No mesmo dia que Caetano fazia sua entrevista de capa, muito bela como sempre, no “Caderno de Cultura do Estadão”, o Ministro Ecologista Juca Ferreira publicava uma matéria na Folha na sessão Debates. Um texto extraordinariamente bem escrito em torno da Cultura, como Estratégia, iniciada no 1º Governo de Lula ao nomear corajosa e muito sabiamente Gilberto Gil como Ministro da Cultura e hoje consolidada na gestão atual do Ministro Juca. Hoje temos pela primeira vez na nossa história um corpo concreto de potencialização da cultura brazyleira: o Ministério da Cultura, e isso seu atual Ministro soube muito bem fazer, um CQD em seu texto.
Por outro lado meu adorado Poeta Caetano, como sempre, me surpreendeu na sua interpretação de Lula como analfabeto, de fala cafajeste, abrindo seu voto pra Marina Silva.
Nós temos muitas vezes interpretações até gêmeas, mas acho caetanamente bonito nestes tempos de invenção da democracia brazyleira, que surjam perspectivas opostas, mesmo dentro deste movimento que acredito que pulsa mais forte que nunca no mundo todo, a Tropicália.
Percebi isto ao prefaciar a tradução em português criolo = brazyleiro do melhor livro, na minha perspectiva, claro, escrito sobre a Tropicália: “Brutality Garden”, Jardim Brutalidade, de Chris Dunn, professor de literatura Brazyleira na Tulane University de New Orleans.
Acho, diferentemente de Caetano, que temos em Lula o primeiro presidente Antropófago brazyleiro, aliás Lula é nascido em Caetês, nas regiões onde foi devorado por índios analfabetos o Bispo Sardinha que, segundo o poeta maior da Tropicália, Oswald de Andrade, é a gênese da história do Brazil. Não é o quadro de Pedro Américo com a 1ª Missa a imagem fundadora de nossa nação, mas a da devoração que ninguém ainda conseguiu pintar.
Lula começou por surprender a todos quando, passando por cima das pressões da política cultural da esquerda ressentida, prometeica, nomeou o Antropófago Gilberto Gil para Ministro da Cultura e Celso Amorim, que era macaca de Emilinha Borba, para o Ministério das relações exteriores, Marina Silva para o meio ambiente e tanta gente que tem conquistado vitórias, avanços para o Brasil, pelo exercício de seu poder-phoder humano, mais que humano.
Phoderes que têm de sambar pra driblar a máquina perversa oligárquica, podre, do Estado brasileiro. Um estado Oligárquico de fato, dentro de um Estado Republicano ainda não conquistado para a “res pública”. Tudo dentro dum futebol democrático admirável de cintura. Lula não para de carnavalizar, de antropofagiar, pro país não parar de sambar, usando as próprias oligarquias.
Lula tem phala e sabedoria carnavalesca nas artérias, tem dado entrevistas maravilhosas, onde inverte, carnavaliza totalmente o senso comum do rebanho. Por exemplo quando convoca os jornalistas da Folha de São Paulo a desobedecer seus editores e ouvir, transmitindo ao vivo a phala do povo. A Interpretação da Editoria é a do Jornal e não a da liberdade do jornalista. Aí , quando liberta o jornalista da submissão ao dono do jornal, é acusado de ser contra a liberdade de expressão. Brilha Maquiavel, quando aceita aliança com Judas, como Dionísios que casa-se com a própria responsável por seu assassinato como Minotauro, Ariadne. É realmente um transformador do Tabu em Totem e de uma eloquência amor-humor tão bela quanto a do próprio Caetano.
Essa sabedoria filosófica reflete-se na revolução cultural internacional que Lula criou com Celso Amorim e Gil, para a política internacional. O Brasil inaugurou uma política de solidariedade internacional. Não aceita a lógica da vendetta, da ameaça, da retaliação. Propõe o diálogo com todos os diabos, santos, mortais, tendo certa ojeriza pelos filisteus como ele mesmo diz. Adoro ouvir Lula falar, principalmente em direto com o público como num Teatro Grego. É um de nossos maiores atores. Mais que alfabetizado na batucada da vida, Lula é um Intérprete dela: a Vida, o que é muito mais importante que o letrismo. Quantos eruditos analfabetos não sabem ler os fenômemos da escrita viva do mundo diante de seus olhos?
Eu abro meu voto para a linha que vem de Getúlio, de Brizola, de Lula: Dilma, apesar de achar que está marcando em não enxergar, nisto se parece com Caetano, a importância do Ministério da Cultura no Governo Lula. Nos 5 dedos da mão em que aponta suas metas, precisa saber mais das coisas, e incluir o binômio Cultura & Educação.
Quanto a Marina Silva, quando eu soube que se diz criacionista, portanto contra a descriminalização do aborto e da pesquisa com células-tronco, pobre de mim, chumbado por um enfarto grave, sonhando com um coração novo, deixei de sequer imaginar votar nela. Fiz até uma cena na “Estrela Brasyleira a Vagar – Cacilda !!” para uma personagem, de uma atriz jovem contemporânea que quer encarnar Cacilda Becker hoje, defendo este programa tétrico.
Gosto muito de Dilma, como de Caetano, onde vou além do amar, vou pra Adoração, a Santa adorada dos deuses. Acho a afetividade a categoria política mais importante desta era de mudanças. “Amor Ordem e Progresso”. O Amor guilhotinado de nossa Bandeira virou um lema Carandiru: Ordem e Progresso, só.
Apreendi no livro de Chris Dunn que os americanos chamam esta calegoria de laços homossociais, sem conotação direta com o homoerotismo, e sim com o amor a coisas comuns a todos como a sagração da natureza, a liberdade e a Paixão pelo Amor Energia, Santíssima Eletricidade. Sinto que nestas duas pessoas que gosto muito, Caetano e Dilma, as fichas da importância cultural estratégica, concreta, da Arte e da Cultura, do governo Lula, ainda não caíram.
A própria pessoa de Lula é culta, apesar de não gostar, ainda, de ler. Acho que quando tiver férias da Presidência vai decicar-se a estudar e apreender mais do que já sabe em muitas línguas. Até hoje ele não pisou no Oficina. Desejo muito ter este maravilhoso ator vendo nossos espetáculos. Lula chega a hierarquia máxima do Teatro: a que corresponde ao Papa no Catolicismo: o Palhaço. Tem a extrema sabedoria de saber rir de si mesmo. Lula é um escândalo permanente para a mente moralista do rebanho. Um cultivador da vida, muito sabido, esperto. Não é a toa que Obama o considera o político mais popular do mundo.
Caetano vai de Marina, eu vou de Dilma. Sei que como Lula ela também sente a poesia de Caetano, como todos nós, pois vem tocada pelo valor da criação divina dos brazyleiros. Esta “estasia”, Amor-Humor, na Arte, que resulta em sabedoria de viver do brasileiro: Vida de Artista. Não há melhor coisa que Exista!
Lula faz Política Culta e com Arte. Sabe que a Cultura de sobrevivência do povo brasileiro não é Super, é Infra Estrutura. Caetano sabe disso, é uma imensa raiz antenada no rizoma da cultura atual brazyleira renascente de novo, dentro de nós todos mestiços brazileiros. Fico grato a Caetano ter me proporcionado expor assim tudo que eu sinto do que estamos vivendo aqui agora no Brasil, que hoje é um País de Poesia de Exportação como sonhava Oswald de Andrade, que no Pau Brasil, o livro mais sofisticado, sem igual brazyleiro canta:
“Vício na fala
Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para peor pió
Para telha dizem têia
Para telhado dizem teado
E vão fazendo telhados”
Zé Celso
SamPã, 6 de novembro
sob o signo de Escorpião
sexo da cabeça aos pés
minha Lua de Ariano
EVOÉROS
Tags: analfabeto, caetano veloso, lula, marina silva, presidência da república, voto
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Poderia dizer o clássico: “sem comentários”, como sinal máximo de desaprovação, ao contrario, de um modo zen na não fala. Respeito a opinião do Caetano, respeito mesmo para dizer que foi uma das maiores babaquices que o poeta falou…o que lhe confirma a características humana, demasiadamente humana. Lamentavelmente o o mano Caetano repetiu as besteiras que a oligarquia sempre falou sobre o Lula e, sinceramente esperava uma lucidez maior dele.
Por outro lado o post do Ze Celso está quase perfeito (se fosse perfeito os deuses teriam inveja…rs).Nunca havia pensado na sabedoria carnavalesca nas artérias. Zé Celso para variar, lança um novo olhar sobre as coisas, um novo falar, é uma espécie de sabedoria tropicalista nas artérias…
Herli Menezes
Estava procurando uma forma de me comunicar com Zé Celso, que aprendi a amar com meu pai, quando me deparei com este belíssimo artigo dele. O melhor artigo que li este ano (e olha que o ano está acabando!), de uma reflexão digna do grande filósofo-direto-pensador de nossa realidade.
Vim somente avisar sobre o Instituto Osmar Rodrigues Cruz que criei por paixão ao meu pai. Sei que de onde estiver ele gostaria que avisasse você. É o site aí de cima.
Um grande beijo Zé, sou sua fã que te ama!
Também gostaria de dizer “sem comentários”
Adoro você Zé, sempre estou no Oficina…
Mas, será que estamos pensando na mesma pessoa?
Aquela do apadrinhamento e do acobertamento, do “não vi” e “não sei”, dos aloprados, etc… e esta Sra?… da pressão, do jeitinho, da truculência…
Honestamente, não vejo nada de “carnavalesco”… “sabedoria” sim, mas em causa própria…
uma tragédia atrás da outra… só isso…
e Caetano… só teve bom senso em seu artigo, nada mais…
E eu? me levantaria e sairia do Oficina se este “Sr” entrasse, tomara que nunca apareça…
Zé Celso
que bom que vc existe!
A alma foi lavada,
não é pequena
Valeu a pena
Zé, estou orgulhoso de ter postado no blog Jeito Baiano este seu artigo fazendo contraponto a um post anterior que reproduz a entrevista de Caetano. Achei o resultado bom, confira:
http://jeitobaiano.wordpress.com/2009/11/11/ze-celso-se-opoe-a-caetano-com-amor/
Para mim foi como fazer uma intervenção tropicalista, introduzindo a Antropofagia na discussão sobre o jeito baiano de ser, que é a temática desse blog que criei e edito com a ajuda de alguns amigos. Gostaria de saber quem fez aquela bela foto sua, Zé, que pesquei no Google-imagens, pra poder botar o crédito na legenda.
Queria lhe dizer também, Zé, que faço questão que conste da minha biografia o fato de eu, com muito orgulho, ter guardado em minha casa – na Previdência, região de Pinheiros-Butantã, quando eu morava em São Paulo, final da década de 70, em plena ditadura militar – parte considerável do acervo do Oficina. Lembro do dia em que entrei na garagem de casa dirigindo a minha Variant, Zé Celso no banco do carona, descemos do carro, abri o porta-malas e lá estava um monte de pastas, papelada, livros e entre estes destando-se logo acima, “Os Sertões”, que Zé pegou, folheou e fez uma profunda declaração de amor/identificação com a obra de Euclides da Cunha.
Eu havia conquistado a confiança do Zé depois de entrevistá-lo para o Folhetim, suplemento dominical da Folha de S. Paulo, logo após sua volta do exílio. Foi daquelas entrevistas de fazer a cabeça de todo mundo, a começar do próprio repórter.
Tenho outro episódio zecelsiano que faço questão que conste da minha biografia. Ainda como repórter do Folhetim, colhi um arrebatador depoimento de Glauber Rocha, na sede de sua produtora, em Botafogo, no Rio, e como preparação para esse feito ouvi antes em São Paulo várias pessoas importantes falando de Glauber, uma delas o Zé. Pois ao final de suas declarações, o Zé iniciou um ritual carregado de simbolismo, ao me mandar entregar ao Glauber sete cabeças de maconha – eram sete “camarões” grandes, alongados e que terminavam com uma cabeça entumecida. Ao entrar no escritório da produtora de cinema, Glauber me esperava sentado fumando Hollywood. Sentei, contei meu projeto, relatei os comentários e declarações sobre ele que colhi em São Paulo e deixei os de Zé Celso para o final. Aí tirei da bolsa as sete cabeças de fumo e coloquei em cima da mesa, explicando que era um presente ritual de Zé Celso. Sem esperar minhas explicações, Glauber arregalou os olhos para aquela coisa e se voltou para mim com fúria cangaceira, dedo em riste: “Você é polícia e quer me fudê!!” Consegui acalmá-lo repetindo as palavras do
Zé que agora não recordo mais, e Glauber tirou um cigarro do maço de Hollywood, esvaziou-o, dichavou rapidamente uma das cabeças, preencheu com a erva o cigarro vazio, acendeu-o e começou a dar a entrevista falando sem parar por mais de uma hora de maneira a tornar desnecessária qualquer pergunta do repórter… Me orgulho do resultado dessa entrevista que já vi citada em pelo menos dois livros, sendo que em um deles a entrevista foi transcrita na íntegra e apresentada como “o pensamento político de Glauber Rocha”.
Zé, queria lhe dizer também que migrei para a Bahia em 1987 e vivo há 22 anos com a cantora Vilma Nascimento, negona, prima do Milton, que fez um curso com você aqui em Salvador. Quando vier para cá na próxima vez gostaria de vê-lo. Você me acha no jornal A Tarde, onde sou editor de Opinião, e tenho como colega e amiga a Eduarda Uzêda, que você conhece. Beijos tropicalistas, Jary
Zé, que ensaio maravilhoso e importante de ser lido, vou repassar
bjsmil
paula gaitan
O texto sobre Lula e Caetano é maravilhoso, é muito mais que sobre Lula e Caetano, é sobre Cultura no sentido Antropofágico, a cultura em movimento, em transformação, e sobre a Grande Política da transformação humana e além do humano, muito além da pequena e mesquinha política das declarações moralistas e preconceituosas daqueles que acusam Lula de não saber falar etc. Agradeço aZé Celso por abrir nossas consciências para muito além dos limites burocráticos estabelecidos por uma discussão estreitíssima, míope e astigmática da política e da cultura!
Também digo sem comentários porque aprovo na íntegra. Como uma louvação aos phoderes transformadores.