“Gloria! TBC!! Pouso e Consagração da Estrêla Brasyleira Cacilda !!!”
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Release completo da oficina no Oficina Online
“Gloria! TBC!! Pouso e Consagração da Estrêla Brasyleira Cacilda !!!”
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Release completo da oficina no Oficina Online
Na segunda fogueira de Junho – dia 24
quarta-feira
21:00hs
noite de São João ,
estréia o “Bori de Pratão”,
o Banquete de Platão encenado pelo Teatro Oficina Uzyna Uzona
oferecido a Eros.
Pentheu, Pausânias e Aristogiton y Harmódio ensaiam – videos MD
Aristogiton y Harmódio e a flauta
As oficinas sobre O Banquete de Platão, recriado por José Celso e pelo tyaso do Oficina em Zagreb, na Croácia, no 5º festival Queer, acabaram. A apresentação para o público do resultado do trabalho foi no dia 10 de maio, com presença numerosa de público. Agora o grupo seguiu para Atenas, na Grécia, para participarem das filmagens de um documentário sobre Zé Celso rodado por Tadeu Jungle.
Entre as repercussões do trabalho na imprensa o principal portal de internet croata deu matéria sobre o Oficina e publicou um vídeo com trechos da encenação. Esse portal trazia na capa a manchete: ”A Croácia não vai conseguir entrar no Mercado Comum Europeu se continuar cultivando a homofobia.” E no corpo do texto repetia-se a fala acrescentando: “pois a maioria dos prefeitos das grandes cidades da Comunidade Européia são gays.”
O diretor do Oficina deu uma entrevista a um jornal local no entanto o que foi publicado é, segundo Zé Celso, de uma “mediocridade e vazios espantosos”. Assim a partir do que havia declarado, ele refez o texto que o blog do Oficina publica.
Vocês estão pela primeira vez em Zagreb e vão ser introduzidos com uma festa de Platão. Porque exatamente Platão?
O espetáculo é uma transcriação do texto de Platão. Eu decidi por ele porque sinto que tem a ver com o momento atual das relações culturais e políticas croatas. Eu acabei esse roteiro, escrito em versos para ser musicado, dias antes de virmos para Zagreb, mas deixei espaço para improvisação, pois trabalhamos no aqui e agora, e dedico o espetáculo ao deus grego do amor Eros, ao Cupido e ao meu deus.
Você trabalhou com com atores croatas e artistas nesse espetáculo? Como foi?
Sim, trabalhamos. Através dos ensaios com atores croatas o trabalho foi ganhando sua forma. A mensagem toda do espetáculo foi formada durante os ensaios, com os atores, seguindo suas emoções e reações. Nos olhos deles e nas palavras explicitadas eu pude reconhecer o medo, relacionado à homofobia, em sua sociedade, que hoje ocupa o lugar que era do nazismo e do stalinismo. No início, depois de projetarmos o video de “Bacantes”, nossa encenação do espetáculo de Eurípedes, muitos atuadores desistiram do trabalho e apenas alguns entraram mas depois os mesmos que tinham desistido voltaram. Temos apenas seis dias para nos prepararmos e é certo que a maioria dos atores não vai saber exatamente seu texto mas isso vai dar a eles a oportunidade de atuarem realmente para fazer acontecer um ato político corajoso de afirmação do amor livre e do Poder do Teatro. O espetáculo será em brasileiro e também em croata. No Brasil ele será influenciado pela montagem croata mas recriado nas condições bem diferentes do atual movimento cultural político libertário e poético do Brasil de hoje.
Qual é exatamente a mensagem de seu espetáculo?
Eu não gosto de teatro de mensagem. Nós, o grupo de seis brasileiros e os artistas croatas queremos passar sensações, sentimentos, emoções táteis, concretas, amorosas, que transcendam rotulações simplistas e didáticas – o amor não é uma mensagem, é uma prática de vida, e apesar de muitas pessoas acharem que é sobre homossexualidade, não é. É sobre o amor de qualquer tipo, porque para mim não há o amor heterom ou o amor homo, é apenas amor. NO entanto não pode existir liberdade em nenhum sentido, principalmente amoroso, se qualquer forma de amor for cerceado, demonizado, como o é agora na Croácia pelos fiéis a Igreja Católica Apostólica Romana. No Brasil está-se passando uma lei que considera a homofobia um crime contra a humanidade. Muitas pessoas hoje fazem guerra contra o amor, mas nós estamos lutando pelo amor. E não precisamos de armas para isso, nossas armas são música e poesia. Amor, assim como teatro, dá poder, cultiva a vida, e necessitamos, a todo tempo, poesia, como ar.
Seu grupo de teatro, chamado Teatro Oficina, celebra seu quinquagésimo aniversário esse ano. Quão longa foi a viagem?
Muito longa e difícil com muitas interrupções durante a repressão militar. O grupo foi formado em 1958 por gente jovem da classe média que estava estudando na universidade de Direito à época. Foi formado pelo poder revolucionário dos fins dos anos 50 e todos 60, em que nós e todos, os “pequenos-burgues”, jovens, queríamos nos suicidar enquanto classe e ressucitarmos como revolucionários, diferente do que acomtece com a pequena burgesia hoje que quer defender seus pequenos privilégios diante da mudança de era em que vivemos. Tínhamos a influência do teatro russo que nos levava a quebrar os clichês de nosso corpo possuído pela máscara pequeno burguesa, por isso a peça de Gorki “Pequenos Burgueses” foi um sucesso sem precedente a època, tendo sido apresentada no Brasil e na América Latina mais de 1000 vezes. No início nosso trabalho estava indo muito bem mas durante os anos 60, quando a caça dos militares começou, nosso teatro foi incendiado por grupos paramilitares. Tivemos que recrcontruir o teatro e nossa maneira de ver o mundo.
Teatro Oficina foi um dos fundadores da Tropicália, movimento que deixou um grande traço na cultura brasileira?
Sim, foi duranre o tempo da ditadura quando nós tentamos reconstruir nosso teatro novamente. Nós achamos inspiração em um poeta chamado Oswald de Andrade, morto havia mais de 10 anos e com a obra lançada ao ostracismo. Oswald tinha criado em 1928 o Manifesto Antropófago, em que afirma que a história brasileira começa quando os índios antropófagos Caetês comeram o bispo Sardinha que naufragou nas socstas do litoral norte brasileiro quando navegava a Roma para pedir ao Papa que enviasse mulheres brancas para impedir o continuamento da mestiçagem entre os portugueses e as índias. O Movimeto Tropicália nasceu naturalmente, vindo de um transe transe como o desta nova era que estamos vivendo, no CHANGE que deu vitória a Obama, e conectou muitos naquela época a esse movimento. A Tropicália devora todas culturas, inclusive a colonialista do Hemisfério Norte, e assumiu durante o maniqueísmo da Guerra Fria, toda cultura dos índios brazyleiros, seus rituais, sua bruxaria, a dos afro brasileiros ex-escravos, toda a contribuição milionária dos erros da cultura dos emigrantes de todo mundo que chegam ao Brasil, também as culturas do então chamado terceiro mundo e também as inovações do Hemisfério Norte, principalmente da contra-cultura americana, no rock dos Rolling Stones, e dos movimentos de 68 em todo Planeta, mas sempre com o suíngue das batidas do dytyrambo, dos tambores que deram origem ao samba, ao rock, ao reggae, ao rap, ao hip hop, etc. As mesmas transformações por que passava o Oficina estavam no cinema de Glauber Rocha, na música de Catano Veloso e Gilberto Gil, na retirada dos quadros da parede para vestí-los no corpo para dançar pelo artista plástico Hélio Oiticica, inventor da “instalação” no mundo das artes plásticas. Estavam também na revolução teológica de Zé Vicente, dramaturgo que mais que liberou, sagrou a sexualidade como divina em sua obra “Santidade”. O movimento continua, com a mema força. Continua nessa mudança agora explícita na Era que vivemos hoje em 2009.
Em 1993 nós reconstruímos pela 3ª vez nosso espaço cênico na forma de um Terreiro Eletrônico, uma Rua aberta para a Cidade, com os 4 elementos da natureza: terra, fogo, água e ar, mas ampliados por todas as mídias da revolução digital, criando a “Ópera de Carnaval Brazyleyra da TragiComedyOrgya Electro Kandomblaika”, o fim do Drama e da Drmaturgia, e começamos a existir oficialmente novamente.
Nosso projeto futuro é, depois de 29 anos de luta com o Grupo SS de especulação Video-Financeira que quer construir 700 apartamentos em torno de nosso teatro, tombado, preservado como Patrimônio Histórico de São Paulo destruindo assim a obra de arte da grande arquiteta italiana Lina Bo Bardi, é construir um espaço público: o Anhagabaú da Feliz Cidade, com um Estádio de Teatro, uma Universidade Antropófaga, uma Oficina de Florestas, para disseminar áreas verdes numa cidade como São Paulo diferente da riqueza de verde de Zagreb, e uma Ágora para o Bairro do Bixiga, centro, umbigo de São Paulo, criando assim uma área para encontro de toda cidade, fora dos guetos atuais pobres e ricos. Um Centro de misturas de todas as classes, bairros, culturas, etc…
Em turnê pelos Estados Unidos, Zé Celso e Marcelo Drummond encontram-se com Gerald Thomas, Judith Malina, Flora Sussekind e o público no Theaterlab em Nova Iorque para assistirem à projeção de Bacantes, dvd recém-lançado do Festival Teat(r)o Oficina. Em seguida conversam sobre a cultura de Dionisos como mostra este vídeo fotografado por Marcelo Drummond. A segunda parte pode ser vista na tvuzyna.
…minha gente, era triste e amargurada, inventou a batucada, pra deixar de padecer, salve o prazer, salve o prazer…
Missão do day after: escrever sobre a surpresa de uma estréia calorosa ontem: “o Olimpo de Dionisios é o público”.
No café da manhã após o ensaio, tomado antes de dormir, além da preocupação da coriféia da voz Letícia Coura com a não compreensão do texto das cantadas do coro – quando quem canta ou fala não está com a compreensão do dito, tornado canto pois encorporado, passar o recado torna-se tarefa insuperável – Catherine Hirsch comentava a falta do público no ensaio não apenas como ambiente de reverberação mas da entidade público na incorporação do rito báquico pelo coro. “Lá longe, os moradores do éter, os urânidas, são o nosso público”, canta a coriphéia negra. À noite, quando afinal Ele compareceu, bacante, ou seja, participante, ainda antes das 19:00hs quando as primeiras pessoas se juntaram diante do portão do Sesc esperando por sua abertura, começou a entrar quinze minutos de pois e e avançou pelo teatro adentro até minutos antes do início do espetáculo. Assim alguns curiosos, seres adorados na arte teatral, puderam de longe, procurando se aproximar do guarda-corpo do andar superior, ouvir o aquecimento vocal e os comentários do ensaio geral que continuaram além da hora marcada para o início do espetáculo. Cada um desses observadores de um bastidor aberto e no meio da pista, deveria ser entrevistado para contar de que maneira as impressões da preparação se desfizeram pelas horas de peça depois. Com atraso de vinte minutos o boiadeiro entrou pra tocar no berrante o sinal inicial.
As 330 cadeiras plásticas verdes distribuídas pelo espaço nas laterais da pista e ao redor do vão central dispunham-se para o observador sobre as frisas improvisadas à maneira de um leito de rio coberto de líquens. Rapidamente a caudal de homens e mulheres, adultos de todas as idades, correu por entre as camadas desse substrato e num rápido eflúvio encheu os vãos, vazando. As câmeras e microfones da TV Sesc, distribuídas ao redor da pista, davam a aparência de um set de filmagem ao território, solto no meio do vão central. Os coros atracam com o Carro Naval no lado sul da pista, desembarcam tomando o canal, e começam a gira:
“Das terras da Ásia
das santas montanhas floridas do Tímolo
eu chego
com o deus do barulho.
Evoé Baco!”
A ondulação das arquibancadas em degraus descendentes em direção à pista propicia a ocupação dos espaços entre as cadeiras pelo coro. Ditirambando o coro do Oficina joga na posição em que jogava o coro grego, aproximando a atuação ao público pelo canto ritmado com o toque da banda. No entanto, durante o início da peça, um véu separa o público da pista. O véu, que ao tornar as figuras e os cenários nebulosos distancia a antistrofe com que se anuncia desde longínquas eras o canto de Dionísios:
“Quem está por aqui?
Quem?
Pra si, si
Pra mim, mi
Pro sol.
Lábios molhados,
Silêncio…
Cio sagrado
Vamos cantar os hinos
dos ritos de Baco”
O véu é retirado e o observador passa a ver com nitidez os atores e o cenário quando Hera, por ciúmes, cega aquele que vê demais, Tirésias, que passa a ser o vedor. Do amor mortal de Semele com o imortal de Zeus nasce Dionísio.
“HERA: Tirésias! Você que foi os dois / quem goza mais: o homem ou a mulher? TIRÉZIAS: A mulher. Dez vezes mais. HERA: Tirésias, quem goza mais / A imortal ou a mortal? / A esposa legítima ou a amante? / Hera ou Semelle? TIRÉZIAS: Semelle goza mais. HERA: Você vê demais. Daqui pra frente, não vai enxergar mais nada.”O coro está livre e avança sobre o público que bate palmas desde o início atordoando o diretor que pede com gestos para cessarem os estalidos que impedem a audição dos cantos mas, mais prejudiciais ainda ao rito aprisionam o corpo em um único gesto. No primeiro intervalo, entre o primeiro e segundo ato, ele vem à pista dar francamente a direção ao público: “Não batam palmas, abram os braços para liberar o corpo.” O início do segundo ato é a libertação de Dionisos, preso nos cárceres de Penteu.
“Levanta! Quebra a crista e a couraça desse que empata e que mata”O público vai bacanear junto ao coro de Mênades na cena em que pode-se vê-las acordando no meio do mato, dando de mamar aos bezerros, escolhidos entre o público. Em todo o segundo ato, em que o embate entre Penteu e Dionisos se acirra e exige de cada expectador que deixe de esperar e passe o quanto antes à catarse da escolha de um ou outro lado, público e coro se misturam e aos poucos estão cada vez mais sobrepostos os planos de gente do público ainda sentada em seus lugares, do tyaso ocupando todo o espaço, e do público que atravessou há tempo, fácil como mágica, a quarta parede construída pelos que seguiram Apolo na história do Teatro mas esqueceram-se de Dionísio.
O joelho de Camila não se recuperou a tempo mas não foi tomada a decisão drástica da cortizona. A atriz virou coribante, no meio da banda tocou o tambor e cantou ao microfone as músicas. Desse ponto privilegiado, mas externo para alguém que conhece muito bem a peça de dentro, provavelmente é possível fazer novas descobertas fascinantes mas deve ser muito mais difícil exercitar o desejo inflamado de cair na Bacanal.
O terceiro ato começa na pista com o ponto de Exu dos Rolling Stones, composto no Brasil, Simpathy for the Devil. O público ocupa a pista e dança banhado de luzes vermelhas, tomado pela “presença do Deus” invocado por Dionisos diante de Penteu que se travestiu de Bacante para espiar os ritos de Dionísio.
Proximo do final da peça, um silêncio enorme toma o espaço, já nas últimas cenas Agave reconhece a cabeça de seu filho Penteu, agarrada por suas mãos como a uma cabeça de leão. Nesse ponto culminante da tragédia máxima no rito do nascimento do teatro pelo duplo nascimento de Dionísio, primeiro parido prematuramente por Semele ao ser fuzilada por Zeus e depois gestado nas coxas escondido de Hera, havia sido ensaiado ao nascer do sol daquele dia, Agave (Cellia Nascimento), talvez o papel mais difícil da encenação, faz valer o trabalho duro do teatro, que é afinal o trabalho de Dionísio, o trabalho pelo prazer.
Dionísio (Marcelo Drummond) agradece ter sido cuspido, escurraçado, virado tabu em Tebas, e emenda “processado”, pois o Oficina encenou os Mistérios Gozozos em Araraquara e foi processado, na figura desse ator, do diretor e outros, por vilipêndio por representantes da igreja católica que emprestaram objetos sagrados àquela encenação da adaptação de Oswald de Anrdade para o texto bíblico.
Reconciliado com a Tebas de seu diretor, o Oficina encerra o primeiro dia trocando com o público em pé, aplausos. O Tyaso das Bacantes está alegre com o Olimpo que encontrou, onde jogou tudo.
Quinta-feira, 04 de setembro de 2008. Lua Nova. Noite.
Havia uma grande expectativa no dia. A cozinheira do Zé Celso e amante de santo Marilda, iria ao Teatro Oficina ajudar a atriz Célia Nascimento e todo elenco a abrir seus chacras e baixar a Pomba Gira – entidade sexual no candomblé, que abre a peça em sua primeira cena. Quando ela chegou, eu me encontrava na cabine técnica ligando cabos, computadores, monitores, rádios – toda aquela matéria que parece transmitir energia.
Não me importei com sua presença. Continuei ali, concentrado no rito inicial de mais um dia de ensaio da peça “Os Bandidos”.
Aos poucos, o batuque do percussionista Ito, e do baterista Gui Calzavara me convenceram a descer até a pista. Lá chegando, demorei um pouco a entender o que acontecia, pois nunca havia participado de um ritual como aquele.
Marilda dançava de uma forma agressiva e muito intensa, com uma sensualidade cativante, puxando e inspirando Célia a acompanhá-la no ritmo, na postura, na entidade.
Alguns do elenco, como Lucas Weglinki e Camila Mota já dançavam com ardor, mas a maioria se mostrava tímida, inclusive eu.
Depois de um certo tempo, me percebi requebrando, dançando e sentindo esta energia que ecoava por todo o espaço. Canalizei minha energia para uma garota que ali estava. Abriu-se uma roda e Marilda chamava um a um para dançar com ela, e encostava sua mão em algumas partes do corpo desta pessoa, fazendo com que ela relaxasse por alguns milésimos de segundos.
O Zé Celso se mostrava atento, concentrado na dança e naqueles que estavam na roda. Ás vezes ele interrompia uma dança e apontava para aquele que deveria dançar com a Pomba-Gira. Fez isso com atriz Ana Gui, por exemplo, que não participava da roda e desceu até o grupo por que o Zé gritava seu nome, procurando-a.
Assim que esgotaram-se as possibilidades de danças, Marilda trouxe com Marcelo Drummond uma champagne. Abriram, beberam e evocaram santos e deuses. O Zé tomou a palavra “Que o Teatro Oficina se abra para os próximos cinquenta anos!”
Descansamos um pouco até uma nova entidade baixar no terreiro: Erê-Cambalhota de Cosme e Damião, ou de Kosmos, Damian e Doum, se preferir.
Houve uma certa dificuldade inicial para conseguir transmutar de uma energia sexual, feminina, quente, agressiva, para algo muito oposto que é a energia da criança, da sinceridade, da brincadeira.
Demorou-se mais para baixar o Erê que para baixar a Pomba-gira, mas quando baixou, saímos todos correndo pelo teatro, brincando de pega-pega, esconde-esconde, e comendo balas que o Rodrigo Andreolli jogava para nós.
Neste momento lembrei-me de um sonho que tivera muito antes de começar a trabalhar no Oficina. Sonhara que o teatro era um grande circo, onde o Zé de Paiva era um acrobata, o Zé Celso o domador de leões, havia mágicos e mulheres barbudas, também. E eu pulava de ferro em ferro como se fosse o tarzan na floresta, até acordar assustado.
Senti minha mitologia viva.
Voltamos à grande roda, e sentados de quatro criávamos uma comunicação com o Erê, que não entendia os termos sexuais a que queríamos apresentá-la.
Por todas aquelas sensações sentidas tão intensamente, olhando a bigorna dourada e a árvore Cezalpina, eu buscava uma palavra que pudesse definir esse tipo de teatro. Ao meu lado, a atriz Sylvia Prado, susurrou: este teatro é demais, não é?
Apenas sorri.
A Marilda, então, despediu-se de cada um de nós com um abraço carinhoso. E saiu do teatro com uma salva de palmas.
Fiquei imobilizado, me recolocando no tempo e espaço, até lembrar-me da minha próxima tarefa: auxiliar na filmagem e fotografia d’Os Bandidos.
A Cassandra Mello vigiava a câmera de cinema emprestada de um amigo. Ricardo Morañez começou a afinar alguns refletores que fariam o contra-luz. A diretora de vídeo, Elaine César, pedia ao sonoplasta Gava para colocar uma música pesada na ação.
Alguns atores desciam preocupados com o figurino. ‘Esqueci meu chapéu, você não pode emprestar o seu?’ Perguntou-me Gui Calzavara. Corri para pegá-lo. Outros começavam a ensaiar caras e bocas. E em alguns minutos estavam todos a postos.
Mariano Mattos e eu orientávamos o elenco sobre a melhor posição para enquadrar-se no vídeo.
- A mala tem que estar na mão direita. A guitarra e o baixo podem desenhar um V. O crucifixo tem que estar acima de sua cabeça…
Elaine pedia mais 10% de um bafo de luz, enquanto observava o plano no visor da câmera. Câmera ok. Som. Ação!
No primeiro plano, os bandidos desceram desajeitados e nervosos. Repetimos. Mudamos um pouco o enquadramento, a luz, a ação do elenco.
No segundo plano já se viu algo mais organizado, mas a luz ainda não estava adequada.
No terceiro plano, Marcelo Drummond já reclavama com a Elaine: ‘Você falou só dois planos. Acabou a gravação!’
‘Só mais um, só mais um.’ Respondia ela.
Esse diálogo se repetiu durante a filmagem dos 09 planos seguintes!
O Zé Celso, sentado na cadeira de Renée Gumiel, observava tudo sem dar um comando. ‘Tá lindo! Tá lindo!’ dizia.
No último take, os bandidos desceram com as armas abaixadas, até chegarem às suas marcas e levantarem na ação da diretora.
Corta! Gritou ela.
Tínhamos o plano.
Da esquerda para a direita:
madrugada do dia 26
nossa última ação foi ouvir o mix2 do cd de Taniko
– nosso coro yamabushi está um pouco cabaço;
mas a bossa inspira um rebolado
antes disso foi ensaio de música,
um pouco difícil no começo…
quando o strume se coroou
o sonho de spielberg apareceu mais concreto
o dia 24 de agosto já ficou pra trás
cachorro louco
entramos nesse dia
criando o pesadelo de kosmos
– o degelo do império
virando sorvete gostoso
pra multidão sorver
uma dos baratos dos bandidos
é, no processo de criação,
concretizar o desejo de spielberg – jogar num time autocoroado;
acabar com o pau mandado
nossos primeiros 6 meses desse ano de cinquentenário foram de seca financeira
o patrocínio da petrobrás,
que possibilita a reunião
dessa pequena multidão dos bandidos,
podendo se dedicar inteiramente nesse trabalho,
ficando plugado 24h por dia,
só chegou no começo de julho
antes disso tivemos que agir bastante em mutirão
e de ampliar o âmbito das nossas frondes
pra absorver os escassos elementos difundidos no ar…
procriamos como coelhos:
vento forte pra um papagaio subir
exigiu a primeira tempestade na estrutura da companhia
– a saída dos nossos órgãos, troca de papéis;
um cachê pequeno pra leitura de Taniko no sesc,
na comemoração dos 100 anos da imigração japonesa,
virava o impulso pra colocar a peça em cartaz no teatro
e dava mais essa comida pros nossos corpos
a bossa iogui rebolada cantada com a delicadeza do nô,
renascendo nossas vozes arregaçadas nos anos da vida sertaneja;
o borí encenação do manifesto antropófago
foi o canal pra contracenação com o sesc,
com o ministro da educação,
e com todos os inimigos muito bem vindos à cena
o patrocínio da sabesp pra cypriano & chan-ta-lan
se multiplicou com a uzyna de energia do bixigão
e virou uma fortuna
o movimento bixigão está começando a virar um ponto de comunicação
agora, depois da experiência concreta de agir em bando,
a cia prepara Bandidos com muito mais conteúdo
ainda perdemos tempo nos ensaios,
mas as coisas agora tem uma amplitude maior de interpretação,
o tempo é favorável pra aniquilação do corpo mole
nada impede cada um de atuar
a gente não precisa depender da energia do zé,
que está bem grande e com a precisão do transe,
pra tomar o império virado sorvete
com calda de limão
e biscoito de leque da colombo
Oi Camila, é o seguinte:
Vamos dar uma matéria grande sobre os 50 anos do Oficina.
Como o ano passado entrevistamos o Zé duas vezes, queremos
dar um foco diferente e ouvir pessoas que fazem parte desta
história.
Zé é genial., todos sabem, o nome Oficina está muito ligado
a ele, mas o próprio afirma com convicção que o Oficina é
fruto da arte coletiva. E em nome desta coletividade, vamos lá :
1)Desde que ano está no Oficina?
E quais as suas funções dentro grupo?
– Estou desde 1997, sou atriz, assistente de direção, já dei
aula pras crianças e adolescentes do Movimento Bixigão
(trabalho do Teatro Oficina com os artistas do bairro, de
onde saíram as crianças do elenco mirim dos Sertões), e mais
as funções que o teatro exigir.
2)Como não recebi os releases e fichas técnicas dos
espetáculos do Jubileu, não sei se está em algum deles. Se
estiver, qual?
- O grande espetáculo do cinquentenário
é a criação desse ano.
Ficamos 5 anos fazendo Os Sertões,
um embrião de assentamento de arte:
o cultivo da terra do Oficina em São Paulo
– e das terras que passamos,
por muitas pequenas cias ligadas.
O grande elenco dos Sertões,
além de A Terra, O Homem 1 e 2,
A Luta 1 e 2,
criou bandas, shows, discos, filmes, espetáculos, amores,
comidas, fotos…
Uma Uzyna de artistas.
Nossas Presentações em Canudos ultrapassaram os limites da
comunicação com o público e injetaram o desejo incessante de
doses maiores de ligação.
Desejo de fazer do teatro uma area livre, pra serestarmos.
Os Bandidos, de Schiller,
peça parida nos ventos da tempestade do ardor irresístivel
põe em cena a contracenação entre os bandos, as bandas
e as corporações.
Muitos tipos de bandos – os criminalizados, os não
criminalizados, os de música, de teatro, de cinema,
de catar papelão,
todos que querem viver plugados;
e também várias corporações: as financeiras,
de comunicação, de entretenimento, de internet,
dos donos de aterro de lixo…
Vamos encarnar nessa peça essas personagens
e pra não encarnarmos o cliché desses protagonistas,
vamos ter de experimentar concretamente essa contracenação.
Queremos abrir pra todos os públicos:
pro que pode pagar 5 ou 1 real
e pro que paga 100 no teatro da vizinhança,
a poucos quarteirões
e que nunca veio pagar os 30 que eram cobrados nos Sertões.
São bem-vindos nesse espaço,
são protagonistas como os vizinhos que podem pagar 5 ou 1
e que também não vem.
E transformar esse tabu em totem.
Essa utopia não vai ser criada na marra,
é gostosa essa contracenação.
Não é abrir um ringue de box entre opressores e oprimidos.
Cultuar a esperteza artística.
Nos Sertões massacramos um massacre. Desmassacramos.
Vamos contracenar mais,
trazendo o público pra dançar na pista
ou deixando ele numa poltrona confortável.
Como criar uma situação para que o público do teatro não
dependa da distribuição de renda pra existir?
Esse ano temos que inventar esse espaço.
E não vamos inventar sozinhos
porque vai ser impossível ser feliz.
Vamos virar banquete pra comer e ser comido.
Estamos em cartaz com Vento Forte Para um Papagaio Subir,
vamos fazer Taniko, nô japonês que fizemos pra celebrar os
10 anos da Ethernidade do Luíz Antônio em 23 de dezembro de
1997
e vai ser recriado
pra comemoração dos 100 anos Imigração Japonesa no Brasil,
o Tokyogaqui que vai acontecer no Sesc Paulista.
Cypriano & Chan-ta-lan, escrita pelo Luíz e pela Analú
Prestes; lançar os DVDs dos Sertões
e os de Boca de Ouro, Cacilda!, Bacantes e Ham-let,
dvds patrocinados pela Petrobrás;
abrir o teatro pra música
e no fim do ano fazer um grande show com músicas do
repertório desses 50 anos
Bandidos,
a peça pra inspirarmos em todos os atos,
também bancada com energia Petrobrás
e a exposição dos 50 anos do Oficina
que queremos que seja no Sesc 24 de maio,
onde era a Mesbla, o Mappin,
mas está com uma grande parte do prédio ainda interditada.
Uma exposição sensorial pras pessoas viverem esses 50 anos,
todas as fases: a encubadeira, os pequenos burgueses,
a antropofagia, o desbunde, a repressão,
o rock’n'roll, o forró, a uzyna…
No centro de São Paulo recriarmos esse percurso.
Vou atuar nos Bandidos, Taniko, Cypriano, estou na
bilheteria de Vento Forte, quero cantar no show,
mas a minha protagonização
e a de cada atuador do Teatro Oficina Uzyna Uzona
vai ser ligando tudo!
3) O que este trabalho (período com o Oficia) trouxe para a
sua carreira e vida pessoal?
- Liberdade.
4) Quando se fala em grupo Oficina, automaticamente a
marioria das pessoas remetem a Zé Celso. Isso é bom ou ruim
para quem faz parte do grupo?
- A gente não tem mais tempo
de ficar especulando se isso é bom ou ruim.
Temos que agir,
inventar uma comunicação concreta.
Furar o bloqueio com formas novas e velhas necessaries.
O Zé existe, é concreto, contracena.
Muitas vezes querem fazer dele uma instituição de alguma coisa,
do ócio, da orgia, das drogas, de Baco, do carnaval…
Ou ele é condenado a ficar isolado
como a única coisa que presta no Oficina,
com pessoas fazendo declarações estúpidas
pra fazer dele maravilhoso
e num altar,
sozinho…
Não entenderam nada…
Zé Celso é uma antena, que capta desejos do coletivo,
tem também os seus desejos,
é muito forte, tem muita energia e vontade de contracenar.
Claro que é um grande encenador, compositor
e mais uma lista enorme de coisas que posso colocar
com minha inspiração de apaixonada por essa arte que aprontamos.
Ele É um corifeu
que deseja uma cia de corifeus
que desejam fazer do público outros corifeus…
A gente tem meter os peitos.
5) Em que momento a “arte coletiva” acontece?
- Acontece nos ensaios, compondo músicas, criando obras
gráficas, bigornas douradas, flyers, entendendo os contratos
com patrocinadores, administrando o dinheiro, querendo
inventar outras divulgações…
A estréia do Vento Forte foi assim.
Estamos ainda sem o dinheiro em caixa,
mas não podemos ficar com o Teatro fechado,
fizemos um mutirão,
com os atores que não atuam na pista
atuando em outras funções.
Tudo isso pra ficarmos com o corpo coletivo ligado.
6) Como é trabalhar com Zé Celso e com um grupo tão numeroso?
- Maravilhoso.
E não porque é bom, ou ruim.
A gente vive muita coisa junto, delícias extraordinárias,
uns buracões bizzarros,
kaos,
marasmo…
Tudo.
A povoação foi aumentando e os acontecimentos junto.
E dá muita energia a ligação em muita gente pra jogar.
Se o grupo já é numeroso, com público é maior ainda.
O que é o Teatro Oficina pra você?
- É da hora.
9) Tem algum episódio que lhe marcou?
Muitos. É uma vida cheia de aventuras.