Te-Ato e Emancipação – As mulheres em Cacilda!!!!!

13 de agosto de 2014

*Texto escrito pela atriz Juliene Elting para o programa do musical Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada.

Hoje é uma dessas noites, quando tudo de repente começa a fazer sentido. Tudo, desde o início, desde o primeiro dia do meu segundo nascimento, nos palcos tropicais. Tenho um insight que me toma com tamanho bomba atômica. Essa peça, para mim, é sobre a mulher.

Quando conheci a companhia fazendo Os Sertões,
em Recklinghausen, na Alemanha, me apaixonei, além de tudo e
especialmente, pelas mulheres no
palco.
Elas exalavam uma força arcaica, como nunca havia visto. Eles pareciam unidas num forte laço invisível, numa cumplicidade mágica. Ao mesmo tempo, cada uma atuava no seu ritmo único, expandindo a sua beleza particular com inteligência cênica e força pessoal. Fiquei fascinada. E deixei-me raptar pela Camila Mota e toda a Cia, que me levaram em 2005 para o Brasil. E foi aqui que percebi que eram mesmo as mulheres que seguravam esse Tyazo dourado com suas raízes fortes. Era uma tribo quase matriarcal. E eram também elas que enfrentavam o seu diretor permanentemente, em desafios criativos durante todo o processo, sem medo e com a mesma paixão incondicional pelo teatro vivo.

O maior risco – e ao mesmo tempo o maior êxtase – do fazer teatral é o momento da completa nudez. Quando todas as máscaras caem e morrem, quando não há mais nenhuma chance de se esconder, é aí que nasce a magia. Do nada brota o todo.

Na nova peça, as camadas da biografia de Cacilda e os enredos das peças originais, mais do que nunca, se confundem conosco, artistas do Oficina e seres humanos nesse mundo de 2014. A nossa vida está permanentemente em jogo, como a da protagonista. Trabalhamos com eletricidade de alto risco. Desnudamos Cacilda e, junto a ela, nós mesmos.
Cacilda como mulher e atriz atravessa o labirinto nesse novo trajeto numa transformação radical, com uma clareza que não reconheço nas outras peças. Ela não demora mais com pequenices, vai logo ao cerne das coisas. Na sua busca em pulso constante, nem ela, nem seu autor Zé Celso parecem mais querer perder tempo, como alguém que sente o tic-tac do relógio da Dama Morte.

E realmente é ela, a morte, que está presente o tempo todo. As três Cacildas flertam com ela descaradamente: Em Seis Personagens, Cacilda entra como personagem morta; em A Dama das Camélias ela morre devagar, junto ao seu amor por Celi; e em Antígone ela entra na tumba da terra decidida a ser plantada.

Na pele desses três personagens mórbidos ela luta pela vida no eterno conflito com o poder – o poder do sistema, mas também do autor, do diretor, do marido, do noivo, para afinal se entregar livre de todas as correntes ao seu único amor possível: o Te-ato. É na tragédia grega que ela assume, num ato incestuoso igual ao de Édipo, ser a eterna amante de quem a criou, de quem para ela é pai e mãe em um só: o Teatro.

E assim,
descascada, Cacilda se supera, tanto dentro da própria vida como de personagem dentro da dramaturgia do seu autor. Ela revela de vez, além da grande atriz e diva brasileira, a sua mulher arcaica. Mais ainda: Deixando
visível a fibra do seu ser. Mais puro. E sem gênero.

Não sei ainda como terminará essa viagem. Fato que não me assusta, já que o fim, como fim mesmo, nem existe. Nem na vida, nem no teatro e muito menos nesse ciclo cacíldico. Fica avisado. É pura ilusão. A única coisa que sei, desde hoje, é que Cacilda pulará do drama da saia de crinolina e vestirá as calças existencialistas para ir à rua com uma energia mais anárquica, mais bela, mais intensa e mais leve que nunca. Em 2014 ela renasce vivida pelas atrizes raízes desse Tyazo num rito que eu gostaria de chamar de emancipação, se não fosse somente mais uma corrente de palavras – que ela inevitavelmente iria explodir, eu já sei.

Imagem 01 – A Luta II – Foto Marcos Camargo
Imagem 02 – Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada – Foto Ennio Brauns
Imagem 03 – Cacilda!!!!! A Rainha Decapitada – Foto Felipe Stucchi

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