27 de março de 2009
Dia do Circo
Dia mundial do Teatro
Dia do nascimento de Lúcio Costa

Sylvia Prado e Ricardo Costa preparam o figurino do Satyro Rodrigo Andreolli

Sylvia Prado ajeita o manto de Zeus (Hector Othon)
Partiu o Carronaval de Dionisios para a primeira viagem do ano, vindo realizar o rito do início do Teatro, As Bacantes, de Eurípedes, em Araraquara, nas grandes edificações do Sesc dessa cidade, projetado por Edson Elito. Sobre Lúcio Costa é informação de Catherine Hirsch, que com Zé Celso e Marcelo Drummond transformou As Bacantes, a tragédia, em Bacantes, a Tragycomediorgya. Ela acompanha o Carronaval e traz de literatura para a estrada alguns jornais. Dentre eles o Território Livre, jornal estudantil trotskista que em sua edição atual publica texto sobre Oswald de Andrade e o Oficina. Traz também a última edição da Causa Operária, com entrevista de Pedro Stedile.
É a última leva do Tyaso OficinaUzynaUzona essa que saiu de São Paulo, de ônibus, para encontrar a equipe de iluminadores, cenógrafos, técnicos de som e de video, que prepara há dois dias a montagem em Araraquara. O primeiro destino é o Gran Hotel Morada do Sol. Depois do tempo de um breve descanso segue-se para as instalações do Sesc.
No ônibus está Camila Mota, atriz, assistente de direção, com seu joelho direito inflamado do ensaio da noite anterior. À noite, no primeiro e último ensaio na pista armada no Sesc, ela vai permanecer na banda, de perna pro alto, cantando. No dia seguinte, se não der jeito, pretende tomar uma injeção de cortizona bloqueando a defesa do corpo. Recurso último de todos atores para também outros males, como a falta de voz, a cortizona é o atentado final ao corpo para obtê-lo inteiro de volta.
Depois de mais de uma hora de atraso, chega Pascoal da Conceição, o governador tebano Cadmos, pai de Agave e avô de Penteu, que estava preso na avenida 23 de Maio por conta de mais uma vítima fatal do trânsito paulista que esperava pelo IML. Pergunta se estão todos pensando em seu lanche para depois do ensaio, como mandara a produtora Ana Rúbia em email no dia anterior. “Se eu que sou governador recebi esse tratamento, imagina o povo.” Não haveria essa dificuldade. Mais tarde o grupo saberia que a cantina do Sesc estaria aberta até às 21:00hs servindo janta. O ensaio corrido estava marcado para inciar-se às 10 da noite.
A viagem, tranquila, leva em torno de cinco horas. O desembarque no Grand Hotel sem estardalhaço distribui os viajantes pelos quartos para o breve descanso e depois as vans levam o grupo para o Sesc aonde ainda é possível jantar. É preciso esperar o término de um show que está rolando próximo à pista das Bacantes para poder ocupá-la. A montagem de cenário, luz, video e som está acabando, momentos antes da hora marcada para o início do ensaio. Às 21:30hs começa o movimento dos camarins. A preparação dos atores recém-chegados leva muito mais tempo do que a suposta uma hora. O ensaio começou a correr a 0:30 hs, já no dia da estréia. E levou 8 horas. A peça está com 5. Não foi um ensaio corrido, mas também não tão parado, o otimismo de Camila contava menos de dois pra um o coeficiente do tempo de ensaio para o temp de rito. Há muito tempo os ensaios corridos no Oficina tem intervenções, não apenas do diretor, mas daquele que julgar necessário interromper. Em um ensaio em que as engrenagens estão recém-colocadas na máquina a quantidade de intervenções aumenta, e nesse específico, além dessas circunstâncias, o diretor, sempre caprichoso, tornou-se ainda mais à medida em que avançavam as horas a despeito do movimento contrário de técnicos e atores que pretendiam passar por cima da grande quantidade de erros cometidos naturalmente pela falta de tempo para preparo.

A pista armada na área de convivência do enorme Sesc Araraquara
Normalmente um espetáculo do porte de Bacantes, com equipe de aproximadamente 50 pessoas, realizado em um local desconhecido até as visitas técnicas para definir as demandas da máquina a ser montada, teria de ser ensaiado de duas maneiras, em dois dias diferentes, um para o ensaio técnico, em que luz, video, som e a movimentação dos corpos em cena se encaixam, e outro para o corrido. De modo ideal ainda haveria um dia de descanso antes da estréia. Aqui o que há é apenas um ensaio e a estréia na sequência.
- Diretora de cena Elisete Jeremias

Marcelo Drummond (Dionisios) e Pascoal da Conceição (Kadmos) alongam-se
Às seis e meia, enquanto o diretor ensaiava Agave, Cellia Nascimento, na última cena, procurando por fim à interpretação por vezes abstrata da atriz cantora, o mau humor se generalizara. Depois esse ensaio revelar-se-ía de impacto profundo na atuação da atriz, que faz um dos mais difíceis papéis e pôde ser pouco ensaiada em São Paulo. Assim, quase de manhã, o diretor pedia a Cellia que não depositasse a cabeça de Penteu no lugar dos pés, quando a mãe tenta recompor o corpo do filho estraçalhado em saco preto de IML.
Surgiram reações exageradas de cansaço, que “podem até trazer alguma satisfação no momento mas depois tornam-se só arrependimento” como observou Letícia Coura, coriféia da voz. O fato é que o cansaço no teatro é apenas mais uma barreira a transpôr, normalmente não a mais difícil mas sim mais gratificante. Esses momentos de estilhaço do cansaço nos ensaios são nascedouros de cenas belíssimas e às vezes são o único perídodo frutífero de um ensaio, em que por exemplo, houve muita dispersão.
Amanheceu. O sol nasceu em sua morada e visitou o edifício do Sesc enquanto Penteu virava Apolo e se juntava a Pan e Dionisios no Olimpo, Cosme, Damião e Doum. Semele, Anna Guilhermina retorna de seu túmulo trazendo o cordão umbilical dourado religando o coro. Antes ainda chegaram os primeiros dos inúmeros funcionários da casa, para o sábado de trabalho. Alguns do tyaso temiam jocosamente a perda do belíssimo café da manhã do hotel. O diretor encerra. “Amanhã ensaiamos o agradecimento”. As vans esperavam pelo grupo no estacionamento para o sábado de descanso, e estréia.














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