil.

A relação entre o Teatro Oficina e o Bexiga e as recomendações quanto ao entorno

Os imigrantes italianos pobres, que se instalaram nos pequenos lotes do parcelamento da Chácara do Bexiga no final do século XIX, encontraram ali o núcleo semi-rural de Saracura, onde existia um remanescente de quilombo. Uma situação topográfica complicada, a proximidade do centro e da Avenida Paulista, fizeram do Bexiga um reduto de trabalhadores domésticos das casas de alto padrão, operários, trabalhadores informais, pequenos comerciantes. Esse modelo, que, segundo Raquel Rolnik em A Cidade e a Lei – legislação, política urbana e territórios na cidade de São Paulo, se reproduziu em vários bairros da cidade, explica porque o Bexiga é hoje, não apenas o bairro dos italianos, mas o lugar das festas populares, do samba paulista, de uma das mais importantes escolas de samba do país – a Vai Vai, e dos terreiros de candomblé. Em torno dos anos 1960/70, o Bexiga se tornou um pólo da vida boêmia da cidade, lugar dos teatros (ainda hoje são mais de dez), bares e cantinas, hoje integrados a um circuito turistico-cultural de São Paulo.

Encontra-se em desenvolvimento, pelo Departamento de Patrimônio Imaterial do IPHAN, o inventário de Referências Culturais da região, que poderá oferecer insumos importantes para a salvaguarda desses valores culturais.

Tombamentos municipais (cerca de 900 imóveis) e zonas especiais (ZEPCs – Zonas de Especialis de Patrimônio Cultural e ZEIS – Zonas Especiais de Interesse Social) previstas pelo Plano Diretor atestam a importância do bairro e o interesse de se preservar ali, não apenas edificações, mas os usos e a diversidade que são o seu maior valor.

É imediato associar o Teatro Oficina a esse contexto por duas vias: tanto o Oficina pode ser tomado como elemento chave de um processo de reabilitação, quanto a preservação dos valores do bairro é essencial à vitalidade do Oficina.

O que não fica claro – e deveria merecer uma avaliação mais aprofundada – é porque uma cidade como São Paulo, onde se tem a maior e mais consolidada experiência de aplicação de instrumentos urbanísticos como a transferência do direito de construir e as operações urbanas não elegeu o Bexiga para a aplicação prioritária desses mecanismos, justo uma região tão bem localizada, que tem potencialmente muito mais valor para São Paulo – até mesmo sob o ponto vista estritamente financeiro – pela sua diversidade cultural do que pela quantidade de metros quadrados que se possa construir ali. Edificações com destinações comerciais e de serviços, que não tenham outros requisitos locacionais a não ser a acessibilidade, podem ser deslocadas dentro do espaço da cidade utilizando instrumentos dessa natureza. Já o lugar das práticas culturais é ali, e só ali. Se não for ali, o Bexiga como tal deixará de existir.

Jurema Machado

Rio de Janeiro,24 de junho de 2010

Conclusão

Considerando o Parecer da Relatora e após discussão do Conselho, foi a seguinte a decisão final:

  • Pela inscrição do Teatro Oficina no Livro de Tombo Histórico e no Livro de Tombo das Belas Artes.
  • Pela re-avaliação posterior, pelo IPHAN, da delimitação do entorno, tendo em vista tratar-se de bem a ser inscrito também no Livro de Belas Artes e não exclusivamente no Livro Histórico,e
  • Pela manifestação, ao Ministro da Cultura, de que o Ministério e o governo federal identifiquem mecanismos que viabilizem a destinação do terreno contiguo ao Teatro Oficina para um equipamento cultural de uso público, utilizando mecanismos tais como a aquisição, a desapropriação ou a conjugação destes com instrumentos urbanísticos a serem identificados em cooperação com o Município e com o Estado de São Paulo.

Diretor artístico de Inhotim apoia tombamento do Oficina

sábado, 24 de julho de 2010

“A ficção nos permite viver de realidade e, simultaneamente, de tudo que a realidade esconde.”

Marcel Broodthaers

A Arte descobre, ocupa, inventa e define lugares, novos lugares, sejam eles no centro ou na periferia, lugares históricos, lugares precários, enfim, qualquer lugar. Os períodos de opressão política e instabilidade social são, repetidamente, provas disso. A criatividade artística se alimenta tanto da luta quanto do amor, ela existe na resistência, mas floresce na paz. Nesse contexto, os artistas se escondem ou se expõem, calam-se sofrendo ou crescem gritando, mas suas obras têm vidas independentes que se transformam fisica e simbolicamente. Com essas transformações a produção artística pode tornar-se obstáculo, escândalo, incômodo ou ferramenta, inspiração, beleza, e passa a ser objeto ou ficção.

Mas nada disso se aplica à cultura. Se a arte define lugares, a cultura precisa de espaço. Se a arte consegue alimentar-se de luta, a cultura não, ou mal sobrevive à opressão política. A etimologia da palavra cultura vem de agronomia – o cultivo dos campos, que já aponta para a necessidade de espaço físico adequado. Sem território próprio, com garantido potencial de crescimento, a cultura pára de ser uma criação colaborativa e se limita a ser puramente uma devastação coletiva. A cultura não se constitui a partir da história dividida de um povo, uma região ou uma época. Ela se constrói a partir de uma perspectiva compartilhada. Ela nunca é simbólica, mas sempre concreta. Neste sentido, política cultural significa tanto a organização de um acervo histórico quanto a construção de uma agenda cultural.

Com a questão levada para voto dos Conselheiros do Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional, no dia 24 de junho de 2010, sobre o tombamento do entorno do Teatro Oficina, apresenta-se aí uma oportunidade decisiva de extrema significância. O prédio do Teatro Oficina e seu entorno possui grande importância pelo projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi e pelo projeto urbanístico da mesma autoria, ainda não concretizado. Enquanto normalmente as decisões sobre ocupações de área urbana por espaços culturais são movidas por questões de representatividade política, a situação em torno do Teatro Oficina vem representando o contrário, antes mesmo de qualquer projeção artística.

Com sua trajetória de mais de 50 anos e com reconhecimento nacional e internacional, o projeto artístico do Teatro Oficina conseguiu durante décadas entender e usar sua sede não somente como lugar de atuação, mas principalmente como espaço de criação colaborativa. Esse espaço de criação não se restringiu à área construída na Rua Jaceguay 520, mas sempre se expandiu pela vizinhança, no bairro histórico do Bixiga. José Celso Martinez Corrêa e os atuantes do Teatro Oficina desenvolvem suas estratégicas artísticas baseadas em um diálogo ativo com a cultura local das comunidades do entorno – uma população com profundas tradições culturais, um bairro ameaçado de ser engolido pela especulação imobiliária de São Paulo.

O reforço do tombamento existente de 1982 do entorno do edifício histórico de uma das mais importantes arquitetas do século XX e o apoio político dos projetos desenvolvido por José Celso Martinez Corrêa, Lina Bo Bardi e muitos outros colaboradores sugerindo a implantação de um Teatro Estádio e uma Universidade Antropofágica, ambos projetados para o terreno vizinho da atual sede do Teatro Oficina, significará muito mais do que um voto explícito entre as forças econômicas e as proposições artísticas. Na decisão a favor do tombamento poderá se concretizar o exercício de política cultural com ações do tipo:

- identificar e valorizar quando uma proposição artística se destaca por relevância – qualidade, inserção social e visão transformadora;

- reconhecer a importância patrimonial de um projeto arquitetônico;

- recuperar e expor para discussão pública a projeção visionária para a micro-região urbana;

- projetar impactos locais que sirvam de inspiração em nível nacional e internacional;

- entender que existe uma clara distinção entre arte e cultura;

- saber conduzir, através das medidas legais, quando o aparelho legislativo oferece a ampliação de um projeto artístico para um projeto cultural;

- garantir espaço para cultura em vez de abusar da cultura para o espaço sobrando.

A decisão do dia 24 de junho interfere, sim, concretamente na vida de um bairro e no futuro do Teatro Oficina, mas também é, sim, concretamente uma demonstração da potência da política cultural brasileira.

Jochen Volz, Diretor Artístico, Instituto Inhotim

Nabil Bonduki na Folha de São Paulo

quarta-feira, 14 de julho de 2010

TENDÊNCIAS/DEBATES

Lei combate especulação, mas é limitada

NABIL BONDUKI

A lei aprovada em São Paulo para combater a especulação com imóveis ociosos e subutilizados é importante, mas está atrasada e é insuficiente.
Os proprietários têm um ano após serem notificados para apresentar projeto de ocupação dos imóveis; caso não o façam, serão penalizados com imposto progressivo: a cada ano, a alíquota do IPTU será dobrada, até atingir 15% do valor da propriedade.
O dispositivo foi previsto no Plano Diretor Estratégico (PDE), aprovado em 2002, cuja redação final foi por mim formulada enquanto relator na Câmara Municipal. Embora detalhado, não pode ser aplicado imediatamente, porque o Estatuto da Cidade exige lei específica, retardando o combate à especulação.
Para evitar essa demora, a lei nº 13.885/2004, da qual também fui relator, deu um prazo de seis meses (até 4 de agosto de 2005) para que o Poder Executivo regulamentasse o instrumento. Os prefeitos Serra e Kassab, cujo descaso com a questão urbana é notória, não encaminharam o assunto.
O Ministério Público abriu uma ação civil pública contra o Executivo, por descumprimento do prazo. Coube, então, aos vereadores Paulo Teixeira (na legislatura de 2005-2008) e José Police a apresentação de projetos de lei que seguiam, na essência, o texto do PDE.
O caso mostra que, neste tema, o Legislativo está mais avançado que o Executivo paulistano. A lei aprovada, entretanto, fica muito aquém do que pretende o PDE, que incluiu nas penalidades da lei todos os imóveis ociosos (inclusive edifícios com mais de 80% de sua área vazia há mais de 5 anos na área central), inseridos na macrozona de estruturação urbana, onde a cidade deve se desenvolver.
A lei aprovada limita a aplicação do dispositivo aos imóveis situados nas Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis 2 e 3) e na Operação Urbana Centro, ou seja, a apenas 2% da macrozona. É bom para ocupar as Zeis, mas insuficiente para um correto combate à especulação fundiária e para redução significativa nos preços dos terrenos, pois nada mudará no restante da cidade.
É preocupante, ainda, o argumento do Secovi (sindicato do setor imobiliário) de que o dispositivo não valeria para edifícios vazios, como rege o PDE, que visa promover o repovoamento do centro.
O argumento dos empresários não é correto, pois o Estatuto da Cidade delega ao PDE estabelecer onde o solo urbano não utilizado não cumpre a função social da propriedade; ora, no centro de São Paulo, é evidente que um edifício vazio, entregue aos ratos, é solo urbano não utilizado.
Espera-se que o prefeito seja ágil, iniciando imediatamente a notificação dos proprietários para forçá-los a apresentar projetos de ocupação nesses imóveis ociosos até o final de 2011. Assim, em 2012, o imposto progressivo poderá começar a ser aplicado, gerando os impactos esperados nas Zeis.
A lei repercutirá em todo o país, pois raros municípios colocaram em prática dispositivos para combater a especulação imobiliária. Sua aprovação mostra ao Legislativo e Executivo paulistanos que é melhor implementar o Plano Diretor Estratégico do que perder tempo com sua revisão ilegal. A cidade vai ganhar muito mais.

NABIL BONDUKI é arquiteto e professor de planejamento urbano da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP). Ex-vereador de São Paulo pelo PT (2001-2004), foi relator do Plano Diretor Estratégico na Câmara Municipal.

SÃO JOÃO DIA D DO BAIRRO DO BIXIGA DE SÃO PAULO E DO TEAT(r)RO OFICINA UZYA UZONA

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Dia 24 de junho, será Natal no Hemisfério Sul. Dia em que os Índios da America Indo-Afro-Latina, aborígenes da Austrália, povos Africanos, Brasileiros principalmente do Norte e Nordeste, em rodas, quadrilhas, canções e forrós juninos, fogueiras e namoros, festejam o SOLSTÍCIO DE INVERNO.

“São João! São João! Acende a Fogueira do meu Coração!”

Todo dia fazemos com nossa história de vida, história; mas neste dia da noite das Fogueiras de São João, vive-se à tarde, ano Rio de Janeiro, no PAÇO IMPERIAL, um instante em que os brasileiros Conselheiros que nos representam no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN, tomam decisões em 3 cenas diferentes que definirão rumos da História do Brasil: deste as 10h da manhã estarão reunidos para examinar processos relativos aos 102 anos da IMIGRAÇÃO BRASILEIRA NO BRASIL, AOS ÍNDIOS DE MATOGROSSO e ao TOMBAMEMTO DO ENTORNO DO TEATRO OFICIA, que há 30 anos vem impedindo por uma luta social, com apoio do mundo inteiro, que o TEATRO OFICINA , e o BAIRRO DO BIXIGA, sejam destruídos, antes pela construção de um SHOPPING pelo GRUPO SILVIO SANTOS e agora por 3 TORRES DE APARTAMENTOS,o projeto atual deste Grupo.

O Ministro da Educação dos anos 1930 e 1940, Gustavo Capanema, junto a 3 Andrades, os Poetas Carlos Drummond, Mário e o advogado Rodrigo Melo Franco de Andrade, há 73 anos atrás, criou esta instituição que até o dia de hoje tem enriquecido o Patrimônio Cultural do Brasil.

Dia 10 deste mês das Fogueiras, o “Diário de São Paulo” publicou matéria de página inteira anunciando esta reunião de hoje, com Manchete Drummondiana “Tem um Teatro no meio do caminho”. A Palavra “meio” está em letra de formato maior, e seu “i” é uma seta enorme apontando para uma foto do Prédio do Teatro Oficina, como Protagonista de um entorno urbano totalmente destruído, embaixo do qual se montou uma foto do lado direito, de Sílvio Santos ao lado de uma chamada em fundo negro, em letras brancas escrito: GRUPO SILVIO SANTOS; e do lado esquerdo uma foto de José Celso Martinez Corrêa, com outra chamada: TEATRO OFICINA. Exatamente o Teatro, no Bairro do Bixiga, onde é cultivado um Ponto de Vista Estético Específico do Teatro Brasileiro e Internacional há 51 anos, e que hoje deve ser estudado pelos Conselheiros presentes no Paço Imperial.

Os Ilustres Conselheiros examinarão três cenas distintas do Patrimônio Artístico e Cultural do Brasil. No caso do Oficina, sua decisão deve intervir fortemente na Cena atual do Teatro Brasileiro.

Este Teatro, o Oficina, há 30 anos defende e quer ampliar a terra em que floresce sua criação e libertar-se do Cerco da Especulação Imobiliária que cerceia seu crescimento em seu entorno, tombado pelo Conselho do CONDEPHAAT, com 300 metros de entorno, conforme determina a Constituição Brasileira. Este Tombamento foi realizado em 1982 pelo geógrafo Azis Ab’Saber, então presidente do conselho na gestão do Secretário de Cultura, o pianista João Carlos Martins, tendo por base o “Laudo Técnico” dado pelo saudoso arquiteto, artista plástico, cenógrafo, figurinista e diretor teatral: Flávio Império. Este ato é Revolucionário em seu conceito, pois ao mesmo tempo em que tombava o Teatro, tombava seu entorno para a realização de um Projeto de um dos maiores “Arquitetos” do século XX – Lina Bardi – Mulher protagonista desta história.

O “Arquiteto” como ela fazia questão de ser chamada, Lina Bardi, concebeu a obra que acabou por ser seu Canto de Cisne, para o Teatro Oficina em 1980: um Espaço Arquitetônico Urbanístico em que o Oficina transforma-se numa RUA, chamada por ela “Teatro Pé na Estrada’”, como afirmava “Chão de Terreiro, Galerias do Scala de Milano, dando para as Catacumbas de Silvio Santos”. Com Catacumbas referia-se ao Colyseum Romano, mas adotou o nome que seu amigo, Oswald de Andrade, já tinha criado em 1943: “TEATRO DE ESTÁDIO”, para a devoração do Coliseo Romano, lugar para “a Paixão, a Emoção do Povo da Grécia Carnavalesca do Brasil comer seus bodes, cantando-os. Cantar o Bode, igual a Cantar sua Tragédia: bode em grego tragos, canto, oidé, Tragoidé.

Este Tombamento, no que toca a seu entorno, não foi respeitado anos depois, pelo CONDEPHAAT, que foi perdendo pelos Governos sucessivos seu poder, tornando-se cada vez mais refém da Especulação Imobiliária.

A concepção deste novo Teatro chamado também de “TERREIRO ELETRÔNICO” começou na montagem de “Na Selva das Cidades”, do Jovem Brecht em 1969. Era o início da Divisão do Bairro Popular e Cosmopolita, Umbigo da Cidade: o BIXIGA. Na destruição operada para a construção do MINHOCÃO, Lina então criou o Espaço Cênico da peça, com árvores arrancadas em frente ao Teatro, escombros das casas destruídas, e colocou tudo no centro do espaço, fora do Palco então existente, num RINGUE DE BOXE em 11 rounds, tudo, como na Cidade, ia se destruindo, até se chegar ao próprio cimento que cobria o chão do Teatro. Ali embaixo Lina encontrou a Terra, que chamou “Os Sertões” da Rua Jaceguay 520. Em todos os espetáculos, num trabalho puxado dos atores e dos maquinistas, os objetos que construíam cada cena eram destruídos pelos atores que os atiravam a um amontoado enorme de Lixo, protegido por uma trama de ferro, para não atingir o Público. Todos os espetáculos terminavam por arrancar as tábuas do Ringue e chegar a Terra da Jaceguay 520.

Rimbaud, nas ruas de 1968 em Paris, havia retornado com seus versos: “en dessous lês pavets, Il y a la plage”, “debaixo dos paralelepípedos há a praia”.

Toda a concepção de Lina para o futuro projeto nasceu desde então desta e de todas as peças encenadas pelo Oficina. O Projeto do que chamam hoje o “Anhangabaú da Feliz Cidade” foi, a partir daí, o de um Espaço Público e Urbano Teatral construído pelas exigências das peças teatrais dos atuadores, na dinâmica que as novas descobertas a partir de “O Rei da Vela” e “Roda Viva” passaram a exigir. Aliás, em virtude deste movimento Flávio Império centrou sua argumentação para o Tombamento Revolucionário de 1982. Este Parecer, entre outros, foi incluído no Processo de Tombamento julgado hoje, do Entorno do Teatro Oficina pelo IPHAN.

Lina acolheu este movimento do Teatro Brasileiro, e foi criando o novo espaço organicamente. Isto tornou a arquitetura do Teatro Oficina um espaço único no mundo, uma OBRA DE ARTE em si, MEDALHA DE OURO DA BIENAL DE ARQUITETURA DE PRAGA. É um TEATRO RUA, que busca a Cidade, o retorno ao momento mais forte da história do Teatro no Mundo: o ANFITEATRO DA TRAGÉDIA GREGA . Um Teatro Cívico, para a Cidade. Ao mesmo tempo deu continuidade ao processo interrompido pelo AI 5 de tornar o BIXIGA um Ponto de Encontro Cosmopolita da Cidade com o Povo do Bairro, como se iniciou no PELOURINHO DA BAHIA, mas que também não foi em frente porque foi exigido que não permanecessem os antigos moradores no local reconstruído. Para o BIXIGA, o movimento de sua evolução urbanística indicava o mesmo: que ficassem seus habitantes nordestinos, afro descendentes e seus Teatros e Cantinas. E mais do que isso, que os Teatros cultivassem o espírito dos que lá existiram dos anos 1940 aos 1960, como trabalho de companhias permanentes nas mais diferentes formas de teatro.

Foi o “TBC” que, no fim dos anos 40, inaugurou este processo maravilhoso. Logo depois, o “Teatro Bela Vista”, de Sérgio Cardoso e Nydia Licia, o “Teatro Maria Della Costa”, o “Teatro Cacilda Becker”, o “Teatro Ruth Escobar”, o “Teatro de Arena” e as Cantinas, inspiradas também pelo Nick Bar, hoje uma Igreja Evangélica.

Já nos anos 80, em plena construção do “Teatro Pé na Estrada”, Lina Bardi plantou no jardim do Oficina, como em sua casa no Morumbi, a semente de uma Cezalpina, que rapidamente enraizou-se, teve seu tronco crescido, perfurando o muro do JANELÃO IMENSO , dando pra cidade de São Paulo, como o seu famoso VÃO do MASP, na Avenida Paulista, e foi dar sua Sombra ao Estacionamento do GRUPO SILVIO SANTOS. Essa é a Matriz do que será o Espaço Teatral Urbano pleno de Verde nos arredores do Teatro da Rua Jaceguay 520. Com a Cezalpina atrevida e vanguardeira, nasce “A OFICINA DE FLORESTAS”, nomeada pelo verso de Caetano Veloso no samba “Sampa”.

Lina e os atuadores do Oficina abriram um Teto Móvel no Telhado central do Teatro para os Céus da Cidade, para que os Atores, além da Contracenação consigo mesmo, com sua Companhia, contracenassem com a Paisagem Urbana. Para que seu Corpo Ator e o Corpo do Publico do Instante contracenassem com o Cosmos e o Cosmos agisse com sua Energia visível em todos os Corpos presentes.

Na Fachada do Teatro, Lina exigiu a BIGORNA DE FERRO, Tótem do Oficina, onde o Corpo sofre o Malho estraçalhador da Velha Anatomia que no Fogo da Inspiração Transmuda Alquimicamente, forjando o Corpo Atuador, o Corpo do Ator, da Atriz.

Lina dizia que eram os FERROS DE OGUM na Testa do Terreiro, o Orixá da Felicidade Guerreira. Palavras de Lina: “assim nunca iremos desistir e vamos ganhar esta luta.”

No dia 24 de Agosto de 1980, antes que o Grupo Silvio Santos entrasse nesta Cena, apresentou-se no OFICINA, com o Arquiteto Marcelo Susuki, o 1º Croqui de RUA, feito por Lina, dando para o TEATRO DE ESTÁDIO.

Tendo como Estatuto a peça de Brecht e Paul Hindemith “A IMPORTÂNCIA DE ESTAR DE ACORDO virada CONTRATO SOCIAL DE ACORDO PERMANENTE NA MUDANÇA DE SEUS MEMBROS, o TEATRO OFICINA transmudou-se de “CIA. DE TEATRO OFICINA LTDA.” em ASSOCIACÃO DE TEAT(r)O OFICINA UZYNA UZONA, e neste salto foi tendo a percepção que as montagens dos grandes textos da história do Teatro, desde os do 1º Oficina de “OS PEQUENOS BURGUESES”, “GALILEU GALILEI”, “GRACIAS SEÑOR”, “AS TRÊS IRMÃS”, de Tchecov. “O REI DA VELA”, de Oswald de Andrade, os da fase Uzyna Uzona como “O HOMEM E O CAVALO” e “OS MISTERIOS GOZOZOS”, também de Oswald,”HAM-LET”, de Shakespeare, “BACANTES”, de Eurípedes,”O BANQUETE” de Platão, “BOCA DE OURO”, de Nelson Rodrigues”, “OS BANDIDOS” de Schiller, a TEATRALOGIA CACILDA uma, duas, três, quatro exclamações !,!!,!!!,!!!!, de José Celso Martinez Corrêa, e “OS SERTÕES”, com suas 27 horas de Teatro dadas em 5 dias, eram uma Universidade em Formação. Um Saber que passou a ser pedido pela Sociedade em formas de Cursos, Oficinas, Uzynas Uzonas.

Daí nasceu a “UNIVERSIDADE ANTROPÓFAGA” que tem como ESTATUTO o “MANIFESTO ANTROPÓFAGO”, o Estudo dos Tabus, das Proibições e das zonas fronteiriças, para a formação não somente de atuadores de Teatro, mas de diplomatas nas áreas de Conflito onde estão os TABUS que impedem o movimento natural dos desejos dos povos do mundo de mudanças, do “change” nesta mudança de Era, que quer ruir os muros de todos os Ismos fundamentalistas da organização Oligárquica Patriarcal, da dominação da ARIDEZ DA ESPECULAÇÃO FINANCEIRA sustentada pela INDÚSTRIA ARMAMENTISTA que mantém o mundo refém de um sistema produtor de Guerras, Terrorismo, e Miséria Física e Espiritual. Os povos que elegeram Obama, Lula, querem deixar brotar o que recentemente descobrimos: estar próxima nossa própria destruição se não atendermos aos valores da Vida Animal, Humana, Transhumana, Vegetal, Mineral.

Hoje sabemos que a Cultura é o cultivo da Infra estrutura que é a Vida e não a Macro Economia que Marx descreveu como a Infraestrutura do Capitalismo.

CULTURA – EDUCAÇÃO – MEIO AMBIENTE hoje é um trinômio de onde brota a continuação das Espécies Vivas, a transvalorização de todos os valores, como previa Nietzche, e traz a possibilidade da PAZ MUNDIAL.

Teatralmente, o que acontece com a disputa entre o TEATRO OFICINA versus GRUPO SILVIO SANTOS é a Metáfora Concreta deste Embate Universal no Planeta todo.

A filosofia dos empreendimentos imobiliários do Grupo SS é a de que os preços subam e o valor dos terrenos cresça, para conseqüentemente construir para a classe média alta condomínios fechados, expulsando a população eloqüente e popular das ruas do BIXIGA, onde os descendentes de Libertas, a Chica da Silva paulistana, que recebeu de seu feitor a CHÁCARA DO BIXIGA, criaram a mais querida Escola de Samba da Cidade, a “VAI VAI”.

O projeto do “ANHANGABAÚ DA FELIZ CIDADE”, batizado por um dos versos da música “Inverno”, composta pelo poeta e músico José Miguel Wisnik como hino desta Guerra pela Felicidade Guerreira, leva também este nome inspirado obviamente no “BAÚ DA FELICIDADE” e é uma aposta de que o próprio GRUPO SILVIO SANTOS possa participar da construção deste empreendimento Revolucionário.

Em vez de resistir, o Oficina RE-EXISTIU, devorou esta Guerra, criando este projeto nascido desta luta por seu entorno, apoiada por milhares de mortais, que amam a cultura da vida, o Teatro, o próprio Teat(r)o Oficina, aqui no Brasil e no mundo. Não foi somente o núcleo que lá trabalha o responsável até hoje por evitar a destruição do bairro pela Corporação poderosíssima que constitui o GRUPO SILVIO SANTOS com a construção, primeiro, como queriam, de um SHOPPING, e agora TRÊS TORRES para 720 Apartamentos. Duas de um lado do OFICINA, de 27 andares, e outra do lado oposto, de 29 andares, exatamente do lado do JANELÃO e da CEZALPINA.

Essa Guerra, do lado do GRUPO SILVIO SANTOS, destruiu duas VILAS ROMANAS, tombadas pelo CONDEPHAAT, e a 1ª SINAGOGA DE SÃO PAULO. Surrealisticamente, no muro do fim da PISTA DO OFICINA, ainda hoje um BECO SEM SAÍDA, o grupo construiu uma PAREDE DE CIMENTO e sobre ela, colocou escombros da SINAGOGA, inclusive uma ESTRELA DE DAVID. Ficou uma Instalação que é chamada pelos atores do Oficina Uzyna Uzona de AUCHWITZ. É o Mistério mais Misterioso entre os acontecimentos desta guerra.

Em 2002, nos 100 anos da publicação de “OS SERTÕES” foi iniciada a encenação do livro, trabalhando-se com as crianças do bairro do BIXIGA, criando-se o Movimento BIXIGÃO, do qual, ao longo dos 6 anos em cartaz da peça, levada a vários Pontos do BRASIL, inclusive CANUDOS, e duas vezes na ALEMANHA, no Festival do Vale do Ruhr e depois abrindo a temporada de outono do VOLKSBUHNE, em Berlim, muitos novos atores surgiram e hoje fazem parte da Companhia. O BIXIGÃO é a semente da UNIVERSIDADE ANTROPÓFAGA e é a resposta do TEATRO OFICINA UZYNA UZONA para o aumento da violência e degradação da cidade, na periferia central de São Paulo.

Há oito anos, desde o primeiro GOVERNO LULA, foi proposto o tombamento do entorno do Oficina para a complementação integral do projeto inicial de Lina Bo Bardi, semi-concluído pelo Arquiteto Edson Elito. Lina Morreu um ano antes da inauguração de seu Revolucionário Teat(r)o.

Durante estes 8 anos, todos os MINISTROS DA CULTURA: Maria Elisa Costa e Antônio Augusto Arante no primeiro governo, Gilberto Gil e atualmente o MINISTRO em gestão, Juca Ferreira, e o próprio atual presidente do IPHAN, Luís Fernando Almeida, apoiaram esta reivindicação da ASSOCIAÇÃO TEAT(r)O OFICINA UZYNA UZONA, que tem apoio do Teatro Brasileiro, Internacional, e de muitos que torcem por mais Vida no Mundo e no Brasil.

Este espaço requer o TOMBAMENTO MATERIAL QUALIFICADO DO ENTORNO DO OFICINA PARA REALIZAÇÃO DO PROJETO DO ANHANGABAÚ DA FELIZ CIDADE, QUE COMPLETA O PROJETO DO GRANDE ”ARQUITETO” LINA BARDI, como ficou conceituado desde o mandato de Gilberto Gil, quando de sua visita ao Teatro Oficina juntamente com o Presidente do IPHAN, Luis Fernando Almeida.

Desde tempos arcaicos quando a ARTE DO TEATRO começou a ser praticada, sabemos que CORPO & ALMA são uma mesma realidade inseparável. O teatro especificamente tem seu meio de Produção, como a Agricultura, na Terra, no Espaço Físico dos Teatros.

O teatro, com o crescimento do Brasil, tem a oportunidade de voltar a ser uma ARTE PÚBLICA, cúmplice do reapoderamento do Poder de presença da espécie humana no Mundo.

A Construção de um Espaço que vem de uma Luta teatralizando os Impasses do mundo Contemporâneo, trazendo a Prática desde o TEATRO TOTAL, com a utilização de todos os Meios que a tecnologia digital nos colocou em mãos, caminhando cada vez mais com a Música ao Vivo, os grandes textos atuais e da Historia do Teatro, vai colocar em órbita o TEATRO RITUAL CENTRAL DA TRIBO UNIVERSAL HUMANA.

O TEATRO é uma ARTE filha de DEUS, mais exatamente de ZEUS, que, com a Mortal SEMELLE, concebeu seu fillho, DIONISIO, o deus do TEATRO.

Cacilda Becker declarou “Todos os Teatros são meus teatros”, próximo do ano de 1968, quando o CCC atacou “RODA VIVA”, de Chico Buarque de Holanda. Nesta peça o CORO PAGÃO DE PROTAGONISTAS instigadores da atuação do PÚBLICO-MULTIDÃO UNIVERSAL DE TODAS AS CLASSES, IDADES, ETNIAS E CULTURAS retornou e inspirou a criação do TEATRO DE ESTÁDIO, aberto a todos os Teatros: ao TEATRO DE COSTUMES, SOCIAL, RELIGIOSO, MUSICAL DE TODOS OS GÊNEROS, de CIAS. PERMANENTES QUE RESSUCITARAM NESTE MILÊNIO, ou das que se formam para um ÚNICO ESPETÁCULO, e aos MONÓLOGOS DOS GRANDES ATORES E COMEDIANTES,assim como os STAND UP, os TEATROS DAS ONGS,o TEATRO INFANTIL .

Tudo que se pretende Teatro terá seu lugar para ser Epifanizado diante das Multidões no “TEATRO DE ESTÁDIO”, o primeiro que naturalmente inspirará a criação de muitos outros, como os OLÍMPICOS ESTÁDIOS DE FUTEBOL.

Tudo que tiver que ser estudado, principalmente o Proibido, o será na “UNIVERSIDADE ANTROPÓFAGA”.

Todos os verdes, ervas, hortas, flores e frutos poderão ser cultivados nas “OFICINAS DE FLORESTAS”, nestes OASIS DE UTILIDADE E FUTILIDADE PÚBLICA que se abrem na Selva da Nova Cidade, e tudo isso contracenará e dará nova vida ao Bairro.

O BIXIGA, como a VILA ISABEL deu Samba, deu Teatro Contemporâneo em Terras Brasileiras da Capital do Capital. E Samba também.

Este Bairro, numa cidade de guetos como São Paulo, retornará a ser o Ponto de Encontro como quer agora Lula do PELOURINHO, sonho de Lina Bardi, e em toda VELHA SALVADOR. Um espaço preservado, ampliado e onde jamais a população pobre será expulsa, ao contrário, será enriquecida nos mais diferentes empregos, TRABALHOS, nos ofícios – quer nos CENTROS CULTURAIS BAIANOS, como o 1º gerador, O OLODUM, e em São Paulo, no “TEATRO DE ESTÁDIO”, na “UNIVERSIDADE ANTROPÓFAGA” e na “OFICINA DE FLORESTAS”.

O programa que RE-EXISTIU pressupõe, como queria Gustavo Campanema, que trabalhadores, principalmente na área da Cultura, antes de tudo sejam tratados como pessoas que poderão cultivar-se, viver a ação de qualquer trabalho como um enriquecimento econômico e de alma, de vida, de estar no mundo.

Neste São João, decide-se um passo corajoso, decisivo na História do Teatro, da Cultura Brasileira e do Crescimento do Brasil.

Que São João acenda hoje esta fogueira em todos os Corações presentes neste ato e nos que estarão torcendo em todo mundo por esta vitória da Vida nesta Era que estamos construindo.

JOSÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA

Diretor do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona

Salvador, dia 21 de junho de 2010

(Dizemos no Teatro, antes de entrar em cena: MERDA; mas agora sabemos que MERDA é OURO; esta passa a ser a nova palavra pra jogarmos, atuarmos com sucesso, ao entrarmos corpo e alma na Cena do Mundo.)

A Todos que entrarem na Cena deste TEATRO MUNDI e, sobretudo, aos PROTAGONISTAS, os CONSELHEIROS DO IPHAN DESEJAMOS:

OURO



Pelo Tombamento do Oficina e entorno no Iphan

quarta-feira, 9 de junho de 2010
Eu, José Celso Martinez Corrêa, diretor há 51 anos do Teat(r)o Oficina, informo que o terreno onde se acha esta Obra Única de Arquitetura – Urbanística Teatral, concebida por Lina Bardi, pelos Artistas e Técnicos do Oficina e concluída pelo arquiteto Edson Elito, pertence ao Governo do Estado de São Paulo, desapropriado em 1984 pela Secretaria de Governo onde estavam: JOSÉ SERRA, PAULO RENATO, PAULO SÉRGIO PINHEIRO, JOSÉ CARLOS DIAS e JORGE DA CUNHA LIMA como secretário da Cultura, que o compraram para que não fosse engolido pelo BAÚ DA FELICIDADE. Durante o Governo interino de CLÁUDIO LEMBO, tendo como Secretário de Cultura o cineasta JOÃO BATISTA DE ANDRADE, foi concedida a CESSÃO DE USO POR 90 ANOS do terreno pertencente à Secretaria da Cultura, à Associação Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, continuadora da Cia de Teatro Oficina Ltda. Esta Associação construiu o 3º Teat(r)o Oficina, arquitetado por LINA BARDI, concluído um ano após a morte do “arquiteto”, no masculino, como LINA gostava de afirmar, pelo arquiteto EDSON ELITO, que desde o fim dos anos 80 já era parceiro de Lina nas obras do “TERREIRO ELETRÔNICO” “TEATRO PÉ NA ESTRADA”, uma RUA, até hoje sem saída, como LINA dizia, “dando para as Catacumbas (leia-se Coliseum) de Silvio Santos”, em direção ao o ANHANGABAÚ através da RUA JAPURÁ, expandindo-se num TEATRO DE ESTÁDIO, como núcleo de um CONJUNTO DE ÁREA VERDE, ABRIGANDO UMA UNIVERSIDADE ANTROPÓFAGA. Além do mais, a ASSOCIAÇÃO TEAT(r)O OFICINA UZYNA UZONA assumiu todo o ACERVO DO OFICINA e deu continuidade á transformacão progressiva do trabalho lá desenvolvido durante 51 anos.

O Oficina foi TOMBADO pelo CONDEPHAT na presidência do geógrafo AZIZ AB SABER que na mesma época tombou a JURÉIA, na SERRA DO MAR, durante a gestão do pianista JOÃO CARLOS MARTINS na SECRETARIA DE CULTURA.

Sempre tivemos mais avanços nos governos interinos. Confiamos contar com esta possibilidade agora também, no GOVERNO DE ALBERTO GOLDMAN, tendo como SECRETÁRIO DA CULTURA, ANDRÉ MATARAZZO. Espero que eles impeçam o GRUPO SS de construir as 3 TORRES DE 720 APARTAMENTOS que aniquilariam de vez o BAIRRO DO BIXIGA.

O Parecer Técnico a favor do Tombamento com um entorno de 300 metros, em 1983, foi fundamentado pelo artista, arquiteto, cenógrafo, figurinista , diretor, FLÁVIO IMPÉRIO. Como um exemplo raro de grandeza trans-humana FLÁVIO ao mesmo tempo no LAUDO TÉCNICO, frisava, tatuava, que o teatro deveria passar por várias transformacões arquitetônicas, pois era tombado exatamente por ter a transformação física do espaço cênico como sua característica maior: uma forma de teatro conforme pedissem os movimentos das encenações das várias fases do trabalho de criação.

O OFICINA tem um Tombamento revolucionário, pois ao mesmo tempo estimulou a construção do novo projeto, assinado inicalmente totalmente por Lina Bardi, já visando a incorporação do Entorno do Teat(r)o Oficina. AZIZ, JOÃO CARLOS E FLÁVIO tomaram uma posição firme diante da ameaça que existia à época do Teat(r)o Oficina ser vendido ao GRUPO SÍLVIO SANTOS. Além das razões estéticas ligadas à concepção de teatro progressiva do Oficina, não se deixando capturar pela forma dominante de “teatro de palco italiano”, esta situação de ameaça de extinção foi decisiva como motivação para o Tombamento. Na época era um SHOPPING, que o GRUPO SS pretendia construir, hoje querem levantar 3 TORRES PARA 720 APARTAMENTOS. Em ambas configurações, estas obras no entorno destruíriam o TEAT(r)O concebido por LINA e depois SEMI TERMINADO, POIS QUE NÃO SE CONSEGUIU ABRIR A RUA, por Edson Elito. Há um janelão enorme que dá para a cidade, com que o público e os atuadores do Teat(r)o contracenam. É como se fosse o famoso VÃO do MASP. Por outro lado LINA plantou uma CEZALPINA que tem suas RAÍZES no jardim do OFICINA, e como na casa dela no MORUMBI, atravessa o Janelão e tem sua enorme COPA sombreando o TERRENO DO GRUPO SS.Há um TETO MÓVEL que dá para os céus de São Paulo, enfim é uma concepção de espaço teatral revolucionária sem igual no mundo, já detentora de prêmios em BIENAIS como as de PRAGA e VENEZA. É um Espaço Arquitetônico-Urbanístico em que se contracena com a cidade e o cosmos. Impedir esta possibilidade é destruir inteiramente esta concepção revolucionária de Teatro voltado para todo Espaço Urbano e tambeem Sideral: como afirma Oswald de Andrade no MANIFESTO ANROPÓFAGO: “Eu no Cosmos, o Cosmos em mim.” Esta é a sensação que os atores e o público sentem quando vivem os grandes textos da história humana que trazem as peças lá encenadas. É uma filosofia teatral que transcende o teatro de costumes, ou meramente social. Incorpora-os, mas vai mais longe.

Os 300 metros do entorno do OFICINA, TOMBADOS em 1983, continuam valendo apesar de por pressão da especulação imobiliária não serem levado em consideracão pelo atual CONDEPHAAT. Basta ler o belíssimo parecer de AZIZ AB’SABER, que prova a justiça destes 300 metros de entorno. Entretanto, depois de MODESTO CARVALHOSA, que continuou a linha de AZIS, o CONDEPHAAT, através dos Governadores que se seguiram, cedeu totalmente à pressão da especulação finaceira, e praticamente passou a desconsiderar a LEI DO ENTORNO. Espero que não aconteça o mesmo neste atual governo interino, e que este tire este Organismo, o CONDEPHAAT, desta situação de impotência. Este é o endereço para encontrar-se no site do OFICINAUZYNAUZONA o belíssimo parecer de AZIZ AB SABER que pode ser equiparado às páginas de EUCLIDES DA CUNHA em “OS SERTÕES”: http://teatroficina.uol.com.br/menus/45/posts/336

O projeto do GRUPO SS em si é um projeto como outro qualquer de um empreendimento comercial, mas o fato é que realizado no entorno do TEAT(r)O OFICINA destrói a concepção fundamental de LINA e torna impossível o funcionamento do que tem de mais forte nesta arquitetura e nas encenacões deste TEAT(r)O. O fato é que sempre lutamos pela afirmação da realização do projeto total de LINA BARDI, um dos maiores “arquitetos” do século XX, que quer o OFICINA como uma RUA, e a expansão do Entorno Tombado com um TEATRO DE ESTÁDIO, UNIVERSIDADE E ÁREA VERDE, cúmplice da revitalização do BAIRRO DO BEXIGA como Ponto Central do encontro dos Guetos de São Paulo que chamo SAMPÃ.

O BIXIGA antes do MINHOCÃO era um CENTRO, um CHACRA da Metrópole, COSMOPOLITA e ao mesmo tempo POPULAR.

Lutamos estes anos todos pela expansão do TEAT(r)O OFICINA numa UZYNA UZONA ativadora do BAIRRO DO BEXIGA .

Estamos plugados, ligados no Bairro e no Mundo, desde o trabalho que fazemos com as crianças do Bairro: O BEXIGÃO, às ligações com a presevação e ampliação da vida dos moradores atuais, nordestinos principalmente, e afro brasileiros, herdeiros de LIBERTAS, a Chica da Silva do Bairro, real propietária da “CHÁCARA DO BIXIGA”, grilada pela especulação, mas presente na grandeza da maior escola de samba de SAMPÃ: a VAI VAI.

Antigamente o GRUPO SS queria construir um SHOPPING, hoje pretende levantar 3 TORRES para 720 APARTAMENTOS , o q expulsaria os moradores mais pobres e acabaria de vez com o destino do Bairro se ser o UMBIGO DE SAMPÃ.

Há oito anos tramita na esfera federal o projeto do TOMBAMENTO DO ENTORNO DO OFICINA PARA A COMPLEMENTAÇÃO DO PROJETO INICIAL DE LINA BARDI. É necessário que o julgamento deste processo aconteça finalmente agora neste fim de Governo LULA, pois nestes anos todos contou com o apoio DE TODOS OS MINISTROS DA CULTURA : MARIA ELISA COSTA e ANTÔNIO AUGUSTO ARANTES no1º GOVERNO, GILBERTO GIL e atualmente o MINISTRO EM GESTÃO, JUCA FERREIRA, e do próprio ATUAL PRESIDENTE DO IPHAN, LUIS FERNANDO ALMEIDA. Mas até então não foi examinada pelos CONSELHEIROS do IPHAN que devem fazê-lo ainda este semestre de ano eleitoral, onde as ações do Governo praticamente não acontecem mais no 2º Semestre. O CONSELHO DEVE enfim discutir o TOMBAMENTO FEDERAL DO OFICINA E SEU ENTORNO.

O GRUPO SS destruiu todo o ENTORNO DO OFICINA, inclusive a 1ª SINAGOGA DE SÃO PAULO e duas VILAS ROMANAS TOMBADAS pelo CONDEPHAAT. Por estar pendente ainda o processo de TOMABAMENTO FEDERAL, e por VALER AINDA O TOMBAMENTO FEITO POR AZIZ AB’SABER, O GRUPO SS não pode por lei iniciar a construção das TORRES, dando início à venda de apartamentos.

Nestes 30 anos de luta tivemos o apoio dos que amam a cultura da vida e o Teat(r)o Oficina. A pressão pública de amantes da vida cultural do BRASIL e do MUNDO fez com que não “resistíssemos”, mas “RE-EXISTÍSSEMOS”, nos renovando. A revolução cultural consequente da montagem de 1967 de “O REI DA VELA” religou a OSWALD DE ANDRADE e à ANTROPOFAGÍA, toda a geração que emergiu em 1967, na TROPICÁLIA. Um movimento popularizado pela música, mas que tocou todos os MÓDULOS DA VIDA CULTURAL DO BRASIL e hoje do MUNDO. Nesta RE-EXISTÊNCIA permanente, criamos praticamente o Projeto do “ANHANGABAÚ DA FELIZ CIDADE”, nome de um SAMBA composto pelo POETA MÚSICO JOSÉ MIGUEL WISNIK, para esta LUTA de 3 DÉCADAS.

Este PROJETO CONSISTE em:

1 – fazer cair a BASTILHA DO BECO SEM SAÍDA DA PISTA DO OFICINA, transformada assim numa verdadeira RUA, escorrendo pelo declive do terreno até o VALE DO ANHANGABAÚ. O nome de REGISTRO DE NASCIMENTO DE LINA é AQUILINA, vidente ela via a queda destes MUROS DO BECO como uma estrada desempedida para a cultura popular antropofágica carnavalesca tecnizada do BRASIL. Esta QUEDA desta BASTILHA foi sempre exigida em cada um de nossos espetáculos de “Óperas de Carnaval da TragyComédiOrgya, de Terreiro Eletrônico”, criados nestes últimos 30 ANOS.

2 – A Construção de um “TEATRO DE ESTÁDIO” para 5.000 pessoas, pois podemos dar, estamos dando aliás, esta Epifania de um Teatro Brazyleiro, que retorna ao momento mais inpirado da Historia do Teatro no Mundo, “A TRAGÉDIA GREGA”, misturando-a com a ORGYA e a COMÉDIA, de onde nasceu o Teatro nos MISTÉRIOS DE ELEUSYS, cuja primeira manifestação nasceu com a saída dos SATYROS dos subterrâneos de ELEUSYS com uma ÁRVORE PHALOS-CARALHO, em Procissão.

OSWALD DE ANDRADE em 1943 publica o seu MANIFESTO do “TEATRO DE ESTÁDIO para a vontade e a emoção do Povo”, no seu texto chamado “DO TEATRO QUE É BOM”, publicado em suas obras completas no volume denominado “PONTA DE LANÇA”. Até domingo passado estávamos em BRASÍLIA, numa estrutura de TEATRO DE ESTÁDIO, instalado na ESPLANADA DOS MINISTÉRIOS tendo como fundo do CAMPO DE FUTEBOL DESTE TEATO a PRAÇA DOS TRÊS PODERES, realizando – “AS DIONIZÍACAS”, a encenação de 4 peças de Teatro de Estadio para um público de 1600 pessoas diariamente: TANIKO, Nô Bossa Nova TransZENico de ZEN SHIKU, texto do teatro japonês da Cia. de ZEAME, o fundador do TEATRO NÔ, o SHAKESPEARE do Japão; ESTRELA BRAZYLEIRA A VAGAR CACILDA !!, em torno da iniciação da carreira teatral da Atriz das Atrizes, CACILDA BECKER, no Rio de Janeiro, BACANTES, transcriação do rito de origem do Teatro, captado por EURÍPEDES e O BANQUETE, transcriação da obra de SÓCRATES, posta em verbo por PLATÃO e transformada pelo OFICINAUZYNAUZONA num PRATÃO de PRAZER.

3 – A Construção do Espaço da UNIVERSIDADE ANTROPÓFAGA, já praticada na formacão de atuação de nossa Companhia, constituída atualmente por 60 ATUADORES, na atuação teatral, musical da BANDA AO VIVO e AO ELETRÔNICO, do corpo de CYBER ATUADORES, nos PEDAGOGOS E ARTISTAS do BIXIGÃO, nos TÉCNICOS, “BÁRBAROS TECNIZADOS” como videnciava OSWALD. A formação vem através de mergulhos em obras intensas da dramaturgia mundial e brazyleira de todos os tempos. Esta UNIVERSIDADE tem como estatuto o MANIFESTO ANTROPÓFAGO de Oswald de Andrade de 1928. Nela vamos estudar a Arte da Atuação nas Zonas Fronteiriças na Sociedade Atual, o “PROIBIDO”. Vamos diretamente aos TABUS para transmutá-los em TOTENS. A UNIVERSIDADE destina-se não somente à formação de atuação para o TEAT(r)O, mas para todos os pontos sociais estrangulados por TABUS. Diplomatas com a Sabedoria para NEGOCIAR DEMOCRATICAMENTE as faixas onde as Guerras de todo tipo podem explodir e trazer a compreensão da BIODIVERSIDADE DO MUNDO CULTURAL DE HOJE PÓS DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMERICANO. Hoje o PLANETA, em plena Transformacão mas ainda preso a velhos TABUS PATRIARCAIS, MONOTEÍSTAS, a vários ISMOS, enriquece a INDÚSTRIA ARMAMENTISTA e mantém o mundo refém de um sistema produtor de Guerras, Terrorismo, e Miséria Física e Espiritual. Mas esta UNIVERSIDADE dança com a velocidade que a INTERNET traz ao GLOBO na TRANSVALORIZAÇÃO DE TODOS OS VALORES, COMO PREVIA NIETZSCHE.

4 – OFICINA DE FLORESTAS – quando CAETANO VELOSO foi assistir “NA SELVA DAS CIDADES” comoveu-se com uma cena criada por LINA BARDI : arquiteto cênico do território do espetáculo da peça do jovem Brecht. LINA fez com que os MAQUINISTAS trouxessem árvores abatidas para a construção do MINHOCÃO para um RINGUE DE BOXE, onde eram erguidas num cabo de aço para uma cena chamada “ÁREA VERDE”, e finda a cena, as árvores desmoronavam no centro do Teatro, contornadas pelo público que assitia a cena pasmo. Esta comoção está presente em SAMPA quando CAETANO refere-se ao trabalho do OFICINA na Metrópole como o de OFICINA DE FLORESTAS. Assumimos este nome poético (segundo AZIZ AB SABER SamPã não tem Florestas, mas sim, Bosquetes) para a Expansão e Irradiação Urbana de todos os verdes, FOLHAS, FRUTOS, HERVAS, HORTAS, FLORES, para uma SELVA DAS CIDADES iniciada, propagada como PESTE e no BIXIGA todo.

5 – CONSTRUÇÃO DE UM CONJUNTO ARTQUITETÔNICO URBANISTA INSPIRADO NAS MAQUETES DE LINA BO BARDI E EDSON ELITO, ATUALIZADAS NO PROCESSO DE PERMANENTE RE-EXISTÊNCIA DO OFICINA-UZYNA-UZONA PARA ABRIGAR TODO ESTE PROGRAMA. OS ARQUITETOS JOÃO BATISTA MARTINEZ CORRÊA E BEATRIZ PIMENTA FIZERAM BROTAR ESTE PROJETO DA PROPIA LUTA DE 30 ANOS. Quando foi contratado o arquiteto MARCELO FERRAZ pelo GRUPO SS para fazer as OBRAS do SHOPPING incluindo este CONJUNTO ARQUITETÔNICO, este arquiteto pediu a mim que escrevesse um PROGRAMA. Escrevi, mas o que nos foi apresentado não tinha nada a ver com nossas propostas amadurecidas nestes 30 anos de Guerra. Pedi então ao meu irmão JOÃO, nascido como LUIS ANTONIO no dia 24 de JUNHO, dia de SÃO JOÃO, ANO NOVO NO HEMISFÉRIO SUL, FESTA DO SOL DOS ÍNDIOS QUE HABITAM TODA AMÉRICA DO SUL, INCLUSIVE O BRASIL, QUE FIZESSE COM BEATRIZ, MINHA SOBRINHA, UM PROJETO INSPIRADO REALMENTE NO PROGRAMA QUE EU ELABOREI, PARA UMA PUBLICAÇÃO BILÍNGUE.

A MONTAGEM DAS 27 HORAS DE “OS SERTÕES” INSPIROU A REDAÇÃO DO PROGRAMA. LINA SONHAVA SEMPRE COM QUE MONTÁSSEMOS JUNTOS ESTE GRANDE LIVRO BRASILEIRO, POIS ELA VIDENCIAVA A RELAÇÃO DE NOSSA GUERRA DE MUITAS DÉCADAS COM A DE CANUDOS.

EU VIA A CONFIGURAÇÃO DESTE ESPAÇO COMO A PRÓPRIA CANUDOS SUBMERSA.

EUCLIDES DA CUNHA DEIXOU TOMBADA A PAISAGEM ANTERIOR AO SEU COBRIMENTO PELO DILÚVIO DA REPRESA DE COCOROBÓ.

NA DESCRIÇÃO DA PAISAGEM DA 2º COLUNA DA 4ª EXPEDIÇÃO DESCREVEU MANIACAMENTE TODA A CONFIGURAÇÃO FÍSICA DO TERRENO.

ENVIEI ESTE TRECHO DE “OS SERTÕES” PARA JOÃO BATISTA E BEATRIZ JUNTAMENTE COM TODOS OS 1ºs TRAÇOS DE LINA E MARCELO SUSUKI, FEITOS E APRESENTADOS PUBLICAMENTE NO DIA 24 de AGOSTO DE 1980, TODOS OS OUTROS PROJETOS MAQUETADOS POR LINA E POR EDSON ELITO. OS ARQUITETOS CHEGARAM À CRIAÇÃO DESTE ESPAÇO QUE PODE SER VISTO NO SITE DO OFICINA NESTE ENDEREÇO: http://blog.teatroficina.com.br/?cat=112, juntamente com a 1ª MAQUETE de LINA BARDI E MARCELO SUSUKI, ASSIM COMO O PROJETO DO ARQUITETO FRANCÊS JEREMY GALVAN, TRABALHANDO ATUALMENTE COM JOÃO BATISTA E BEATRIZ.

AS IMAGENS SÃO ANTECEDIDAS COM UMA NOTÍCIA DO ADIAMENTO DE UMA REUNIÃO DO CONSELHO DO IPHAN PARA TRATAR DO TOMBAMENTO DO ENTORNO DO TEAT(R)O OFICINA.

ESTA REUNIÃO FOI ADIADA PARA DIA 24 de JUNHO DE 2010 -No Fio da Navalha do Tempo.

A ASSOCIAÇÃO TEATRO OFICINA UZYNA UZONA REQUER TOMBAMENTO QUALIFICADO COMO FICOU CONCEITUADO DESDE GILBERTO GIL MINISTRO, PARA A COMPLEMENTAÇÃO INTEGRAL DO PROJETO DE LINA BARDI, RE-EXISTIDO, RECRIADO PELA HISTÓRICA LUTA DOS 30 ANOS APOIADA ARDOROSAMENTE PELO POVO-PÚBLICO BRASILEIRO E INTERNACIONAL DO OFICINA UZYNA UZONA.

ESTAMOS NESTE PONTO DA “PAIXÃO E DO TORMENTO : PRÓXIMOS A UMA PAZ POSSÍVEL E PRODUTIVA PARA TODOS.

NÃO CONSEGUIMOS ESPERAR QUIETOS. QUE FAZER?

SAMPÃ, PASSAGEM DO DIA 3 CORPUS CRISTI PARA O DIA 4 DE JUNHO DE 2010

OURO

Iphan adia tombamento do Oficina

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Há oito anos no Instituto de Patrimônio Histórico Nacional, o processo de tombamento do Teatro Oficina sofreu mais um adiamento nesse mês de abril e a reunião que precederá a votação dos conselheiros daquele órgão ficou para o mês de maio.

Prestes a ser votado pelo conselho, o processo foi acrescido no início de 2010 de 4 pareceres favoráveis redigidos por artistas e cientistas, dentre os quais estão o músico e professor de literatura Zé Miguel Wisnik, o arquiteto Marcelo Suzuki e o geógrafo Aziz Ab’Saber. Esses pareceres formam um panorama histórico do bairro do Bexiga e da situação atual do Oficina e seu entorno.

“Estará se promovendo uma possibilidade dos moradores novos aceitarem de bom grado o convívio com velhos moradores e suas atividades. Estará se promovendo mais e mais a atenção do público para o que ocorre lá – levar gente para conhecer e respeitar esse enclave urbano, participar das atividades e da cultura do Bixiga, aumentar a permeabilidade daquilo que quase transformaram compulsoriamente em gueto.” _parecer de Marcelo Suzuki na íntegra

“Não é à toa que o olhar penetrante de Lina quis desde há muito furar a parede do fundo do edifício e abrir passagem, como figura real de uma afirmação inequívoca da arte, da vida e das potencialidades humanas represadas.” _parecer de Zé Miguel Wisnik na íntegra

“Por estas razões e muitas outras, entre o projeto do “teatro estádio” de elaboração bem planejada e socialmente útil preferimos indicar essa idéia como muito superior às pretensões do grupo Silvio Santos, que se baseia exclusivamente no neocapitalismo que vem arruinando a funcionalidade de uma cidade que atingiu os seus 456 anos de vida com originalidades vitalizadoras. Ambas as pretensões envolvem grupos muito ricos ao lado de grupos muito pobres e voluntários. É certo porém que o projeto do Teatro Oficina representa um dos poucos e mais aprazíveis projetos de revitalização da zona periurbana sul do centro histórico de São Paulo.” _parecer de Aziz Ab’Saber na íntegra

“O Teatro Oficina é mais que um lugar, é uma localização: é uma passagem no fio da história, vivendo intensamente o presente e projetando o passado para o futuro. Este terreiro, fincado no Bexiga, cobiçado pelo capital vídeo-financeiro incorpora não só a história do teatro brasileiro, mas a história do Brasil e das entidades que ali se manifestaram.” _parecer de Vera Malaguti e Nilo Batista na íntegra



Maquete a partir do projeto original de Lina Bardi com o fundo do Oficina aberto para o Teatro Estádio nas “Catacumbas do Baú da Felicidade”

Na última reunião realizada no Iphan em Brasília, contando com a participação do ministro da cultura Juca Ferreira, tratou-se das definições do tombamento mas não se chegou ainda a um acordo. Isso porque o Oficina deseja que seja tombado também seu entorno, onde estão localizados os terrenos vazios explorados há 3 décadas pelo grupo financeirista Silvio Santos. Desta forma o tombamento em nível federal qualificaria o entorno para a complementação do projeto de Lina Bardi, do qual o atual Oficina é apenas parte, com a construção do Teatro de Estádio, teatro ao ar livre com espaço para público de mais de 2000 pessoas. No entanto a tendência do Iphan, expressa por seu presidente Fernando Almeida, é realizar um tombamento restrito ao edifício. O tombamento estadual, de 1980, até hoje pouco compreendido pois tombou uma obra ainda em progresso, tem entre os pareceres técnicos um de autoria do arquiteto Flávio Império que reivindica assumidamente o não congelamento da obra. Foi um tombamento revolucionário à altura do qual espera-se seja realizado o federal.

O Oficina, ao longo de mais de três décadas de luta por um destino de sua área e entorno dedicado à cultura, desde quando o grupo SS pretendeu comprá-lo e demolí-lo, foi tombado pelo Conpresp e pelo Condephaat, os órgãos de patrimônio do município e do estado de São Paulo, movimento impulsionado também por toda a classe artística que resultou na desapropriação da sede na Rua Jaceguai.

O tombamento federal manteria o teatro sob a proteção do estado nos três níveis do poder público, no entanto apenas esse fato não é garantia de não agressão à obra de Lina Bardi, premiada internacionalmente. No final de 1999 os órgãos de patrimônio da prefeitura e do estado de São Paulo aprovaram o projeto de um shopping center que entumularia o edifício aberto à cidade onde hoje o grupo Oficina realiza diariamente ensaios e espetáculos, desconsiderando a proteção dos 300 metros de entorno definidos pelo tombamento do início da década de 80. Por isso o Oficina luta para que o tombamento na esfera federal não limite-se ao edifício, protegendo-o estritamente dentro das regras definidas por esse instrumento, mas considere também a qualificação do entorno para a realização do Anhangabaú da Feliz Cidade.


Teatro Estádio no atual projeto de João Batista Martinez Correa e Beatriz Correa

Atualmente existem dois projetos complementares ao de Lina Bardi, que além do Teatro de Estádio incorporam também a universidade Antropófaga, escola popular de ciências, artes e ofícios para estudar toda a matéria normalmente tratada como tabu nas instituições regulares de ensino; a Ágora do Bexiga, localizada nos baixos do Minhocão resignificando-o com a existência de um local público de encontro do povo desse tradicional umbigo cultural da cidade hoje desertificado pela especulação financeira e imobiliária, e a Oficina de Florestas, bosquetes plantados nos entremeios de todo o projeto.


Panorama do Anhangabaú da Felicidade no projeto de JB e Beatriz Correa



Sugestão de implantação do Teatro Estádio e Universidade Antropófaga no projeto do arquiteto Jeremy Galván



Anistia para Zé Celso seguida do Banquete – 7 de abril – 14:00h

domingo, 28 de março de 2010

José Celso Martinez Corrêa, 73 Anos completados em 30 de março, receberá o Perdão do Estado Brasileiro em Sessão Especial de Anistia Política no Teatro Oficina.

clique pra ampliar:

JUSTIÇA DE XANGÔ – RAIA JÁ !

No dia 7 de abril de 2010 a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça do Brasil anistiará o ex-perseguido político José Celso Martinez Corrêa, diretor artístico e presidente da Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona.

A seguir à solenidade haverá sessão especial, gratuita, de O Banquete, de Platão.

SERVIÇOS
35a Caravana da Anistia
Sessão Especial de Requerimento de Anistia Política de José Celso Martinez Corrêa
07/04/2010 – 4a feira -14h
Teatro Oficina > rua Jaceguai, 520 Bixiga São Paulo Info > 11. 3104.0678
Entrada gratuita, retirada de ingresso no local a partir de 11h

Ministro Vannuchi na Casa da Cidade

quinta-feira, 11 de março de 2010

A apresentação do 3º Plano Nacional dos Direitos Humanos pelo ministro Paulo Vannuchi na Casa da Cidade, transmitido ao vivo pela internet no dia 22 de fevereiro, está no Youtube. Todos os videos podem ser acessados no canal da Viatv.

Notícia de hoje na Folha de São Paulo

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

ss_nao_vem

Portal de Antropofagia no Ar

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A partir da obra de Oswald de Andrade, antropofagiada por Beatriz Azevedo e por diversos artistas e intelectuais que pelo mundo todo estudam e praticam a fiosofia do autor brasileiro, o portal de Antropofagia, no ar em sua versão atual desde 11 de janeiro quando Oswald completou 120 anos, reúne material acerca do 1º Encontro Internacional de Antropofagia, realizado no Sesc em dezembro de 2005 com direção geral de José Celso Martinez Correa, e material vasto sobre o assunto, desde teses à matérias de jornal, fotos e vídeos.

O portal pretende ser também um ponto de união, um tótem para que circulem em volta todos aqueles interessados na antropofagia cultural e praticantes desta arte.