Peça do Oficina explica muito bem como energia e instinto acompanhavam o início de carreira da grande atriz Cacilda Becker
Crítica Mariangela Alves de Lima
O Estado de São Paulo
No programa da peça, bem instrutivo, há, entre muitas outras coisas interessantes, o brado guerreiro com que o Teatro Oficina Uzyna Uzona desafia os empreendimentos artísticos comedidos: “Atravessando heroica, doida e prazerosamente a era da ditadura dos monólogos.” Como tudo o mais no espetáculo, o lema é o incitamento poético à generosidade. Na verdade, este resistente coletivo teatral está sempre de ouvido colado nas pulsações da cultura brasileira e, portanto, ciente de que vive em meio a outros projetos teatrais igualmente desdenhosos da prudência empresarial e artística. Mas, talvez porque venha exercitando há décadas a proposta de atribuir ao coro o protagonismo da criação artística, a formalização espetacular do Oficina parece ter sempre uma dimensão superlativa. Contra a pequenez do monólogo de conveniência, ergue-se um verdadeiro macaréu.
Estrela Brasyleira a Vagar – Cacilda!! talvez movimente em cena um número de intérpretes igual ou inferior ao de outros espetáculos produzidos por grupos teatrais, mas a impressão é a de que há uma multidão atlética, veloz, emergindo da frente do teatro, dos fundos, do subsolo e das paredes, evoluindo em sincronia com a música e com o aparato cenotécnico para preencher a totalidade do espaço e fazer ferver ao ponto de ebulição a capacidade da plateia de absorver estímulos sensoriais.
Em abundância proporcional desdobra-se a trama de signos visuais rigorosamente fundados em pesquisas da iconografia e na documentação escrita sobre o período histórico circunscrito pela biografia da atriz em que a peça se inspira. Cada personagem e figurino respectivo, cada mudança de espaço ou tempo, cada trânsito entre diferentes poéticas teatrais vivenciado pela protagonista tem o seu emblema próprio, cujo referente é uma ocorrência no plano da história das pessoas ou das ideias. Transtornados, decantados pelo tratamento poético ou crítico da ficção de José Celso Martinez Corrêa, ainda assim esses elementos simbólicos remetem à época e às realizações de três gerações de criadores, homenageiam os artistas do passado enquanto sugerem a genealogia do teatro contemporâneo. São imagens e cenas de articulação interna complexa, engenhosas e genuinamente poéticas em razão da capacidade de síntese, a um só tempo informativas e indicativas de um universo paralelo. Para quem tem vocação para hermeneuta, o programa do espetáculo dá pistas esclarecedoras. Porém, os que preferem o voo livre, estão bem amparados por vestígios documentais suficientes e incitações a uma leitura criativa e pessoal. Espectadores fiéis, por exemplo, serão particularmente vitimados pelo golpe de teatro que faz emergir de um ovo dourado, agora no papel de Sérgio Cardoso-Hamlet, o jovem ator Ariclenes Barroso. Pois não é que vimos o menino crescer? Pois esse laço tribal, íntimo, entre um grupo de meio século e seu público, também integra a rede significativa de encenação.
De qualquer forma, a julgar pela possibilidade que o espetáculo oferece de transcender o particular, a hagiografia não é vocação do Oficina e a estrela que preside este espetáculo, embora vague pelos céus do País ainda como partícula, aspira ao todo maior da constelação.
O estranho, aparentemente errático e, sobretudo, livre caminho percorrido por Cacilda desde os saraus santistas da infância até as companhias profissionais cariocas, passando pelo teatro comercial e pelos grupos amadores de vanguarda, tem, na perspectiva do espetáculo, o ímpeto da energia pulsional. Enquanto não distingue, não separa e age movida pela sedução do desconhecido ou pela convicção de um destino artístico, a protagonista experimenta a multiplicidade, encontra diferentes mestres. Mais tarde, tornando-se figura de proa do moderno teatro brasileiro, a atriz que inspira o espetáculo levará consigo como um enxoval, na interpretação que dela faz o Oficina, uma mescla única e uma abertura singular para todas as vertentes da cena. Para a fulguração estelar convergem diferentes cartilhas estéticas, tradições e técnicas que a mocinha dos anos 40 absorve e leva adiante como o “cordão de ouro” que alinhava os episódios dessa narrativa e tem, em sua composição, três cores primárias e todos os matizes possíveis.
Há muito tempo – basta dizer que foi antes que os baianos o fizessem – o Oficina introduziu nos palcos da classe média culta a discussão séria sobre os temas da cultura de massa e da indústria cultural. Distinguiu tendência dentro desse campo, fez alianças até então improváveis, separou criticamente as noções de “massa” e “popular” e malhou o que, de um ou de outro lado da arena cultural, julgava impositivo e, portanto, uma forma de “imperialismo.”
Na trajetória do grupo, só agora essas partículas em suspensão começam a amalgamar-se em uma espécie de camada sedimentar. Outras Cacildas se somarão a esta, promete o programa do espetáculo, e é possível que novos veios insurrecionais irrompam para transtornar o inconsciente desejo de harmonização desta fase de noviciado. Enquanto isso, com uma tonalidade pouco usual na trajetória do Oficina, esta encenação parece contemplar amorosamente a harmonia dos contrários. Pode ser que, de uma vez por todas, tenha passado o tempo em que era preciso depenar e fazer uma canja com os restos mortais de Zé Carioca.
Serviço
Estrela Brazyleira a Vagar – Cacilda!! 300 min. 16 anos. Teatro Oficina (350 lug.). Rua Jaceguai, 520, tel. 3106-2818. Sáb. e dom., 18 h. R$ 40. Até 15/11

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