Arquivo de maio de 2011

C H E G A! Pra dizer, ver e ouvir

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Sem rodeios, indo direto ao assunto: atualmente Ze Celso Martinez Correa é o artista mais importante e significativo para as Artes Cênicas Brazyleiras. Ele está no ápice.

Está no topo da escala qualquer que mede as contribuições de um cidadão, de um criador para o desenvolvimento de seu país. São 53 anos de vida imersa na Arte. Pensando, buscando, errando, aprimorando, fazendo movimentos que a olhos leigos parecem “repetições”. As repetições de um velho. E no entanto esses pequenos andares circulares (da roda sagrada) acontecem às vezes trazendo transformações imperceptíveis, às vezes subindo em estrondosa espiral.

Esse mesmo criador que segue com idéias e obras cada vez mais geniais, capazes de transformar a sociedade,  não consegue ser ouvido por outros que também estão no topo. Não consegue chegar na Chefe da Política Brazyleira para expor seu pensamento e seu Ardor, que fazem toda a diferença em meio aos acontecimentos gerais.

É algo chocante esse descaso por alguém do mais notório saber, do mais fino talento.

Vivemos no país do “pessoal”. Se se tem relações, tem aquele “com quem falar”, consegue se avançar, mesmo que a passos curtos e titubeantes, ao sabor dos humores pessoais, rumo à realização.

Se não tem, estanca no 4º Escalão Emperrado do Império. Ali, ao rés da tal escala de valores qualquer, onde estão (infelizmente) os Autômatos da Burocrácia, ergue-se uma parede de Aço, uma barreira de Fogo. Se não insistir muito (e às vezes mesmo assim) elas são intransponíveis. É um exercício para poucos bem dotados.

É o que acontece , num implacável moto continuum da área artística: sem aquela mão paciente e solidária que te leva até o gabinete central, o ocupante desse mesmo gabinete nem sequer toma conhecimento de sua questão. O filtro acontece antes e vai-se saber por quais critérios.

Ao menos é o que aparenta na situação vivida ontem,  23 de maio de 2011, quando 15 minutos depois de um telefonema para checar o recebimento de um email (sim, ele chegou e seria impresso e entregue ao assessor pessoal para despachar com a presidenta e enviar uma resposta), o Assessor do Assessor responde de forma absolutamente mecânica: o assunto foi encaminhado  ao órgão cabível para atender a Cultura, o Minc. A impressão que fica é que sequer foi lido, pois logo no cabeçalho estava dito que a mesma mensagem havia sido enviada à Ministra, não precisava enviar de novo! Pra que encaminhar um assunto que já estava lá?

O mais impressionante foi a agilidade: em 15 minutos o email foi impresso, um mensageiro (tipo aquele da Maratona Grega) atravessou corredores extensos com ele em punho, adentrou ao gabinete da Presidenta, que largou o que estava fazendo, leu-o expressamente e por fim despachou: encaminhem para o Minc. Querem nos fazer crer q isso aconteceu? (Dramaturgicamente tratamos o assunto como, um Épico?  Ou uma tragicomédia?).

Vivemos no país das aparências. Parece que valorizamos isso (o bom e o belo), parece que combatemos aquilo (o feio e o mal). Dicotomias e maniqueísmos para lá, o mundo e sua consciência jovem de radical transformação pelos novos acessos à produção de Informação, de Arte, de Cultura, de Ciência e Invenção, me leva a engrossar o Coro dos que dizem:

C H E G A

Pacificamente digo Chega.

Chega de pequenos e mesquinhos pensamentos

Chega de movimentos de marionetes capengas

De ter de mexer os pauzinhos pra balançar os bracinhos

Chega de escutar sem ouvir

Chega de ver sem enxergar

Chega de falar sem dizer

Falta estética

Falta conteúdo de vida pulsante

Falta tesão de serestarfazer

É no mínimo destoante e anti natural esse descaso por criadores de valor nacional.

Em mais de 20 Anos na Produção da Arte do Brasil, e hoje trabalhando com Zé Celso, a melhor cabeça-coração-alma das Artes Cênicas em ação, tenho praticamente que implorar para ter um projeto atendido.Vale mais o sistema de convencimento do Valor Daquilo do que o Valor Daquilo em si próprio, na sua essência.

O movimento deveria ser inverso.

As autoridades brasileiras deveriam vir até Zé Celso e fazer-lhe Oferendas.

Aquela velha e desgastada máxima plantada na Ditadura, de que o Brasil é um país de jovens, equivocadamente formou uma consciência pueril, infantilizada, rasa.

Toda Cultura parte, em seu princípio universal, do abstrato para o pálpavel. E todas, sem exceção, têm um tênue fio que as liga a ancestralidade. Em qualquer local onde se reúnam seres humanos,  em tribos, clãs, cidades, campos, templos, comunidades e etc, ao menos um ponto é comum: a Sabedoria dos Mais Velhos é que governa. A palavra de alguém que tem a Sabedoria do Tempo (ao mínimo) precisa ser ouvida, sob o risco de fazer sucumbir todo um grupamento humano.

No Candomblé, no Budismo, no Judaísmo, no Islamismo, no Hinduísmo, entre os Celtas, Japoneses, Chineses, Aborígenes da Nova Zelândia, Esquimós, Europeus: Aquele que vive tanto e com tanta obra realizada é quem mais sabe e no atual momento de sua trajetória está com Poder e Clareza para indicar rumos, dispor de instrumentos que podem melhorar a vida de quem vem depois dele.

Esse ancestral conhecimento sequer é cogitado pela sociedade brasileira e seus governantes. Ser Velho aqui é TABU.

E por ser TABU é mais fácil e cômodo taxa-lo de louco, de delirante, de senil, do que ouvi-lo, ve-lo e deixa-lo dizer.

Só os que sonham e se apaixonam pela Vida tem o Phoder Humano de transforma-la. Uma phala dessa assusta a parda burocrácia dos infindáveis trâmites. Que nos diz que temos de resumir o currículo de uma companhia de Arte  com 53 Anos de criação em 2 páginas (tamanho máximo permitido) para poder “caber” num Edital de Montagem de Peça Inédita.

Quero dizer C H  E G A para isso.

Chega para esse eterno movimento que não sai do lugar, enroscado numa teia estratificante ao invés de irradiante como é a web  de nossos tempos.

O Brasil precisa agradecer e Bater Cabeça para seus grandes criadores.

Zé Celso está topo dessa lista e deve ser o 1º a ser permanentemente incentivado, adotado, financiado, enaltecido pela Política Cultura. E depois de abrir as portas e mentes, outros Grandes Criadores espalhados pelo País de Dentro devem também ser reconhecidos e contemplados pela suas importâncias e influências capitais na sociedade, também agentes de transformação de Vidas de cada um e de muitos.

Sou testemuha.

Sou ouvinte de depoimentos. Dezenas, centenas deles, sobre a Real transformação que a Obra de Arte do Te-Ato, filosofia e técnica criadas por Ze Celso e pela Cia Oficina Uzyna Uzona, provoca em cada indíviduo.

E lá no alto, nessa altura do jogo da Arte, as autoridades não o ouvem.

De novo o ranço da Ditadura, que desperta o medo de que ele fale sem pudor, de que mostre seu corpo sem pudor. Ou mesmo de que se exponha e exiba o Ser Humano na sua Natureza.

Chega de tanta fraqueza

É inevitável que com as respostas que ouço diariamente, vindas dos vários escalões das várias esferas do poder público brazyleiro, eu tenha de fazer coro aos espanhóis e também me afirmar:

Indignada!

Pacificamente indignada com

O descaso

O abandono

A ausência de plano

A perda do tesão

O vazio sem sonhos

A imobilidade

A passividade diante da vibração incessante

O automatismo

A não informação

Abram seus sentidos e percebam que somos nós aqui e agora que fazemos a História

Com nossos atos e atitudes, nossos movimentos e concretudes.

Hoje, ouvir sobre um plano, um projeto, um sonho é um privilégio de poucos.

Lula soube faze-lo ao ouvir Miguel Nicolelis contar seus experimentos e afirmar que é possível realizar o sonho (penso que Nicolelis deve ter feito um tour de force para chegar ao presidente).

Lula ouviu porque é um antropófago, que se interessa pelo que é dos outros. Ele instintivamente se alimenta devorando o que melhor se apresenta. É capturando, engordando, cozinhando, picando, temperando que ele nos preparou novas comidas enquanto era o Chefe das tribos e as ofereceu como Biscoito Fino para serem por todos devoradas.

Esse espírito é inato ao brasileiro. É complicado o raciocinio antropófago? Talvez para os burocratas lineares ainda parados em Aristóteles. Mas já é mais fácil para os constelacionais navegantes do mundo irreversivelmente globalizado. Comermos e sermos comidos é o que acontece  todo tempo com quem está em comunicação e conexão.

Zé Celso, comendo Oswald de Andrade, teve a Sabedoria de sacar qual é a movida e também a generosiade de dividir. Por isso tanta insistência no Teatro de Estádio, na Universidade Antropófaga, na Oficina de Florestas, que para ouvidos moucos parece uma boba repetição.

Nesse conjunto está o legado de um gênio (quer ele goste ou não do termo). E o mais importante: num momento em que ele está Vivo e Vitalizado, Vivíssimo para mostrar como seguir adiante, para ensinar como criar os instrumentos. É um momento crucial que não pode ser desperdiçado, porque se isso acontecer quem tem o Poder de impulsionar a genialidade brasileira vai dar um atestado de ignorância e estupidez.

Hoje há uma real possibilidade de transformar o Presente, de fazer a Virada, que assim se apresenta:

De um lado o grupo Silvio Santos quer se desfazer (finalmente e depois de quebrado pelo capitalismo exarcebado) do terreno que cosmicamente pertence à Arte e compõe o cenário do Oficina. De outro lado a Prefeitura de SP (à primeira vista tida como o elemento mais fraco da tríade pública formada ainda pelo estado e união) tem a moeda forte: outros terrenos na cidade para serem trocados por construções de creches. De outro lado temos o bairro do Bixiga na Periferia do Centro de SP, que está sedento por equipamentos públicos, pela creche que foi anunciada como Objeto de Desejo do projeto do prefeito. De outro lado tem a Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona para completar a Obra de Lina Bardi, para formar novas cabeças com novas fórmulas, comento do Te-Ato criado por Ze Celso. De outro lado tem o movimento artístico paulista, que para o Oficina se volta querendo aprender sobre tudo isso, querendo seguir esses passos rebolantes, como antes já comeram Meyerhold, Stanislavski, Grotowiski, Piscator  tantos outros gênios das Artes. De outro lado há o público, que descobre a Vida além da telinha da TV, com o poder entrar sem ter de pagar um terço de seu salário num ingresso. Um público de uma vitalidade impressionante. De outro lado há os comerciantes, prestadores de serviços, artesãos que vagam por essa periferia, em sub condições de informalidade e perdendo a concorrência implacável das megas corporações. Ali todos podem se profissionalizar, virar cidadãos.

São tantos lados que de fato na geometria não podemos tratar de figuras pontiagudas que se encontram nos cantos, mas sim de algo mais elementar: o círculo, a roda que traz em si concentrada a energia cósmica. E redondo são os estádios. E na roda giramos todos, cada um passando pelo lugar antes ocupado pelo outro.

É disso que Zé eu e todos que dizem C H E G A

Querem falar, ser ouvidos e vistos

Tem alguém aí do outro lado pra contracenar nesse Ato?

Sampã, 24 de Maio de 2011

Ana Rúbia de Melo

Produtora, fazedora de sonhos, realizadora e “lust for life” (com tesão pela vida)

ARDOR

AMOR

Na FELICIDADE GUERREIRA

Sobre o TBC, na FSP

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Esclarecimentos sobre o encontro com Ana de Holanda e a repercussão na mídia

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Depois do encontro dos artistas com a Ministra da Cultura Ana de Holanda, na Assembleia Legislativa de São Paulo, na terça-feira, dia 11 de maio, alguns sites, colunas sociais e outros meios divulgaram – nem sempre com precisão e clareza – o que havia sido dito pelo diretor do Teatro Oficina José Celso, pela ministra e por outros participantes do encontro, ao longo da conversa pública.

Para esclarecer o que aconteceu estamos publicando aqui os textos que saíram na imprensa, reações a eles, e as réplicas dos artistas do Oficina Uzyna Uzona aos equívocos cometidos pelos jornalistas.


Fotos de Alessandro Leivas

No dia da reunião, Renato Rovai publicou um resumo do acontecimento, em seu blog.

No mesmo dia 10 o portal Terra divulgou notícia que entitulou Zé Celso Martinez bate boca com Ana de Hollanda em SP, para a qual Zé escreveu a seguinte resposta:

ió! Portal Terra

Vocês abriram uma manchete dizendo que houve um “bate boca” entre Ana de Hollanda a
Ministra da Cultura e minha pessoa Zé Celso

Não foi bem isso

Torço para que Ana de quem gosto muito
artista que conheço há muito tempo
não perca tempo justificando-se
ou mostrando serviço
mas que junte-se a nós do Movimento Cultural de hoje,
como sugeriu Ney Piacentini
na luta pelo descongencionamento do Corte Cruel
sofrido pelo jovem Ministério da Cultura
numa ida ao Ministro da Fazenda Guido Mantega

Este é o ponto Tabú da questão.

Um Ministro da Cultura
com o histórico de vida cultural de Ana,
tem cacife para não se submeter às Razões de Estado
e lutar lado a lado com o apoio do Movimento Cultural
para que neste 2011 tão decisivo para o Brasil
não se abortem os frutos culturais que irão dinamizar o próprio Governo Dilma.

Nunca vi como ontem (10/05) na Câmara dos Deputados de São Paulo
e anteontem na noite da exposição do exitoso progama de Renato Borghi e Elcio Seixas:
“Embaixada Cultural do Teatro Brasileiro” no Teatro do Sesi, auditórios tão
entusiasmados, sedentos e potentes de uma produção cultural que se tiver os meios, irá
surprender e acordar o país.

Esta oportunidade não pode ser perdida.

O Ministro Thomas Bastos no Governo Lula recusou-se a aceitar os cortes propostos pelo
Governo, alegando que o Ministério da Justiça assim, não poderia funcionar,

Tenho certeza que nossa Presidenta Dilma vai concordar.

Lula legou a Dilma um Ministério da Cultura engatilhado para uma PRIMAVERA CULTURAL

José Celso Martinez Corrêa

Com todo entusiasmo vindo da energia rebelde e criadora que estes dois dias revelaram diante da presença de Ana de Hollanda.

Ancelmo Gois publicou nota em seu blog, interpretando equivocadamente a atitude do diretor da Uzyna Uzona como carga sobre a ministra:

“Pessoal do Juca…

A leitura que se faz em Brasília é que o diretor José Celso Martinez Corrêa, um dos que fazem carga contra Ana de Hollanda, é muito próximo do ex-ministro Juca Ferreira, também visto no Planalto como integrante da campanha contra a ministra.

Apoio…

O MinC, na gestão anterior, teria desembolsado uns R$ 12 milhões para apoiar projetos teatrais do consagrado diretor.

A essa nota a atriz e estrategista do Oficina, Camila Mota, responde:

“A Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona não faz parte de um grupo conspiratório para derrubar a Ministra Ana de Holanda.

Nota da coluna de Ancelmo Góis no Globo de hoje, 12 de maio, sugere que Zé Celso é ligado à Juca Ferreira e integrante da campanha contra a Ministra, e ainda afirma que a gestão anterior do MinC desembolsou uns 12 milhões para apoiar projetos teatrais da cia.

É sórdida a campanha da imprensa para derrubar Ana de Holanda.

Antes de participarmos do encontro da Ministra com produtores culturais na terça feira na Assembléia Legislativa, na casa de Zé Celso lemos a cobertura dessa novela nos jornais, que se utilizam de qualquer pretexto para atacar Ana, criando polêmicas e indignações.

Um dos casos mais ridículos é a manchete revelando que sobrinha da ministra foi autorizada a captar R$1.900.000,00 para turnê pelo Brasil.

Bebel Gilberto deve ser proibida de captar dinheiro pelo Ministério?

A cobertura jornalística nos inspirou a ir para o encontro dispostos a apoiar Ana de Holanda, a apoiar a Ministra da Cultura do Brasil num momento grandioso do país, de crescimento econômico e que precisa também de crescimento cultural que vertiginosamente acompanhe a ascensão de povo brasileiro.

A cia que existe desde 1958 sempre tocou em tabus. Nesse momento, sem nenhuma verba pública, nem privada, estamos encenando um espetáculo a partir do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade.

A fala de Zé Celso na Assembléia foi interpretada pela imprensa como bate boca, graves ataques, e agora nos colocam em grupos conspiratórios para derrubar a Ministra.

O momento é muito complexo, e acreditamos que e um apoio ao Ministério da Cultura do Brasil nesse momento glorioso do país, não pode ser blindado, não pode ser um apoio personalista, e principalmente, esse apoio pode e deve ter contradições.

Existem insatisfações com a atual gestão? Sim.

E a partir daí, o que fazemos?

Como os artistas, os produtores de cultura e o público podem participar dessa transição?

Existe uma mudança concreta nas políticas?

O movimento fica Juca era concretamente pela continuidade das políticas e das conquistas da gestão anterior.

O gestão Ana deve superar a anterior e para isso deve, sim, levar em consideração as duras críticas.

Mas daí a imprensa utilizar qualquer manifestação pública pra criação de dramaturgia conspiratória… Sinistro…

Ano passado fomos apoiados, sim, pelo Ministério da Cultura.

Recebemos, através de convênio com o MINC, R$7.452.920,00 para o projeto Dionizyacas em Viagem, onde montamos teatros de estádio em Brasília, Salvador, Recife, Belém, Manaus, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo para 2000 pessoas, com ingressos gratuitos, além da continuidade do trabalho do Movimento Bixigão em São Paulo na sede da Cia, e de uma experiência de uma semana ensaiando em Inhotim e criando um espetáculo inédito, a Macumba Antropófaga. Ao todo éramos 61 pessoas viajando, mais 28 no Teatro Oficina SP, além de todas as pessoas locais contratadas. Em cada cidade ficamos aproximadamente 15 dias, pois além dos quatro espetáculos gratuitos do repertório, realizamos oficinas gratuitas de todas as artes que compõe nossas encenações: atuação, direção, música, vídeo, luz, sonoplastia, figurino, arquitetura cênica, produção, divulgação, e transmissão e difusão. Os espetáculos também foram gratuitamente transmitidos pela internet. Em muitos estados nós montamos nosso estádio em periferias, o que possibilitou a maravilhos mistura de público, muito necessária e saudável para a cultura.

Através de convênio também recebemos R$ 200.000,00 da Secretaria do Audiovisual para a finalização do documentário Ardor Irresistível, de Ava Rocha, sobre a ida da companhia com os 5 espetáculos dos Sertões para o sertão de Quixeramobim e Canudos.

E, por fim, através da Lei de Incentivo, R$1.200.000,00 da Petrobrás. Uma parte dessa verba é para o projeto Cortinas Lyricas, que está em cartaz no Teatro Oficina todos os sábados e domingos com música erudita, cobrando ingressos a R$1,00 e a outra parte para a finalização de 4 filmes realizados a partir das peças realizadas no ano do cinquentenário da cia, 2008: Vento Forte pra um Papagaio Subir, Cypriano & Chantalan, Taniko e Bandidos.

O valor total, somados os investimentos direto do governo e de empresas, é R$ 8.852.920,00 para 5 filmes, 38 recitais de música erudita, 32 espetáculos para multidões, todos transmitidos pela internet e oficinas para mais de 1000 pessoas.

Segundo a coluna, nós recebemos uns R$ 12.000.000,00.

Agora a Cia. está sem nenhum incentivo, a multidão que trabalhou em 2010 se dispersou e apenas um pequeno grupo resistente trabalha diariamente. Os R$ 3.147.080,00 que é a quantia que falta nessa conta de 12 milhões, estão fazendo falta…”

O Bárbaro Tecnizado – entrevista com Miguel Nicolelis no Estadão

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Entrevista com o “Miguel Nicolelis , o Barbaro Tecnizado “de 1 de maio de 2011| 18h33

Por Rafael Cabral

Miguel Nicolelis não precisa ser reconhecido por mais ninguém – e nem ganhar o Nobel no qual é listado como eterno candidato – para provar que é o cientista brasileiro mais importante hoje. O paulistano da Bela Vista ganhou no ano passado um prêmio de mais de US$ 2,5 milhões (R$ 4,4 milhões) dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH, na sigla em inglês) que, distribuído ao longo de cinco anos, financiará sua pesquisa sobre a fusão entre homens e máquinas, cujos resultados vêm devolvendo a esperança para tetraplégicos e pacientes de Parkinson. Há mais vinte anos à frente de um laboratório na Universidade Duke, o neurocientista acaba de reunir suas ideias, teorias e descobertas em um livro publicado em março nos EUA e que chega em junho ao Brasil, pela Companhia das Letras, como Muito além do nosso eu – A nova neurociência que une cérebro e máquinas e como ela pode mudar nossas vidas.

Agora, ele se prepara para finalizar seus dois maiores projetos na vida: a construção de um polo de ciência em Macaíba, Natal, e a finalização de uma veste robótica que poderá fazer que tetraplégicos voltem a andar, usando só a força do pensamento. “É o que quero fazer com um adolescente brasileiro paralisado na abertura da Copa do Mundo de 2014. Não me interesso por prêmios. Esse sim é o meu maior sonho. Se tudo der certo, esse menino dará o pontapé inicial”, promete.

E, se tudo parece dar certo, o Nobel também parece mais próximo. O cientista foi convidado para apresentar um simpósio em plena Fundação Nobel, em Estocolmo, na Suécia. Pela primeira vez, os comitês responsáveis pelas premiações nas área da Medicina, Química e Física se reuniram para organizar um evento multidisciplinar, cujo tema é justamente a fusão homem-robô, assunto do qual ele é a maior autoridade no mundo.

Quais foram as descobertas mais importantes da neurociência nos últimos dez anos?
Primeiramente, ela possibilitou observar populações de células de uma dimensão que ninguém tinha visto ainda. No meu livro, separei dez princípios descobertos pela nova neurociência. Experimentos nos últimos dez anos mostraram, por exemplo, que o processamento não é localizado, mas distribuído. Que os neurônios podem participar de vários circuitos simultaneamente. Que o sistema incorpora ferramentas artificiais como extensões do modelo do seu próprio corpo. O nosso corpo não termina no epitélio, mas se estende até o limite da ferramenta que a gente usa sobre o controle do cérebro. E uma série de outras descobertas mais técnicas e específicas, mas que na minha opinião formam o corpo de uma nova ciência do cérebro.

A resposta de um membro biônico já é similar à do corpo? Pode explicar como o órgão se adapta a uma estrutura externa?
Mesmo se você enviar o sinal para o Japão e esperar ele voltar, é 20 milissegundos mais rápido do que o sinal que sai da cabeça e vai para o músculo do macaco. Mas, para que isso ocorra, o cérebro tem de ser retreinado. Esse é outro princípio, o da plasticidade, o cérebro pode se adaptar. Uma vez que você está usando um artefato robótico, artificial, o cérebro tem de remapear sua relação com ele. Nós medimos isso, pela primeira vez, em tempo real. Com isso, o que demonstramos foi a capacidade do corpo de se estender, a libertação dos limites físicos através do cérebro. A mente pode entrar em um diálogo bidirecional com outro dispositivo. Era isso que ninguém sabia ainda. Mas esse meu experimento ainda era uma parte básica da pesquisa. Na verdade, ele surgiu para tentar provar uma teoria de quase duzentos anos. Queríamos resolver essa questão, e conseguimos, mas, no processo, notamos que estávamos mexendo em uma área que tinha um enorme potencial clínico. Poderia realmente ajudar as pessoas.

Quando isso poderá ser aplicado nas pessoas?
Nos próximos três anos e meio queremos fazer a demonstração do projeto Walk Again, um consórcio multinacional de pesquisadores de neurociência e robótica que está desenvolvendo uma estrutura robótica para fazer que tetraplégicos voltem a se movimentar com autonomia completa, apenas com a força do pensamento. Estamos concluindo a primeira fase, demonstrando que é possível extrair sinais de controle motor de todo o corpo. Já mostramos que isso é valido para os membros superiores e inferiores e agora podemos controlar o balanço e o equilíbrio, o que é fundamental para andar.

O primeiro protótipo do exoesqueleto já foi finalizado?
O exoesqueleto está sendo desenvolvido por um roboticista com o qual trabalho há muitos anos, Gordon Cheng. Está sendo finalizado agora, em Munique. Criamos uma versão que será controlada de forma autônoma por um macaco – o que ele pensar, a tecnologia reproduzirá. Será uma estrutura de corpo inteiro, muito similar à que estamos desenvolvendo para a aplicação clínica em pessoas. Claro que o macaco não vai sair jogando bola, mas, se demonstrarmos que ele pode ter autonomia de movimento, cumpriremos o objetivo final. Conseguimos mexer com três variáveis fundamentais: tempo – a tecnologia é mais veloz que o ‘hardware biológico’ –, espaço – o membro biônico pode estar em qualquer lugar do universo – e força – o cérebro pode movimentar um guindaste industrial ou uma ferramenta nanométrica com o mesmo esforço. O controle do robô mistura os sinais dos pensamentos com reflexos robóticos. É como se fosse o corpo da gente, que tem comandos central e local. Ele é movimentado por motores hidráulicos. É feito de um material muito leve, que, apesar de resistente, pode ser dobrado.

Que tecnologias podem surgir a partir do seu trabalho?
O aprimoramento da nanomedicina, por exemplo. Será possível fazer intervenções dentro da célula, retirar uma única célula cancerígena. Teoricamente, com a nossa tecnologia, no futuro, o operador poderia controlar essa ferramenta diretamente pela mente. Também seria possível controlar um foguete com a força do pensamento, ou mesmo um avatar.

Isso não é só ficção?
A prova de que isso não é ficção é que a maioria das grandes empresas de tecnologia do mundo já têm departamentos dedicados a estudar o impacto da tecnologia no cérebro e o desenvolvimento de interfaces entre a mente e os computadores. Google, Microsoft, Intel e IBM já têm essas divisões, o que é uma coisa inédita. Eu mesmo já fui palestrar no Google três vezes.

Muito picareta entrou nesse ramo nos últimos anos, puxado por essa onda do futurismo?
Sim, muitos. A maioria ligada a essa história de Singularidade, essa ideia de que as máquinas podem resolver todos os problemas humanos. Acho mais fácil ter uma invasão de aliens que isso que eles propõem acontecer. Eu tenho uma opinião totalmente oposta a deles. Não acredito na proposta filosófica de que as máquinas vão dominar o mundo e nos substituir. Acredito no oposto, que qualquer máquina é uma imagem do que nosso cérebro imaginou. Elas são continuações do nosso processo de pensar ou de tentar imitar a natureza. Acredito em um simbiose homem-máquina em que o cérebro humano vai continuar controlando e assimilando tudo. O cérebro assimila o que usa com frequência, não é a toa que somos viciados em celular, computador, TV. Aquilo é parte de nós. A imortalidade para mim vai chegar, mas vai acontecer de outra maneira: quando pudermos fazer um download dos nossos pensamentos, das nossas ideias, das nossas memórias. Isso é possível. Tudo o que fazemos é por meio de sinais elétricos e isso pode ser reproduzido até em avatares. Mas um avatar não inventa nada, não tem novas experiências. Eu gosto dessa ideia, acho até poética, mas não tem nada a ver com a imortalidade física. No futuro, quando criarmos métodos não-invasivos para captar a atividade cerebral com grande resolução – e esse equipamentos vão vir, é inevitável – ou mesmo se um dia as pessoas acharem que tudo bem implantar um chip, poderemos registrar milhares, um dia quem sabe milhões, de células individuais ao mesmo tempo. Hoje conseguimos registrar cerca de mil células ao mesmo tempo. Nesse patamar, já é possível sonhar com alguém andando, e é isso que eu quero fazer na abertura da Copa do Mundo, aqui no Brasil, com um adolescente brasileiro.

O cérebro humano pode ser simulado por um computador?
Nunca. Não há como reduzir a nossa mente, que é o produto de uma infinidade de eventos aleatórios, a um simples algoritmo. Existe um conceito, de numero ômega, que é o número mais aleatório que se pode criar. O processo evolutivo humano é exatamente isso.

Como você vê o modelo de investimento científico nos Estados Unidos e no Brasil?
Os EUA estão em uma crise séria de pesquisa. Eles estão tendo um êxodo enorme. Ainda colocam uma quantidade enorme de dinheiro em ciência, mas o parque científico deles é muito grande. Para sustentar isso, mais de US$ 250 bilhões por ano, cerca de US$ 500 bilhões contando empresas privadas. O Brasil investe US$ 4 milhões. Quando eu falo que quero criar a Cidade do Cérebro em Natal, poucas pessoas me entendem. Mas existe algo bem previsível: alguém vai ter o primeiro parque neurotecnológico do mundo. E eu acredito que pode ser o Brasil. É o momento ideal para o Brasil se tornar um país que produz tecnologia de ponta, não dá só para ficar copiando o que os outros fazem. A nossa ciência precisa ser mais inovadora. O Brasil nunca pôde praticar a inovação. Quando conseguiu, se deu bem: Embraer, Petrobrás, Vale do Rio Doce. Mas um dia o minério de ferro vai acabar, precisamos produzir conhecimento. Temos de ensinar as crianças, desde bem cedo, a pensar criativamente. Não dá para importar inovação. Nos EUA, eles têm a ousadia no DNA, não sofrem com uma educação de colonizado como nós. Os norte-americanos não dormem no ponto. Muito menos na ciência. Quando eles veem que precisam investir, vão com tudo, como foi o caso da corrida espacial, que incentivou o pensamento criativo de uma maneira impressionante. Ainda hoje, os EUA vivem a última onda da inovação trazida pelo projeto espacial. Os engenheiros de ponta, matemáticos e molecada que cria ciência hoje, é toda daquela geração. O Brasil inteiro precisa ter uma educação libertadora. E não pode esperar que os talentos venham só de São Paulo. Pensa no Rivaldo, ídolo do meu Palmeiras. Ele foi visto na periferia de Pernambuco, jogando na rua. Se tem olheiro para futebol, por que não tem para a ciência? A academia brasileira não dá a cara para a sociedade. Nos EUA é diferente, o povo sabe que paga pela ciência. Meu vizinho chega para mim e pergunta o que estou fazendo com o dinheiro dele.

Você é um crítico do modelo de universidade adotado no Brasil, que chama de “colonial”. O que deve mudar? Como vocês estão conseguindo financiar o Campus do Cérebro, em Natal?
Somos um projeto privado, temos parcerias com o governo federal, mas temos de achar recursos no mundo inteiro. Estamos conseguindo. Para cada R$ 1 público que conseguimos, temos R$ 1 ou R$ 2 privados. Por isso, a Cidade do Cérebro, última fase do projeto, é nossa ideia de autossustentabilidade. Já a academia brasileira é muito provinciana. Vê mal quando um cientista escreve um livro como o meu, de divulgação científica. Bem, eu escrevi porque isso é importante. As pessoas têm imagens de pura ficção na cabeça, de Hollywood, e alguém precisa chegar para elas e explicar como funciona. Na área tecnológica, as pessoas têm essas fantasias de que as máquinas vão nos dominar, de que o Big Brother vai entrar nas nossas mentes. Isso tem de ser esclarecido. Nos EUA, isso é bem-vindo. Aqui não. Acredito que, no futuro, o conhecimento produzido por essas instituições será inteiramente colaborativo. É só ver o projeto Walk Again, que envolve duas instituições alemãs, uma suíça, a Universidade Duke e o nosso instituto em Natal. A lógica colaborativa é muito emblemática do que o cérebro faz, por isso funciona tão bem.

Como assim?
Eu tenho uma teoria, que ainda não posso provar cientificamente e que por enquanto é só uma hipótese, de que os modelos colaborativos funcionam tão bem porque a mente os reconhece como naturais. Somos animais sociais, não é à toa que as redes sociais são um sucesso. Temos de ter contato com os nossos pares. Nossas ações o muitas vezes são mímicas de como nossa mente age, até nossos modelos políticos refletem isso – nosso cérebro é uma grande democracia. Nós nos sentimos bem nesse modelo distribuído, exemplificado pela internet. Nossa cabeça funciona assim.